circo

Eram momentos difíceis. Deitada na cama daquele quarto apático, dopada de tantos remédios, sonhava com as noites de casa cheia e as cores que a cercavam. As visitas foram cessando aos poucos, pois a agenda do circo buscava outros estados, outras regiões. Seguraram o máximo que podiam, mas não era mais possível que a trupe toda parasse sua vida por amor. Quando a profissão é o caminho que se escolhe, o amor só cabe se for à estrada. Os aplausos estavam substituídos pelos ruídos irritantes da TV. A barraca vermelha não cabia naquele espaço cinza. Os aplausos incomodariam o silêncio opressor. E suas meias, não mais caberiam em sua perna de ferro.

Questionava se o circo não era o responsável por sua situação, mas como resposta, sempre encontrava suas escolhas. Escolhas de liberdade tamanha que a afastou da instituição familiar, vínculos sociais e estudos acadêmicos. Escolhera para suprir qualquer necessidade humana, a vida nômade dos escassos circenses. Beirava-lhe a covardia culpa-los, e o sentimento de alegria, em saber que não mais encontrariam uma bailarina como ela, a confortava amargamente. Os circos estavam morrendo. E ela era a prova viva desse sentimento.

Haviam lhe entregue uma boa remuneração, pois a partir de lá, todos sabiam de forma implícita, que ela caminharia sozinha. Por conta própria seguiria mancando em caminhos curtos e repetitivos em busca de algum sentido monótono de vida. Até a morte, que lhe vinha como objetivo soava distante demais para confortar. Perdera uma perna… Quantas pessoas não vivem sem as duas?! Ganhara uma barra metálica que lhe faria andar atrás de qualquer coisa. Ah, que inferno! Realizava acrobacias incríveis, com movimentos clássicos em trapézios, cordas e tecidos, e agora seu objetivo era reaprender a andar?! À merda força de superação!! Estava cansada antes de começar… Aguardaria naquela cama até a morte buscar.

Tirou o lençol e olhou a ausência da perna. Perna que ainda sentia, coçava… Abaixo do joelho não havia mais nada. Entraram no quarto, sem bater, duas enfermeiras e a doutora, com a porra da barra de ferro.

– Vamos experimentar?

A tratavam como criança, num linguajar piedoso e infantilizado. Prenderam o ferro em parte de seu joelho esquerdo:

– Vamos tentar? Dobra a perninha…

Queria mesmo ver se funcionava, se obedecia ao comando de chutar a cabeça da

quela mulher até que lhe encomendassem uma cabeça de ferro!

– Muito bom! – continuou a doutora – Acho que este vai servir. Vamos precisar trabalhar, ta bom? Ir aos pouquinhos, mexendo, até ficar de pé, dar um passinho…

Sorria amarelo. Faria aquelas três explodirem e virarem purpurina. Uma explosão de confetes coloridos que forrariam o chão tosco do seu quarto. Ouviu aplausos e sorriu de verdade, de olhos fechados, apoiando a cabeça sobre os travesseiros altos.

– É isso aí! Amanhã o Dr. Vem te ver, e vocês começam a fisioterapia bem devagarzinho, ta bom?

Saíram e levaram a perna, sem aguardar qualquer reposta. Pouco se importavam na verdade.

Olhou para janela e viu nas nuvens o grande algodão doce que elevou seus olhos ao circo pela primeira vez. Adormeceu.

Acordou de manhã com a voz grossa do fisioterapeuta que entrou em seu quarto como se fosse a casa dele. Abriu os olhos e viu aquela barra de ferro outra vez, na cabeceira da cama. O doutor falava de costas, com ar menos infantilizado, mas de maior indiferença. Tentou despertar para que pudesse pedir ao menos um tempo para ir ao banheiro, lavar o rosto… Mas antes de sua primeira resposta, ele virou e, surpreendentemente, a encarou em silêncio. Reconheceram-se. Suas fisionomias não haviam mudado ao ponto de se esquecerem de um companheirismo de dezessete anos. De infâncias vividas, brinquedos trocados, pais competidos… A solidão lhe trouxe seu irmão.

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