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Espanei a camiseta do Smiths porque estava ventando demais e várias partículas de pó grudaram nela. Não se via vivalma na rua escura e os postes tremelicavam, sem força para produzir qualquer tipo de iluminação. Eu não sabia ao certo onde me encontrava. Minha única lembrança era um rosto ensandecido, sorrindo próximo ao meu, e um bolo de rolo.

Sentei numa sarjeta em frente a um estabelecimento fechado. Toda a rua parecia fazer parte de um cenário; nada que indicasse a presença de alguém ali nos últimos 10 anos. Procurei me lembrar do que tinha acontecido comigo, mas não consegui. Minha cabeça doía e poucas lembranças pipocaram na minha mente:

Costumava fazer parte de um blog de escritores; ninguém muito famoso, é claro, gente apenas com vontade de escrever e tal. Até aparecer aquele que não deve ser nomeado. Victor Burgos. Arrepio até a ponta da espinha de pensar nesse nome.

Na noite do Dia das Bruxas deste ano, Victor, um pernambucano como eu, bateu à minha porta. Sob um pretexto de pedir ajuda para uma reportagem que faria sobre Halloween, me levou para o bairro do Recife Antigo, onde andamos por bastante tempo, sem que ele anotasse nada. Comecei a me incomodar com o silêncio de Victor, e sua assustadora semelhança comigo. Essa era a primeira vez que nos conhecíamos desde seu interesse em participar do Enlaces, e ele nem abria a boca pra conversar. Se manteve impassível enquanto fotografava criancinhas pedindo doces e ria das que choravam porque julgavam não terem recebido o suficiente.

Ele tinha um riso alto, agudo, de uma forma estranha. Algumas crianças que o ouviram correram desabaladas. Achei tudo isso macabro.

Finalmente ele perguntou-me se eu gostava do Enlaces. Se tencionava continuar no blog por muito tempo, se abriria mão do posto de escritor lá em troca de alguma coisa. Pensei que ele fosse algum organizador de coletânea de contos e estivesse querendo me publicar. Pô, o que tenho a perder, né?

Respondi que sim, poxa, era um ótimo aprendizado, tal, mas que não seria pra sempre, e que a publicação sempre fora meu objetivo com isso.

Ele sorriu satisfeito. Não disse mais nada, o que estranhei. Quando viria a proposta da coletânea? Eu tinha tantos contos no computador lá de casa…

Entramos numa viela e ele estacou em frente a um portão enferrujado. A rua estava escura e relativamente vazia. As pessoas que passavam ao nosso redor apertavam o passo, temendo que fôssemos assaltantes. Mas aí elas viam minha camiseta do Lanterna Verde, e eu chegava a ouvir o suspiro aliviado.

– Sabe por que está aqui, Lucas? – perguntou Victor, me olhando profundamente. Me assustei.

– Olha, não tenho nada pra te dar, e se me dá licença, o conto do Enlaces de quinta é meu, e eu preciso ir pra casa escrevê-lo que eu não tenho ideias do que fazer com aquele conto romântico sabe; na verdade Carolina foi o nome do meu primeiro amor, ela era tão legal mas não quis ir no Anime Friends comigo, acredita que fui pra São Paulo só pra isso, foi lá que comprei essa camiseta; bom, o que você quer comigo afinal?

Victor pareceu meio aliviado de me ver quieto. Até perdeu um pouco o rumo. Decidi que precisava me manter falando então.

– E eu nem curto tanto anime sabe, eu fico mais nos desenhos da Marvel mesmo, esse lance de heróis é super minha praia, eu gostaria de ser um herói e voar e ir pro espaço que nem os Vingadores, você já viu o filme né, então beleza, talvez a gente saia pra conversar sobre isso outro dia, mas deixa eu ir embora enquanto isso que o conto não se escreve sozinho né e…

Ele me acertou com uma pancada na cabeça. Antes de ficar inconsciente, me lembro de ter sido puxado para dentro do portão velho, atravessando um matagal até os fundos onde havia uma porta. Abriu-a com uma senha e adentramos o recinto, que na verdade era outra rua, mas sem os barulhos do tráfego nem transeuntes nem ninguém. Ele me deixou no chão e riu com sua risada assustadora na minha cara, senti perdigotos batendo em meus olhos e boca. Que nojo. Antes de ir embora, Victor jogou sobre meu corpo alguma coisa macia. “Pra não morrer. Ainda preciso de você.” Desmaiei.

