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Dentro do carro, observava a figura caminhar pela calçada com uma sacola de supermercado na mão. Conhecia aquela face de um ódio antigo e aquela seria a noite de esquecer.

Ficou no carro até que o vulto passasse em direção a uma das casas simples que havia ali. Apenas quando ele pegou as chaves, saiu.

Andou na direção dele, sentindo uma série de emoções contraditórias entre a excitação e o medo. Alcançou quando o outro girava a chave na tranca da porta. Cutucou seu ombro. Queria que visse. Queria ver.

Houve surpresa no rosto que se virou, mas logo veio também o pânico, assim que o taser entrou em contato com a pele. Um minuto era suficiente e o corpo despencou no chão.

Foi um alívio. Conseguira começar e agora tudo seria mais fácil. Enquanto planejava, em detalhes, aquela noite, pensar que haveria hesitação, medo, gritos. No entanto, tudo o que sentia era seu coração acelerado, cheio de ansiedade.

Abriu a porta e arrastou o corpo para dentro, largando-o sobre o tapete de retalhos da sala. Não havia ninguém em casa, como previra.

Tirou as luvas de couro e tocou o rosto desacordado com a ponta dos dedos trêmulos, tão assustados quanto a sua pulsação. Deu-lhe um tapa estalado e sentiu a tensão diminuir.

Sorriu. Teria estômago. Faria como o planejado.

Começou a despir as roupas do corpo no chão. Estava quente, aquele corpo, como se queimasse no inferno. E era bom que fosse assim.

Quando terminou, contemplou a nudez e sentiu o fogo por trás dos próprios olhos. Amarras não seriam necessárias. Colocou a mão no bolso da calça jeans e puxou o cabo de marfim, contemplando a lâmina prateada.

Ajoelhou-se. Cravou a lâmina entre as pernas dele e num único movimento, cortou. A dor o despertou, fazendo-o gritar um monte de obscenidades.

Não lhe deu tempo. Levantou a lâmina novamente e enterrou-a na barriga peluda e feia. O homem se debatia, gritava, mas ia morrer.

Ele olhou para ela com os olhos repletos de um pânico que apenas quem está à beira de uma morte tão violenta poderia ter. Ela se viu refletida naqueles olhos e sorriu de maneira cretina, como ele fizera para ela numa noite inesquecível de terror. Não houve súplica e nem tirada de satisfação. Ele sabia que estava pagando pelo seu pecado. Pensara que sairia impune, quando o juiz declarara que as provas eram inconclusivas, mas ela precisava da justiça por si mesma.  Fora ele quem tirara a sua paz.

A morte não precisava ser rápida. Mas ainda assim, ela segurou a faca com firmeza novamente e fez um corte em cada perna, para liberar o sangue das artérias.

O fluido sujou um pouco seu casaco, mas isso não importava.  Pegou a luva e colocou-a de volta. Com um lenço, limpou o cabo da faca e colocou do lado da mão dele. Olhou pela última vez para ele e não sentiu pena de si mesma.

Deixou-o para trás, saindo na noite estrelada e respirando o ar frio, livre, finalmente, do medo.

***

Fonte da Imagem: DeviantArt.

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