a outra

As costas doíam e os olhos teimavam em continuar fechados. Só mais cinco minutos… Pare! Prometeu que não ia mais fazer isso. Não tinha coragem de olhar o celular para ver as horas, sabia que sentiria vergonha de si mesma.  Mas o volume alto da  TV do vizinho se incumbiu de declarar que lá  fora o mundo já tinha almoçado e retornava para o segundo round.

Amanhã eu consigo. Hoje vou dormir cedo e amanhã vou acordar as 7 horas, tomar café da manhã, caminhar, tomar banho e ir procurar emprego. Juro.  Um gato interrompeu seus planos, passando insistentemente entre seus pés até fazê-la tropeçar e quase cair. Pelo seu miado desesperado estava sem comida. Lembrou que no dia anterior eles já estavam sem comida.

Café da manhã ou almoço? A geladeira decide. O que tinha mesmo nela? Ar frio tinha ainda, pelo menos enquanto a conta de luz não fosse cortada… Na fruteira?  Uma batata. Foi até o quintal do vizinho roubar algumas ervinhas para temperar.  Faria daquele limão uma limonada, ou seja, de uma mísera batata um prato gourmet, e ainda postaria a foto no instagram.

O sol queimou seus  olhos. Que calor insuportável. Odiava o calor e quem gostava dele.  Tinham que banir todos os adoradores do verão para o inferno. Quando foi pular o muro para roubar um galhinho de alecrim reparou que pisava em um pé no seu quintal. Não sabia que pés de alecrim se moviam. Até ontem eles estavam do outro lado do muro. O vizinho era cozinheiro e plantava todo tipo de tempero, que ela pegava emprestado sem ser vista e tirava foto para dizer no facebook como era fácil e legal ter uma horta em casa.

Não era só alecrim que havia brotado espontaneamente em seu quintal, que sempre tivera só mato. Tinha até pés de cenoura, nabo… quem  come nabo?  Bem, ela já havia postado  “hashtag amo nabo” uma vez, mas na verdade nunca havia comido. Colheu algumas coisas até o sol se fazer insuportável e a expulsar para dentro de casa. Colocou a colheita na pia e foi lavar o rosto, que nem tinha aberto os olhos completamente ainda. Quando voltou para a cozinha, arrastando-se de cansaço só de lembrar que a pia estava cheia há dias, não pode acreditar no que seus olhos, agora completamente abertos, viam. A pia limpa. Aliás , tudo limpo. Pensaria que tinha recebido uma visita de mãe, se ela e a sua se dessem tão bem quanto o twitter pensava.

E na mesinha de canto, que ela sempre pensara em fazer uma pátina e pôr um vasinho, mas deixava abarrotada de coisas fora do lugar,  tinha um prato já pronto, maravilhoso, combinando com a decoração da mesa, que estava como sempre sonhara. Devo estar sonhando. Voltou para a cama. No caminho reparou que a casa toda estava magnífica. Os gatos dormiam tranquilamente no sofá. O prato deles estava cheio de ração e tinha uma tigela de água limpa ao lado. Sentiu até  um perfume de lavanda no ar. Não tinha amigos, nem falava com os vizinhos, papai Noel não existia, não se inscrevera em nenhum programa de TV que transforma as casas das pessoas. O que significava tudo aquilo?

Ouviu barulho na cozinha. Sua casa fora invadida durante a noite por algum bandido prendado?  Foi até la pé ante pé. E constatou aterrorizada que tinha alguém comendo em sua mesa. Sentada em sua mesa, de costas para ela, tinha uma pessoa que ela nunca vira antes! Como assim? Nem usava drogas… Fome poderia causar alucinações assim? Correr? Gritar? Chamar a policia? O que fazer? Como a outra continuava a comer sem se dar por sua presença, concluiu que se tratava de algum distúrbio de sua parte e se retirou para o seu quarto.  Jogou-se na cama e decidiu esperar se acalmar para saber o que fazer.  Acabou dormindo novamente.

Acordou com uma música alta vinda da sala. Então sua casa continuava invadida e teria que resolver.  Adentrou a sala resoluta. Iria pôr para fora aos pontapés aquela invasora. Mas a sala estava cheia de gente, parecia uma festa. Todos riam e dançavam. Não podia aparecer assim, fazia três dias que não tomava banho. Cheirou as axilas. Muito mal. Melhor tomar um banho antes, depois expulsar a invasão surreal dignamente. Tinha gente no banheiro. Seu quarto, seu refúgio . Melhor seria esperar a festa acabar e depois ir tirar satisfações com a responsável por isso. Mas a invasão se estendera até seus domínios mais secretos. Alguém se trancou em seu quarto. A melhor opção seria mesmo chamar a policia. Seria, se pudesse tomar um banho, vestir outra coisa no lugar do moletom cortado como bermuda e da blusinha de alcinha mostrando as axilas peludas e cheirando mal.