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Então provavelmente é onde estou agora. Na tal rua. Só preciso encontrar a porta, passar pelo matagal e encontrar meu querido Recife Velho. A coisa macia que Victor jogou em mim é um bolo de rolo de goiabada. Abri e dei uma mordida, sentindo o açúcar me invadir. A felicidade da glicose me deu outra perspectiva sobre o problema. Ok, ele tinha me prendido em algum lugar secreto. Precisava de mim vivo. Ele é incrivelmente parecido comigo. Talvez eu tenha achado macabra sua risada porque era como a minha. Eu acho… eu acho que ele pode estar tomando meu lugar agora. Ele me deu a camiseta do The Smiths e pegou a minha do Lanterna Verde. Ele está na minha casa agora, comendo a comida da minha mãe e escrevendo MEU CONTO pro Enlaces! Eu, Lucas Rodrigues, sendo passado para trás como um mísero personagem de uma trama em que eu não sou o principal. E ainda tem a audácia de me dizer que continuasse aqui, vivo, para que pudesse me extorquir por ideias brilhantes para contos… criatura abominável. Ah, se eu te pego, Victor. Ah, se eu te pego.

Verifiquei toda a rua em busca da passagem por onde poderia ter entrado. Nada. Tentei abrir todas as portas da rua. Todas fechadas. Ela era sem saída também, o que me deixava preso num quarteirão de fachadas cinza, com um céu nublado mas sem chuva, sem movimento ou barulho algum para me tranquilizar de que ainda estávamos no planeta Terra. Era o fim pra mim. Acabei com o bolo de rolo e jurei vingança. Assim que ele trouxesse a próxima refeição, eu o pegaria. Mas se fosse tapioca, eu comeria primeiro. Sair alimentado, né.

O pior era que talvez o povo do Enlaces nem notasse a diferença em nossas maneiras de escrever. Será que seriam assim tão alheios? Será que eles perceberiam e viriam me salvar, como os Vingadores fariam em situação semelhante? Meu corpo se encheu de esperanças e me pus de pé, gritando o nome de qualquer um deles que pudesse me ouvir. O que era idiota, visto que eu não sabia onde estava, e que o escritor mais próximo morava uns cinco estados pra baixo de Pernambuco. Ok, sem pânico. O que faço agora? Meu celular! Ah, Victor não seria tão burro… Ele foi! Peguei-o e entrei no Facebook. Hesitei entre postar “Socorro, preso numa rua escura” ou em dizer exatamente as mesmas frases para algum dos autores do Enlaces. Como eu imaginava, todos estavam online e criei uma conversa geral.

“Socorro, preso numa rua escura”.

“Ahn?” – Camila.

“Não entendi o que quis dizer com isso…” – Diego.

“Ideia nova pra um conto?” – Leide.

E foi ficando pior.

“É sério pessoal, to preso num lugar estranho, um tal Victor Burgos tomou meu lugar e vai escrever no Enlaces amanhã! Vocês precisam impedir porque algo me diz que, assim que ele postar com o nome dele, eu sumirei!”

“Bah… se eu puder fazer alguma coisa mesmo morando do outro lado do país, avisa.” – Diego.

[mesma frase anterior] – Nicole.

E foi ficando pior.

Até que Priscila e Plínio entraram na conversa e se animaram com a ideia da expedição. Pagaram passagens aéreas para todos, sem desconto, e o grupo Enlaces, que mal se conhecia pessoalmente, se encontrou no bairro do Recife Velho. Isso eu sabia pelas atualizações do Facebook. Mas o tempo era curto. A qualquer momento, Victor Burgos poderia postar o conto. E a bateria do meu celular estava ameaçadoramente no fim.

Eu não conseguia enviar meu endereço pela conversa, o chat misteriosamente fechava toda vez que o escrevia. E o sinal não era o suficiente para ligações. Estranho.

Camila tomou a incumbência de descobrir onde eu morava, visto que era bibliotecária e gostava de pesquisar. Logicamente qualquer um poderia ter descoberto o endereço, mas ela gostava de se sentir útil. Foram até minha casa e eis que o viram na janela do segundo andar. Escrevendo febrilmente, deixando seu suor de pseudônimo molhar meu teclado. Leide, Diego, Priscila e Plínio tomaram a frente em direção à porta de entrada. Camila e Nicole se mantiveram mais afastadas, apreciando e comentando a arquitetura do bairro residencial.

Eu sei dessas coisas pois Camila foi filmando pra me mostrar depois. Ela filmou quando a porta foi abaixo e quando a pancadaria começou. Diego quebrou a porta do meu quarto e entraram, os quatro se jogaram em cima de Victor, quebraram meu computador junto, mas pelo menos o garoto ficou desacordado. Pelo que vi no vídeo, todos estavam no meu quarto, xeretando ali. Espero que não tenham visto minha coleção especial de HQs. Valem uma nota.

