bisturi

O bisturi especial, com haste em marfim, separou delicadamente a carne do paciente. Quatro golpes do instrumento revelaram camada após camada as variantes de um mundo interior avermelhado. O médico se alegrou de enxergar rapidamente o nódulo que podia gerar um câncer e o retirou com facilidade. No entanto, um pequeno sangramento se fez notar. Uma veia havia sido cortada por erro. Os procedimentos de correção, embora trabalhosos, foram todos realizados corretamente. No entanto, um novo problema aconteceu. O coração do paciente havia parado. Com avidez, o médico aplicou a carga elétrica  por quase um minuto de tentativas e o animal ressuscitou. O resto da operação foi bem. As suturas foram calmamente feitas e os procedimentos finais deram início a uma nova fase.

Por se tratar de um cão, sabia que o choque elétrico tornaria o pós-operatório mais complicado. O tempo de recuperação seria bem maior, já que usaria mais sedativos e por mais tempo.

Mas o médico veterinário estava constantemente envolvido em novas cirurgias, de maneira que não era sempre que poderia acompanhar de perto a recuperação.

Numa destas visitas ele recebeu uma mordida. Aquele cão estava inconsciente quando o procedimento do médico e o seu interesse por salvá-lo foi aplicado. Não poderia sentir raiva. Era uma informação que lhe era sabida desde a infância. Mas teve que reavivê-la, tal era a frustração de ser atacado por um ser que salvou com tanto esforço.

Dias depois, de folga, preferiu ficar sozinho, sem família, amigos ou qualquer senciência por perto. Numa praia deserta, em plena terça-feira, andou por quilômetros respirando ar salinizado e tentando copiar para si o equilíbrio da natureza. Queria adotar um novo ritmo e um novo impulso para mais uma semana de trabalho.

O veterinário retomou o seu trabalho e as visitas ao seu paciente menos agradecido.  Tentou uma nova reaproximação. O cão rosnava, mas cada vez menos. Então resolveu arriscar e ofereceu a sua mão para que o cão a cheirasse ou mordesse. Ficou preparado para retirá-la rapidamente se fosse o caso. Mas recebeu uma lambida e aquilo lhe foi como uma cura, como um presente por realizar seu trabalho, que era uma obrigação e recebia dinheiro por desempenhar. Mas tanto como o animal, possuía emoções e desejava que fossem reconhecidas.

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