child-writing

Nunca aprendera a fazer bichos de feltro ou artesanatos coloridos, no entanto, era professora e olhava com estranheza para a sala de aula que mais se parecia com um arco-íris, de onde um pônei cor-de-rosa podia sair a qualquer momento. Talvez fosse mal humorada… Mas sentia falta de ver paredes mais normais. Afinal, ela não estava em nenhum livro do Dr. Seuss, mas em uma sala de aula!

Observou os alunos, naquele momento terminavam de recolher restos de recortes, usados na aula anterior. Colocou o próprio material na mesa do professor e esperou por alguns instantes, até que todos tivessem limpado as mesas e voltado a atenção para ela. Ou mais ou menos isso, já que Gabriel e Carlos nunca paravam de cutucar os outros, Júlio nunca parava de desenhar e Márcia e Cláudia nunca paravam de cochichar entre si.

Explicou a tarefa do dia, a criação de uma ficha de leitura para o último livro e posteriormente a visita à biblioteca para pegar um novo título, e começou a escrever os dados da ficha no quadro negro. Logo começaram as reclamação “Ah, não, tem que copiar…” ou as perguntas dos atrasados “O que é pra fazer?”. Às vezes pensava em responder que deviam levantar e sair pelo corredor igual a um bando de babuínos bobocas balbuciando em bando, mas simplesmente suspirava, pontuava o escrito e se virava para explicar novamente a atividade.

Até o final da cópia, teve que fazer isso cinco vezes, e achou que fora uma boa média…

Quando terminou de passar as informações, começou a passear entre as classes, observando os livros que tinham sido lidos, ajudando a responder a ficha, perguntando um pouco sobre as histórias.

Apesar da grande bagunça que se sucedia, estava satisfeita. Ouvia comentários sobre o que fora lido, sobre as histórias, sobre personagens. É claro que havia assuntos paralelos, piadinhas e tudo o que era comum haver entre eles, mas o fato de os livros terem mexido com eles, foi gratificante.

Na sequência, a visita à biblioteca foi um caos com direito a muita conversa pelos corredores e muita bagunça. A bibliotecária, uma velha senhora parecida com uma uva passa, parecia prestes a chiar como uma chaleira quando aquela turba inquieta entrou em seus domínios.

Sophia teve vontade de rir, mas pediu aos alunos que se acalmassem e tentou concentrá-los na escolha dos volumes.

De volta à sala, o momento de leitura era uma convenção de cochichos, conversas paralelas e alguns leitores mais concentrados. Sophia atuava como dicionário humano, respondendo significados de palavras e explicando contextos, ouvia a história de Joanna sobre a avó, ou a Lúcia contar que tinha um namorado…

Por fim, o sinal tocou e tudo silenciou, aos poucos, quando os alunos se foram como um bando de abelhas atrás de mel. Sophia se deixou ficar, recolhendo as fichas de leitura largadas sobre as classes. Terminou de recolher os próprio materiais e lançou um olhar para a sala colorida, tão parecida com um monte de glacê que daria vontade de rir, se o silêncio e aquelas classes desocupadas não lhe parecessem tanto um funeral de alegrias, um despropósito.

Apagou as luzes, espantando aquela tristeza. Não havia peças de e.v.a ou patchwork para ela fazer, mas havia palavras no papel, colocadas lá com tinta colorida e capricho ou não. E podia haver maior obra de arte para orgulhar um professor? Que eles soubessem usar as palavras para tingir seus mundos como lhes conviesse, era o que queria.

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