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Sabia desde sempre que seria professora. Era a primeira vez que adentrava o Centro de Formação Infantil, desde que deixara de fazer parte do corpo estudantil. Por um momento lembrou de sua mãe e o quanto ficaria orgulhosa… Por que pensou isso?

– Senhorita M ?

– Sim. – saiu do devaneio…

– Por aqui.

A receptora era uma senhora magra, vestida impecavelmente com um terninho cinza que combinava com os fios prateados e puxados para trás em forma de coque. Não tinha expressão, como toda receptora. Guiava M pelos corredores longos e silenciosos da grande escola de formação infantil. E respondia suas perguntas mesmo antes de serem feitas, parecendo saber quais dúvidas tinham uma professora em seu primeiro dia de trabalho. Os alunos eram divididos por idade, sexo, cor e habilidades… ficaria com a turma 56, ouviu por fim, crianças de 6 anos, do sexo feminino, brancas e com habilidades para os números.

A porta se abriu sem um único ruido. A receptora fez um sinal para que entrasse. Trinta meninas aguardavam em silêncio em suas mesas, todas de cabeça baixa. Da mesma forma que se abriu a porta fechou, deixando M sozinha com os meninas que levantaram suas cabeças todas ao mesmo tempo e mostraram suas telas onde se lia ” bom dia, senhorita M”. Ela respondeu como fora ensinada a fazer. Sentou-se em sua mesa, no centro da sala e deu as coordenadas. Cada uma diante de sua tela,  começaram os cálculos. Durante toda a manhã ensinou suas alunas a fazerem cálculos matemáticos, conferiu resultados e corrigiu pequenos erros. Em um momento, porém, algo estranho aconteceu. Uma menina olhou dentro de seus olhos.

Depois de conduzi-las à sala de alimentação, entrou em sua sala particular e não podia parar de pensar naqueles segundos em que uma criança fizera algo que nada em sua formação de uma vida toda ensinara como proceder. Preencheu seus arquivos relatórios e omitiu o incidente. Era só um pormenor, não devia dar tanta importância. Terminou o dia de trabalho e retornou satisfeita à sua célula residência. Passou algumas horas nas telas sociais, onde bebeu com amigos e foi a três encontros. E embora o dia tivesse sido cansativo, demorou para a cápsula do sono fazer efeito.

No dia seguinte, tudo transcorria normalmente. A menina passara a manhã toda de cabeça baixa, ocupada com suas tarefas. Mas ao se levantar para sair, sorriu para M. Um sorriso terno e longo, que fez com que estremecesse de embaraço. Alguma coisa nela a incomodava muito. Saiu o mais depressa que pôde de sua presença. Mas o sorriso não saía de seu pensamento. Aquela criança tinha algo de muito estranho. Não era como as outras. E embora pressentisse que isso ainda traria problemas, não pensava em relatar à receptora.

Acordou de manhã no dia seguinte com um cheirinho bom. Abriu os olhos e viu uma bandeja ao seu lado. Mas não tinha as cápsulas, nem as barrinhas proteicas… tinha coisas que ela não conhecia, mas sabia que eram comida. O cheiro era bom, tinha uma fumacinha subindo e por trás dela um sorriso apareceu. Era o sorriso da menina, mas à medida que o vapor da comida quente aumentava, parecia se misturar ao rosto, que ia se transformando no rosto de sua mãe… Acordou! Como podia se lembrar de sua mãe? Devia estar com problemas. Pegou o cartão pessoal para ligar para o Centro Médico. Não, não podia.

Sentia-se diferente das outras pessoas. Acabava de começar a vida adulta, iniciava sua função de formar crianças, tudo estava no lugar. Sabia o transtorno que seria se alguém soubesse que sonhava enquanto dormia. Saberiam que era diferente. E não era normal ser diferente.

– Bom dia, mamãe!

Mamãe?! Foi surpreendida com um beijo no rosto e esse sussurro no ouvido. Um beijo! Só sabia o que era beijo nas telas. Mas mesmo nunca tendo sentido, não foi uma sensação estranha. Não teve reação e ficou olhando a menina sentar em seu lugar sorrindo e cantarolando. E como ela sabia de sua palavra secreta? Não existia “mãe” nem “mamãe” no dicionário. Era como ela chamava sua…

Passou o resto do dia sem conseguir esconder o que sentia. E nem saberia dizer o que sentia. Sabia que sentir satisfação, prazer e vontade de vencer era normal. Mas essas outras coisas que tomavam conta dela não conhecia. E sem saber, sentiu medo pela primeira vez.

Durante vários dias pesquisou nas telas, tentando encontrar respostas. Mas o que encontrava era o que já sabia. Algumas mulheres eram selecionadas para procriar e cuidar dos futuros membros da sociedade por dois anos. Depois de prestar seu dever cívico, voltavam a exercer suas funções e as crianças iam para os Centros de Formação. Não se podia saber qual mulher havia sido recrutada e isso nunca teve importância para ela. Mas sempre teve essa palavra na memória, e sempre soube, não sabia como, que era assim que chamou sua genitora…

Começou a ter vagas lembranças. Sua mãe brincando com ela, fazendo carícias, as duas rindo e correndo pela casa.Tentou falar sobre isso com amigos das telas, sem deixar que percebessem. Ninguém se lembrava de nada, todos com quem conversava tinham memória a partir do Centro de Formação.

