Fixou o olhar naquelas imagens. Seus olhos passeavam por todos os detalhes reconstruídos por aquelas mãos em miniatura. A cola seca sobre a tinta espalhada das imagens encardia a proposta de trabalho. Imagens deconexas, desorganizadas, só ilustravam o caos da infância, que não cabia em lugar nenhum e forçava uma aceitação mundana. Aos poucos, foi se afastando daquele mural… A mistura de cores e formas zombavam dela sob o som macabro dos gritos escolares. O silêncio não tinha espaço para ser. Nem de olhos fechados ela alcançava a amplitude da escuridão serena de sua mente. Sua consciência era bruscamente trazida de volta pelos empurrões e esbarrões dos corpinhos sem controle que transitam entre a ingenuidade e a displicência. Abriu os olhos lentamente enquanto buscava no ar qualquer apoio mais palpável. Que horror era aquele mural! Como se poderia construir qualquer noção estética ou referências artísticas naqueles seres que mal controlavam as próprias mãos? Agiam como se o mundo se limitasse em seus pátios fechados, em seus brinquedos quebrados. Como se nada mais importasse fora daquelas grades! Cérebros eletrônicos em curto circuito com a realidade que não as pertencia. Lembrou da antropologia, que traz o conceito de infância só há pouco tempo atrás, e compreendia a necessidade de lugares específicos que servissem de depósitos até que fase fosse superada. Lentamente seu pescoço possibilitava a visão mais ampla daquele mural… Só uma gestão estúpida autorizaria aquela exposição no corredor de entrada. O barulho não cessava. Jamais cessaria enquanto a infância tivesse que ser tolerada.

– Professora?

De um canto para o outro, todo o composto daquele trabalho era a representação perfeita do mundo infantil. Tecos de papel, cola seca, borrões encardidos, desarmonia, olhos nas bocas, orelhas nos sapatos, membros soltos, cabeças rolando, manchas de sangue…

– Professora?!

Apertava os olhos e suas vozinhas pareciam mais próximas, mais fortes, mais unidas contra a razão, contra a ordem. Num uníssono ameaçador temia que assumissem suas funções ordinárias de desfazer o sentido das coisas…

– Professora!!!

Como se caísse de um caminhão, enxergou um adulto sorridente ao seu lado. Com olhos arregalados que mostravam um simpático estranhamento, um esboço de sorriso se desfez:

– Tudo bem?

Sorriu como obrigação. Seu piscar era lento, sua cabeça latejava. Seus braços cruzados firmavam a proteção contra sua realidade, fragmentada, sangrenta.

– Sou pai do Lucas. Gostaria de parabenizar pelo seu trabalho… Este mural ficou ótimo, porque a proposta de desconstrução…

Quem é Lucas? Em nada aquele homem lhe lembrava alguma daquelas crianças. A voz rouca foi se perdendo naquele mosaico sonoro, não chegava em seus pensamentos que agora buscava naquela barba qualquer aconchego que lhe tirasse daqueles pedaços de crianças. Fechou os olhos e o mural refletia sua sala de aula… Elevou sua mão ao encontro do rosto aveludado do homem, e foi abruptamente interrompida com um comprimento seco. Abriu os olhos e antes que eles encontrassem aquela barba, o homem se retirou. Como se o mural criasse vida, todo aquele caos se fez em sua frente. Eram dezenas de crianças que corriam, se batiam, caíam, choravam, gritavam… Numa mistura de cor e movimento sob um barulho ensurdecedor. Desejou os pedaços! Desejou os borrões de sangue espalhado! Desejou, como num processo artístico, reproduzir aquela colagem tosca em pedaços reais. Como num grande espetáculo, ao vivo, onde os espectadores sentiriam o cheiro podre da infância se desfazendo no ar, o calor do sangue corrente repousando sobre o fundo branco, e por fim aquele mural em 3D responderiam a angústia de se aturar aquela invenção antropológica estúpida. Sorriu aos aplausos que antecederam ao silêncio e abriu os olhos, agora no corredor vazio. Estavam todos no auditório aguardando o que poderia ser a apresentação escolar mais significante da história!

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