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Farejou no ar uma mistura exótica de baunilha, pão doce, sabonete e uma suave nuance de perfume masculino. Processou aqueles aromas e a cauda começou a abanar de um lado para o outro, instigada pela ansiedade e pela excitação.

Caminhou até a porta e suas unhas fizeram um “tec, tec, tec” ritmado sobre o soalho de madeira clara, tão arranhado que a dona da casa já nem se importava em passar cera.

Sentou-se sobre as patas traseiras e aguardou alguns minutos antes que a chave girasse na porta. Uivou baixinho e observou a humana entrar. Se fossem outros dias, repararia no cabelo preso de maneira displicente, na camiseta roubada de seu armário e na calça jeans, que ficava folgada demais nas canelas.

Naquele momento, no entanto, só se importava com o instinto, o cheiro, a sensação de felicidade em seu coração lupino. Aproximou-se e inspecionou as sacolas de papel. Sim, era dali que vinha o cheiro do pão doce e da baunilha. E também um delicioso perfume de carne de frango e massa de pastel.

Ele abriu a boca e salivou. A mulher riu e colocou a mão em sua cabeça, bagunçando o pelo cinzento.

-Pelo visto, você está com fome.

Ele entendia. Mas ao mesmo tempo, não era como quando se era um ser humano. A voz dela era um eco distante, que acalmava, mas ao mesmo tempo, não significava muito mais do que um som carinhoso.

Seguiu-a até a cozinha, onde ela largou a bolsa e as sacolas.

Sentou-se novamente e ficou observando-a remexer os armários e encher um objeto com o conteúdo de um dos sacos de papel, enquanto ligava uma máquina barulhenta, que desprendia um cheirinho forte e agradável. Era café, isso, assim que se chamava.

A moça pousou uma vasilha no chão e ele foi rapidamente até lá para inspecionar. Sentiu a suprema felicidade canina quando o frango e a massa encontraram sua língua. Seus caninos salientes dilaceraram os pastéis em poucos minutos, e ele se sentou, mirando a sua companheira, esperando mais um lanchinho.

Ela riu. Ele se aproximou e encostou a cabeça na perna dela. Ganiu ao sentir o ferro por baixo do tecido da calça. O rabo foi para o meio das pernas.

Um simples toque lhe trouxe a lembrança… E mesmo que, enquanto fosse lobo, as memórias não fossem tão claras, podia ver de novo a carne estraçalhada e sentir o sangue impregnado em seus dentes… Mas o pior de tudo, era lembrar do choro baixinho dela e a fúria que morara dentro dele. Ela ainda existia, bem no fundo, ele podia sentir. E a cada lua cheia ele se perguntava se teria aprendido a controlar o suficiente para continuar a viver como homem e como lobo.

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