– Senhorita M, precisamos conversar. – era a receptora. Cada setor do Centro tinha uma responsável por receber crianças e conduzi-las às suas salas, e encontrar a professora adequada. Sabia tudo o que acontecia dentro de seu setor. E queria saber o que houve em sua sala quando uma criança se levantou fora de hora e fez algo fora dos padrões.

De certa forma sentia-se conectada com aquela criança. Sabia, sem entender, que as duas não se encaixavam. E entregá-la seria o mesmo que se entregar. Tentou convencer que foi um exercício de competição. Sabia que não convenceu, mas ganhava tempo para tentar entender alguma coisa.

Não era permitido diálogos entre professores e alunos. Usavam as telas para se comunicar e somente sobre a aula. M precisava conversar com a criança, L, e entender o que acontecia com as duas. Criaram um código matemático para conversarem sem levantar suspeitas. E durante as aulas se conheciam aos poucos.

A menina também tinha memórias estranhas. Também se lembrava de sua mãe, usava e mesma palavra que ela e tinha os mesmos sentimentos por sua genitora. Mas o mais inesperado é que não a chamava de M, e sim de mãe. ¨Por que me chama de mãe?” “ Eu me lembro…”.

Passou três dias no Centro Médico, sem conseguir se mover. Sua vida de repente perdeu todo o sentido. Não importava mais cumprir seus deveres, se divertir nas telas. Isso era o que disseram a ela ser felicidade. Mas agora sabia que felicidade era o que faltava, algo que nem sabia o que era e nem onde buscar. Não podia continuar e nem recomeçar. Com o corpo paralisado, dentro da cápsula de cura, sentiu um liquido saindo de seus olhos. Era quente e escorria pelo rosto enrijecido.

Nada do que vivera até ali fazia mais sentido. Não sabia se tinha outra forma de viver, outro lugar. Quando voltou para sua célula olhou tudo com estranhamento. Não sentia mais vontade de ligar as telas, nem de sair dali para ir ao encontro de L. Quanto mais se aproximasse dela mais cresceria aquele sentimento confuso, que tanto a machucava. Precisava esquecê-la e esquecer não era possível. A única forma de resolver o que não tinha solução era ir até as últimas consequências e se destruir.

Ao retornar ao Centro de Formação nada mais era como antes. Sentiu-se sufocada. Não achava mais natural a forma como as crianças eram tratadas. Sentia-se mal em exercer sua função. Enquanto as meninas calculavam em suas telas tinha vontade de jogar tudo no chão e convidá-las a correr pela sala, como, nos sonhos, fazia sua mãe. Queria que todas elas, como L, a chamassem de mãe, se pudesse fazer por elas o que a sua fizera – Plantara algo dentro dela, que a fazia sofrer agora, mas a fazia sentir-se viva.

Quando via L mal conseguia se conter. Seu ímpeto era de tocá-la, evá-la para sua célula, recriar com ela os sonhos que tinha com sua mãe. E, sem notar ora sorria ora se entristecia. E foi notada.

– M 4325-257, moradora da zona 48, ocupante da célula 3920. Formada nesse mesmo centro, classificada com aptidão para ensinar números. Vencedora de várias competições de aptidão, bem sucedida nas telas de relacionamentos. O que aconteceu?

– Eu fui uma genitora?

– Sobretudo por essa pergunta. O que aconteceu?

– Não sei, receptora S. Não sei nada. Mas quero saber…

– Sabe sim. Sabe que não te cabe saber. Mas saiba que esta sob vigilância distrital a partir de agora.

– Mas eu não fiz nada…

– Não está fazendo o que deve.

– Devo? E o que eu sinto?…

– Sente?! Sente o que além do que foi ensinada? Pode se retirar. Não por aí. Para fora do Centro de Formação. Receberá coordenadas sobre seu novo posto.

– Não posso ser reformada…quero ficar aqui!

– Querer?! Quer além do que foi ensinada. Anotado.

– L… – pensou. Nunca mais a veria.

Correu pelos corredores como uma corredora de entretenimento, fez acionar todos os alarmes. Entrou na sala 56, pegou L pelas mãos e continuou a correr, sem saber se tinha chance de conseguir sair dali. O código máximo de segurança foi acionado e as portas fechadas. A um passo da saída foi atingida e sua última visão foi os olhos de L olhando dentro dos seus, como tudo havia começado.

Acordou deitada. Estaria na zona de reabilitação? Seria reprogramada? Olhou em volta. Só o que viu foi areia. Tinha visto lugares assim nas telas, mas não sabia que existiam de verdade. Chamavam de zona deserta… Era quente, ardia os olhos. Levantou e andou um pouco, até perceber que não portava mais nada do que a identificava. Nem cartão, nem suas vestimentas. Trajava uma roupa estranha. Olhou em volta. Nada via além de areia e imensidão. Fora banida?

Sem telas e sem cartões não podia saber como passava o tempo. Depois de muito tempo encontrou uma sombra e sentou para refletir. Ela descobriu que era mãe de L. Podia parecer loucura, mas de repente imaginou que sua genitora também poderia ter se lembrado que era sua mãe, por isso ela tinha aqueles sonhos e aquelas sensações estranhas. Teriam tentado fugir também…

-Sim Melina. Eu tentei fugir com você. Mais que isso, conseguimos viver juntas por mais tempo que o permitido. Tempo suficiente para se tornar inesquecível.

– Mãe ?!

Depois de 14 anos, 3 meses e 19 dias, voltaram a se encontrar num abraço. E em breve teriam mais dois braços ali- pensou enquanto via suas lágrimas pingando na areia, como a chuva que via em seus sonhos e sentia saudade, sem saber de que.

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