Quando Victor acordou, o amarraram numa cadeira e o interrogaram.

“Quem é você?”

“O que quer?”

“Onde colocou o Lucas?”

“Faz tempo que você mora em Recife?”

“Onde tem um lugar bom pra comer?”

E foi ficando pior.

Quando o grupo conseguiu focar e tirar alguma informação importante de Victor, ele quase os convenceu que na verdade eu era o pseudônimo, não ele. Ele mostrou a certidão de nascimento e o RG.

“Eu estou quase acreditando no Victor, gente.” – Leide.

“Pô, tá filmando, eu vou mandar isso pro Lucas em seguida…” – Camila.

“Peraí, eu paguei passagem pra todo mundo A TOA? NÃO VAMOS SALVAR NINGUÉM?” – Priscila.

“…” – Nicole, que estava lendo uma HQ.

Tirei uma foto do meu RG, carteira de motorista e até titulo de eleitor se fosse necessário e enviei pelo Facebook. Diego abriu e mostrou aos outros:

“Ele também pode ser real.” – disse.

“Puta merda, agora complicou. Vamos definir esse rolê logo? Não como há horas, tal.” – Camila.

“Vamos votar em quem acreditamos, e o que tiver mais votos…” – Plínio.

“Gente.” – Nicole, fechando a HQ – “vamos salvar o Lucas e trazê-lo pra cá, colocamos um ao lado do outro e decidimos qual é o verdadeiro.”.

Apoiado! Todos concordaram e enfiaram dois bolos de rolo pela goela do Victor até ele resolver mostrar o caminho. Todos andaram olhando a cidade, tirando fotos e fazendo selfies. Quando chegaram ao portão, Victor tomou a frente e o destrancou. As meninas reclamaram um pouco do matagal, mas logo ouvi um clique e uma porta se abriu de onde eu apenas via uma parede de tijolos. Bem Beco Diagonal, manja?

– Galera! É vocês!

Ouvi uma salva de “e aís” e fomos embora. Meu raptor não olhava diretamente pra mim, mas eu não conseguia tirar os olhos da camiseta do Lanterna. Se ele sujou…

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Chegamos em casa, amarraram nós dois e nos fizeram perguntas sobre família, infância, vida, Enlaces. Devo dizer, fomos impecáveis. Podíamos ser irmãos gêmeos. Esse Victor deve ter pesquisado um bocado sobre a minha vida… comecei a achar que isso tinha um quê de ajuda externa. Alguém. Alguém do Enlaces tentando me derrubar. Quem seria?

A imagem que via silenciou e eu apenas observei a balbúrdia ao meu redor. Camila levantando os braços, apoiando Victor Burgos agora. Diego indeciso, olhando para uma lista de probabilidades de um ou outro ser o mentiroso. Nicole com uma HQ na mão, acho que ela queria pedir emprestada, mas não sabia pra qual dos dois perguntar. Priscila e Plínio conversando num canto e nos olhando desconfiados. Leide dando batidinhas em meu ombro e sussurrando “vai dar certo, eu sei que você é o verdadeiro.”.

Óbvio. Eu sabia quem fora o desertor.

Quem era a única pessoa a tomar partido do Victor? E quem gostava de pesquisar e repassar a informação para o ‘usuário’? Quem enlaça comigo nos contos do Enlaces 90% das rodadas e teria motivo para apoiar meu sequestro? Sim. Era ela mesma.

Mas fiquei quieto. Mantive a pose, enquanto os outros decidiam que estava empatado e tanto Victor quanto Lucas eram passíveis de existir. Decidimos que os dois fariam parte do Enlaces agora, um ajudando o outro a escrever.

Nunca saberei se foi ela a traíra, que maquinou todo esquema para me botar abaixo. Decerto não tem criatividade o suficiente para enlaçar com meus contos superiores. Isso tinha sido quase um golpe de estado.

Por isso decidi pela melhor saída. Subornei Leide e Diego para que manipulassem o sorteio de todas as rodadas, assim ela sempre enlaçaria comigo. Fiz uma lista de todos os assuntos que a fariam ter um bloqueio criativo, como navios piratas no espaço, professoras louconas em outra dimensão, lobisomens, textos abstratos, e muito, muito mais.

Esse foi apenas o começo da minha vingança. Quem sabe um dia alguém conta essa história… Engana-se quem pensou que eu, Lucas Rodrigues, era um pseudônimo. Ela é.

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