Imagem Pli

De Plínio Meirelles. Autor convidado

O enorme sorriso de Julia Roberts ainda está melado de cola branca quando Denis joga raivosamente um exemplar da revista “Contigo” para o chão. Sua respiração oscila entre o levemente ofegante e a falta de ar completa, e as gotículas de suor que se acumularam em sua testa já começam a escorrer. Como uma versão sem classe de “Lady Macbeth”, ele começa a esfregar freneticamente as mãos, na tentativa de limpar a cola seca que, ao esfarelar e soltar de suas palmas, caem no chão como fiapos de borracha escolar. Olha fixo a sua frente. Enxuga a testa. Nada pode tirar a contemplação de Denis frente a obra perfeita. Um papelão bem duro e mal recortado pendurado com um barbante na parede vazia é sua “Monalisa”. Sua “Guernica”. Seu “Abaporu”. Ele cerra levemente os olhos, tentando conferir sobriedade ao seu rosto de artista, como se ele treinasse ser observado. “Isto ainda não está direito”. No marrom anêmico do papelão, colados com visível excesso, pedaços  de celebridades formam  o que Denis chama de “mulher perfeita”. Um olho de Angelina Jolie. Os cabelos de Jennifer Aniston. As maçãs do rosto de Cameron Diaz… Quando aproximado, o resultado é mais próximo do grotesco do que do sublime e sua relação criador e criatura não tem a profundidade de uma historia como a de “Frankstein”. Parece, com sorte, o resultado de uma longa análise freudiana de Denis com, sei lá, sua mãe.

Ele se afasta alguns passos para olhar de longe, na torcida de que o quadro melhore. Talvez Denis achasse que sua colagem resultasse semelhante àquelas obras de artesanato que, de tão feias, ficam bonitas. Talvez ele achasse que, distante de seu apartamento escuro,  numa parede preta de alguma galeria fina, a coisa funcionasse. Talvez funcionasse numa exposição  de alunos de alguma professora semigostosa de educação artística, de alguma escola que (re)forma ignorantes. Ou talvez Denis simplesmente descobrisse que o todo, às vezes, é menos valioso que a soma das partes. Mas Denis não tem toda essa pretensão. “Ela deve ser assim”, ele repete. “Ela só pode ser assim”.

O motivo que fez com que a cara de Giovana Antonelli caísse pesadamente no chão sujo é a busca pelo perfeito nariz de Meg Ryan. O toque final de sua obra. Outras tantas revistas se espalham pelo chão,  também estupradas pelas mãos grudentas de Denis. No canto da sala, uma outra pilha amontoada aguarda para ser devassada em sua busca nasal e , obviamente, as revistas sentenciadas de morte não foram compradas com o risível salário de vendedor de porcas e parafusos… Não, não. Antes de serem atingidas pelas tesouras que o rapaz enfiará em suas páginas, elas pertenceram a salas de espera de consultórios dentários, salas de espera de imobiliárias, salas de espera de serviços de consultoria. Ele não havia pensado antes, mas as revistas se aproximam de Denis em sua sina: eternamente na sala de espera , ansiando pelo corte de uma tesoura.

Ele senta no sofá. Pega mais algumas revistas. Entre sorrisos com carimbos de “Rachid Consultoria” e nádegas inscritas com “FreeDent Consultório”, Meg Ryan continua perdida.  A cabeça de Denis, em segundos, divaga como ele chegou aqui. Apaixonado. Por uma frase.

“…Não teria nascido, só para não ter que morrer.” Era assim. No conto do site “Enlaces Literários”, a frase olhou pra Denis e, na troca de olhares, aconteceu o amor à primeira lida. Denis é doente e sabe disso. Sofre de “nada”. “‘Nada’ é uma doença perigosissima”, ele reflete. “A gente não encontra e se perde no vazio”. No diagnóstico,  ele ficou preocupado com a doença, mas agora relaxou. “As pessoas se acostumam com tudo, eu posso me acostumar com ‘Nada'”. Viu a cura na frase lida, através de uma obsessão: procurou a autora da frase em todos os lugares possíveis, embora fossem poucos os lugares possíveis existentes em sua vida de portador crônico de “Nada”. A cura/obsessão fez Denis criar um perfil em cada rede social que conhecia. Até usou o seu nome verdadeiro, algo que evitava a todo custo pois continuava acreditando que “Denis” era uma provocação de seu  pai ao sobrenome “Pinto”. “Pênis Pinto” parecia engraçado e era exatamente isso que todos entendiam quando o rapaz balbuciava o nome completo. Denis havia, portanto, nascido fálico. Agora, doente de “Nada” e obcecado por ela, o nome não importava mais. Ele iria achá-la.

Poucas pistas depois e Denis resolveu recriá-la. Não era mais capaz de viver sem ela. Via suas fotos liberadas, aguardando a confirmação do convite de amizade. Nada. Fotos ao relento, sem conexão… Fotos que pouco revelavam da mente criativa que , como ele, preferia não ter nascido. Lá: gatos e mais gatos, uma pequena tatuagem na nuca… pedaços… só pedaços.

Denis se levanta do sofá e se aproxima de sua obra. De perto, assopra os pequenos resíduos de cola seca dos pedaços que formam quase inteiro o rosto de sua obsessão. Entre sobrancelhas de Nicole Kidman e orelhas de Sharon Stone, a mulher parece olhar de volta para ele. “Meu rosto também é um mosaico”, pensou, “como reflexos em um espelho quebrado”. E, atacando novamente as revistas em busca do nariz gracioso de Meg, Denis Pinto, que sofria de “Nada” e se apaixonou por uma frase, suspira. “É assim. Tem que ser assim. Este é o rosto  de Leide Fuzeto Gameiro”

Anúncios