Cruz+do+Patrão+(2)

Sentimos Informar que uma autor do Enlaces desaparece tragicamente e ainda mais tragicamente forçou uma amigo a tapar o buraco

Teria sido legal se hoje fosse uma noite escura e tempestuosa, mas o fato é que, a despeito de umas nuvens pesadas a tarde, o céu está muito limpo, obrigado. Claro, limpo é um exagero hoje em dia. “Devastado” talvez seja melhor. Pois não há nenhuma constelação ou mesmo estrela desgarrada sob minha cabeça, apenas uma meia lua brilhando solitária em um céu nulo. Suponho que seja este o preço da modernidade. A terra se encheu de luzes, o céu se apagou.

Mas o ponto é: eu estou enrolando. Vamos ao assunto.

A tragédia atual começou quando Lucas Rodrigues, amigo do autor, teve a ideia genial de buscar inspiração in loco para se próximo conto. “Mas qual é o problema?”, perguntam os leitores hipotéticos. “Simples”, digo eu. “Ele foi para uma casa mal assombrada”. O último conto publicado no enlaces, “Carolina”, foi uma história de amor, mas meu amigo resolveu pegar a deixa da morte e da casa decrepita para escrever um conto de terror.

Apesar de minhas insistências contra, ele quis ir para o bairro do Recife Antigo para buscar inspiração. O Recife Antigo, ou Recife Velho, é o nome dado pelos locais para o centro da cidade. Esse lugar famoso tanto pela megalomania dos seus habitantes (“Tá vendo aquele shopping? É o maior do mundo! Tá vendo aquela avenida? Também é a maior do mundo! Tá vendo aquele bloco? Até o livro dos recordes admitiu que é o maior do mundo! Tá vendo aquela praia? É a campeã global em ataques de tubarões!) quanto pelas suas assombrações.

Nosso passeio começou às seis horas e sessenta e seis minutos da noite de quinta-feira, quando chegamos ao local para a pesquisa de campo. A ruas ainda estavam cheias nesse horário – bem, engarrafadas, para ser mais preciso – de modo que não parecia haver problemas.

Mas aquilo não era o bastante para o Lucas. Não senhor, aquele cara parecia querer se perder. Tanto que, a despeito dos meus esforços hercúleos, ele se perdeu.

Já falei que ele se perdeu por si só?

Bem, esperamos até a área ficar mais deserta, e então fomos andando pelas ruas. O recife velho tem uma bela própria, aquele último rompante de fascínio que tudo dá antes de quebrar.

“Eu tenho que capturar esse desejo de viver inútil” escreveu Lucas, em seu caderno de anotações. “Porque não há nada mais humano que negar a realidade”. As anotações sugerem que ele pretendia escrever um conto reminiscente de Poe, com um narrador que aos poucos revela-se maluco.

Porque ele tinha que tinha que ir para a cidade, eu não sei. Sei que em algum momento da “expedição”, ele se desgarrou e me deixou só.  Me deixou só e, convenientemente, com a vaga dele no enlaces.

Não que eu tenha gostado disso claro. Ou planejado a coisa toda. Não fui eu quem dei a ideia ao Lucas de fazer uma pesquisa de campo. Eu não o fiz esperar até a região ficar deserta, e muito menos o joguei aos saguis.

Eu também não sou louco. Isso tudo não foi invenção minha. Nem de Paul Auster. Eu não sou um pseudônimo – ele era.

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