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Agora todos diziam que ele tinha a idade de Cristo, mas ele não entendia. Como poderia ter 2014 anos e continuar andando vivo, por aí? Ele já sabia que a expectativa de vida humana era por volta dos 75 anos. Revirou os livros – e também a sua memória – e não conseguiu localizar nenhum caso de alguém que vivesse por tanto tempo, nem perto disso. Sentado na beirinha de sua cama, ele abriu a sua carteira e olhou para o seu documento novamente para conferir os 33 anos de sua idade. Depois chorou, claro. Era isso que ele fazia há 2014, ou a 33 anos, tanto faz: chorar. Bem agora, pensava ele, que estava mais adaptado e estava estudando fora de casa, em um curso. Bem agora, que seus sonhos simples pareciam mais próximos. Bem agora…

Ele havia ficado praticamente trancado durante duas décadas. Levando uma vida de janela, esperando a vida passar por ele. Ou atravessá-lo.

O problema era simples: havia nascido literal. A causa ninguém nunca descobriu, tampouco a cura. Faltavam, em seus genes, a ironia, o sarcasmo, o cinismo. Sobrava a inocência, a pureza, a honestidade.  A princípio, isso o categorizaria como o mais sublime dos homens mas não é exatamente essa lembrança que tinha da vida, desde a mais tenra idade. Tem memórias tristes de quando, aos 02 anos, sua avó disse que ele era um gatinho. Confuso, quis miar. Depois, beber leite do pote. Todos riram. Aí ele começou a se lamber inteiro e a passar as unhas pelo sofá de casa. Pararam de rir. Os pais, preocupados, encheram-no de palmadas, pois isso era, claramente, uma “sem vergonhice”. O problema piorava à medida que ele ia convivendo com mais pessoas, em especial na escola. Quando a professora disse que ia “perder a cabeça”, começou a gritar desesperado e sua mãe teve que buscá-lo de imediato, de onde saiu suspenso por uma semana. Dias depois, no retorno, não saiu do pomar da escola tentando enfiar o pé na jaca. A família procurou um psicólogo mas o mesmo recusou-se a atendê-lo quando, confuso por uma expressão utilizada na sessão, o menino começou a agarrá-lo com unhas e dentes. Não parou por aí, pois a convivência social deixou claro para ele que as relações humanas não eram simples como ele as entendia, ao contrário: além de sua já imensa dificuldade, não faltaram colegas que viram nele uma grande oportunidade de diversão mórbida… Foram dias vendo se alguém estava lá na esquina, gastando sua mesada no zoológico tentando pagar o pato e realizando uma longa busca com um padre, tentando localizar algum pão que o diabo havia amassado. Foi expulso da escola aos 13 anos, quando – seguindo um conselho para se dar bem nas provas – agarrou-se a bolsa escrotal do professor de matemática, puxando-o para baixo, até sangrar.

Vinte anos haviam se passado desde que ele deixou os lugares públicos. Entendeu o mundo como um lugar inóspito e que se conquista sozinho: não poderia haver nada além dele. Estudou em casa, foi se adaptando. O mundo não parava de acontecer e ele acabou acontecendo com o mundo. Virou ascensorista, que era a profissão mais invisível que poderia almejar e conseguiu alugar um quarto de uma pensão, onde se escondia diariamente, quando uma forte arritmia cardíaca e uma intensa vontade de chorar lhe acometiam. Dormia muito, pois sonhava. Era nos sonhos que vivia. Sonhava com seu casamento, com seus filhos, com um emprego onde convivesse. Sonhava que ria, tomava cerveja, tocava viola, cantava… E era assim, com as coisas mais prosaicas. Depois acordava e saía para vida, sem nenhuma cor. Turvo, totalmente turvo.

E em um dia cinza como ele, aos 33 anos, resolveu sair pro mundo. Resolveu arriscar-se a um dos sonhos que sonhava, mesmo sabendo da dor que poderia acertá-lo em cheio.  Claro que, nos 20 anos em que bastou-se, ele conseguiu se machucar, apesar de sua invisibilidade eventual: tentou fazer um chá de cadeira na fila do INSS e quase ficou cego ao ter que comprar algo que eram os olhos da cara. Mas matriculou-se em um curso de administração, duas vezes por semana, e estava adorando. Um mês e tudo estava calmo.  Conversava pouquíssimo, mas gostava da professora, que era prática e quase tão literal quanto ele. Quase.

Aí, chegou um dia fatídico.  Haveria uma prova e ele já estava ansioso. Anotou a matéria e sabia que teria tempo de sobra para estudar. Já tinha comprado os livros e estava achando que escolheu administração da maneira correta: aquilo era tão bom, tão seco, tão objetivo. Estava com a sensação de que não correria riscos. E ali, naquela noite, com o material todo arrumado em sua mochila, ele de pé, ao lado da porta de saída. Esperançoso. Quase feliz. Quase normal. Quase existindo. E então, a admirada professora ordenou em alto tom, para todos os alunos: “Quero que se matem de estudar”.

Foi um longo caminho até em casa. Chorou, inundando seu rosto e secando sua alma. Bem agora…Bem agora… Foi andando lentamente, sabendo que entraria em seu quarto, tão apertadinho quanto ele próprio, e não sairia dele nunca mais. Nunca mais veria ninguém, nunca mais ninguém o veria. Não conseguia entender, embora fizesse tanto esforço: O mundo tinha algum sentido? so Chegou até a porta da pensão onde morava, ainda machucado, ainda úmido por dentro e por fora. Pegou a chave, sabendo que, abrindo a porta, entraria em sua sentença de morte. Olhou para a padaria ao lado e deu-se de presente um último desejo: um sonho, por dois reais. E dentro de seu quarto, fechado para a eternidade e literalmente com um sonho em suas mãos, ele devorou-o avidamente. E devorou-o na franca esperança de que, em algum momento, os seus sonhos o devorassem de volta.

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