Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/4/4d/The-wolfman.jpg
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É sabido que uma cidade das Américas, conhecida por ser a maior cidade pequena do mundo, não se destaca só pelo carnaval e pela mania de grandeza de seus habitantes. Essa cidade é velha, assombrada por todo tipo de abominação. Suas ruas mais antigas escondem histórias de fantasmas, pactos com diabos, pernas cabeludas e jacas assassinas.

E, claro, de lobisomens.

O Homo Lupinos de lá tem pouco a ver com seus primos glorificados pela imprensa internacional. Pois enquanto os lincantropos gringos têm por garantido serem representados como imponentes híbridos bípedes ou lobos descomunais, a besta-fera é vista como um ser anêmico e meio-podre que mais evoca um cachorro-porco do que um predador mortífero. A lista de feitos do monstro local também fica aquém dos propagados no exterior. Ao invés de massacres, a madrugada da noite de lua cheia prenunciava apenas o desaparecimento de galinhas e o aparecimento de bêbados assustados. Ou, em um caso lendário, um padeiro todo cagado.

Conta-se que lá havia um veterinário conhecido tanto pela aparência quanto pelo esmo com a profissão. Para ele não bastava vigiar os animais aos seus cuidados. Também se carecia de cuidar dos donos deles.

Especialmente se os donos fossem do gênero feminino. Sua dedicação era tanta que não lhe bastava acompanhar os pacientes de estimação durante a recuperação. Somente após ir ver algumas vezes os bichos na casa de suas donas em visitas à tarde é que ele se satisfazia. Uma ou duas casas, inclusive, ele continuou a visitar mesmo após seus pacientes terem falecido. O veterinário era um sucesso entre muitas donas de animais, e a mulher do padeiro não era uma exceção.

O cão da mulher do padeiro era um bicho estranho, uma mistura infeliz – ou antes, enfezada – de poodle com lobo. E ninguém era menos aconchegado a ele a do que o padeiro. O animal tinha por costume roubar a comida dele do prato, latir à noite e destroçar sua correspondência. Por anos homem e animal viveram em uma guerra fria doméstica. Até que um dia, após comer um bife feito pelo padeiro, o canino passou mal e foi levado pelo veterinário.

Pouco se pôde fazer pela criatura, que desfaleceu naquela mesma data. Porém, determinado a morrer do mesmo jeito que vivera, o cão conseguiu executar um último ato de gentileza antes do desfalecimento: morder a mão do veterinário.

Tal ato cobrou seu preço já na lua cheia daquele mês.

O padeiro acordou no meio da noite com uma série de sons estranhos vindo da cozinha. Pior, sua mulher não estava na cama. Corajoso como só ele, o homem só saiu do quarto depois de pegar seu rifle. Tão logo ele pôs o pé para fora do quarto, todavia, um fenômeno estranho se deu.

Um vulto branco raiou pelo corredor rumo à janela da casa, fazendo o padeiro derrubar a arma de coragem. Logo após, a mulher apareceu semi-despida, coberta de mordidas, anunciando: um lobisomem a tinha atacado!

A história logo se espalhou, fomentando por toda parte relatos de eventos estranhos. Houve até de se cogitar andar pelas ruas portando armas de prata – Mas de que serventia tem uma ferramenta que espanta lobisomem para atrair ladrão?

O padeiro era advindo do interior, e sabia como lidar com tais feras. A desgosto da esposa, mandou derreter algumas joias dela para forjar balas de prata. Na próxima lua cheia, ele haveria de matar o tal lobisomem antes que sua esposa contraísse a malfadada síndrome.

Quando o próximo ciclo lunar chegou ao seu ápice, o padeiro ficou de tocaia na sala… Até cair no sono. Ao acordar, o rifle havia sido furtado de suas mãos e barulhos vinham da cozinha.

O homem se levantou portando o controle remoto como arma, e na cozinha teve uma visão escabrosa. Deitada no chão, ferida de morte ao lado de um ketchup vazio, estava a mulher. E no meio da sala, o próprio veterinário transvestido de lobisomem!

Dessa vez não foi a besta que fugiu pela janela. Foi o homem! Depois de tamanho assustamento, o padeiro se refugiou da cidade malassombrada para a tranquilidade da casa de sua mãinha.

O lobisomem saiu da casa, e a mulher do padeiro – agora a padeira – se recuperou das feridas com um mero banho – obviamente, coisa de assombração. Logo após, o veterinário e a padeira começaram um namoro.

O veterinário, felizmente, não permaneceu amaldiçoado por muito tempo. Na lua cheia seguinte ele até se transvestiu de lobisomem e tentou ir atrás de outra conhecida de longa data – apenas para ser interceptado pela padeira e, nas palavras das testemunhas, ser curado da sina a porradas.

E assim a normalidade voltou à maior cidade pequena do mundo. Destaca-se, todavia, o comentário do “seu bala”, sobre essa lenda:

– E eu lá sou corno de acreditar nesse papo de lobisomem?

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