Como numa noite alguém pode invadir sua casa, arrumar a bagunça de anos, fazer uma horta e organizar uma festa? Será  que dormira só uma noite mesmo? Seria possível ter morrido e agora ser um fantasma apegado à casa?  Nunca acreditara em vida após a morte, porque todos os seus contatos nas redes sociais eram ateus, melhor ser também. Se esgueirou sem que ninguém a visse e foi para a calçada . Em frente a casa tinha mais gente conversando com latinhas de cerveja na mão. Nem repararam nela ali, como se  nem existisse. Descobriu como se sentem os mendigos. Aproveitou a invisibilidade para inspecionar seus invasores. Seus vizinhos estavam entre eles. Pessoas com quem nunca trocara nem um bom dia, mas que se curtiam mutuamente no facebook.  O chef de cozinha mesmo, curtiu suas fotos de perfil, que ela cuidadosamente escolheu com ângulos mais favoráveis. Felizmente estava irreconhecível , um vexame a menos no currículo.

Alguém chamou da porta da sala e todos foram animados para dentro. Era a hora do parabéns, alguém disse. Quem estaria fazendo aniversário  em sua casa? Esperou todos entrarem e ficou espiando pela janela. Depois do Ra-Tim-Bum gritariam o nome do aniversariante.

-Mary! Mary! Cindy! Cindy! – ouviu antes de quase cair para trás ao vislumbrar o rosto mal iluminado pelas velinhas teimosas.

-Eu?!!!

Era trinta de abril, data de nascimento que informara nas redes sociais. Mary Cindy, seu nome virtual, assoprava as velinhas e ria com seus amigos virtuais. Sim, agora reconhecia todos. Eram algumas dezenas de amigos que nunca vira pessoalmente. Todos ali, lindos, perfumados, felizes, enquanto seu estômago roncava e suas axilas se deterioravam mais.

Não entendia patavinas do que acontecia ali, mas não gostava nem um pouco. Sua versão virtual resolvera invadir sua vida real e sua casa. Sentou-se no chão, atrás da cisterna. Cisterna? De onde viera aquilo? Sempre pensara em utilizar uma mas nunca concretizara a ideia. A casa vista de fora, do chão, parecia agora tão bonita, tão desejável. Meu cantinho no mundo. Era assim que se referia a sua casa quando postava fotos de pequenos detalhes que davam a entender ser de um lar perfeito. Sempre detestou tudo ali.

Quando todos foram embora encheu-se de coragem para ir falar com a usurpadora, que dançava enquanto recolhia os copos e pratos largados pelos móveis. Para que deixar para amanhã se posso fazer hoje? -dizia para si.  Frase feita. Como era artificial!

– Hello, baby!- foi o que saiu daquela boca toda perfeita, sem as cáries e o mau hálito da versão original

– Devia parar de procrastinar a visita ao dentista…

-Viva intensamente, sempre olhando para frente. Pois quem olha para trás nunca vai conseguir ver o que esta na sua frente. Só vai viver tentando consertar o passado.

-Oi?

– Clarice Lispector.

-O que tem ela?

– A frase.

-Escuta aqui, moça !…

-Mary.

– Que Mary! Você é  uma alucinação. Não sei de onde saiu e nem porque dessa palhaçada. Mas vai embora da minha casa agora.

-Minha casa.

-Como?

– Minha casa, Maria Aparecida. Eu moro aqui. É  minha casa. E continuou irritantemente feliz, recolhendo o lixo, varrendo e limpando tudo as 2 horas da manhã.

-Se você não for embora chamo a policia.

-Se você não for embora chamo o psiquiatra. Você está doente. Li sobre isso ontem, chama mimetomania, mania de imitar os outros.

-Eu estou imitando?! Você é  a impostora aqui.

– Não posso ser a impostora. Sou linda, tenho um emprego, milhares de amigos, amo gatos, cozinho, faço caminhadas de manhã, malho, cultivo uma horta, construí uma cisterna, customizo meus móveis, leio sobre tudo, sou feliz, dou conselhos, cuido da minha casa, durmo a noite, de dia vivo intensamente. E você?

Dormia o dia inteiro, restava ainda dois meses de seguro desemprego e não tinha mais desodorante.

– hahahaha Hashtag partiu clinica psiquiátrica!

Não se pudesse acabar com a versão falsa de si mesma. Foi até o quarto, ligou o notebook e deletou todas as suas contas em redes sociais. E voltou a dormir.

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