what-happens-in-first-marriage-counseling-session

Sempre me orgulhei de ser uma pessoa séria. Quando eu estava na faculdade, não saía pra beber, eu estudava dia e noite e me dediquei com afinco a tudo que quis fazer. Consegui o emprego que almejei e achei que assim podia ter o controle de tudo na minha vida. E, de repente, algo aconteceu e me tirou dessa monotonia. Mas não foi algo bom.

Eu não tinha tido experiências marcantes com a morte. Ela sempre passou raspando em familiares próximos, indo de encontro àqueles esquecidos ou há muito tempo não vistos. Nunca estive num funeral, nunca chorei por alguém. Achei que a idade me faria mais forte, mas acabou que a inexperiência me fez fraca. Eu…

Eu devia saber que um dia a morte me pegaria de surpresa. Que a vida não pode ser levada sem a turbulência que esperamos nunca ter de enfrentar. E agora, além de morte, enfrento a culpa e o peso. Como o peso de um corpo, aqui em cima dos ombros, me levando pra baixo e esfregando minha cara no chão, me mostrando que sou indigna.

Naquela noite, fui contra a vontade dos pais de Edson. Senti dever isso a ele. Minha presença não os lembraria de sua morte, não mais do que o normal pelo menos. Havia passado a semana sentindo uma dor, algo forte e que me dominava. Não tinha cabeça pra fazer nada nem estômago para comer. E quando eles dois foram me visitar dois dias antes do enterro, me contaram tudo. Me contaram de como Edson tinha sido achado… um homem completamente estafado, debruçado sobre livros e anotações, em sua escrivaninha velha, sem o menor indício de comida ou água por perto, apenas um guardanapo cheio de açúcar e formigas no lixo da cozinha. E ao seu redor, nenhum bilhete de suicídio, somente anotações infindáveis de administração pública. Quando os pais dele descobriram que eu lecionava essa matéria, vieram falar comigo logo em seguida, um ou dois dias depois da morte. Eu disse que planejava uma prova para o dia seguinte. Pelas contas que eles fizeram, Edson deve ter estudado 3 ou 4 dias direto. Eu… desculpe.

– Tudo está bem, Carine, pode levar o tempo que quiser. Se quiser chorar, pode deixar sair, você está em um lugar seguro agora.

Não quero chorar. Estou muito abalada para chorar. Eu preciso voltar a contar. Eu não sabia que ele tinha problemas. Os pais dele me contaram. Me obrigaram a relembrar tudo e qualquer coisa que eu tivesse dito antes de liberar os alunos da última aula antes da prova. Tudo é importante, eles disseram. Eles pareciam calmos ainda, eu estava triste pois gostava de ver Edson, ele era tão aplicado, sempre estudava e respondia perguntas. Parecia realmente querer se encaixar, apesar de estar sempre sozinho. Bom… eu disse que tinha dito uma coisa qualquer para motivá-los no estudo… um “se matem de estudar” talvez. Pô, é só uma frase não é? Porra, quem é o imbecil que levaria isso a sério? Bom, eles não acharam assim e me culparam, me ofenderam e a mãe chegou a cuspir em mim. Eu apareci no velório mesmo assim. Falei umas palavras perto do caixão dele. A mãe dele se aproximou, irada, e tentou me bater. Me empurrou, eu bati no caixão e tiveram que segurá-lo do outro lado para que não caísse. Eu comecei a chorar, perdi as forças nas pernas. Caí no chão, ela me chutou, me arrastaram pra fora e eu não lembro mais de nada. Isso faz alguns dias. Bosta. Eu fiz o que de errado afinal? Eu devia evitar as palavras relacionadas a ‘morte’ na minha classe? Talvez, acho que agora eu aprendi a lição.

– Carine, você sabe que esse seu desprezo pelo acontecimento só me mostra que ele foi tão forte que você não está conseguindo lidar, não é?

[silêncio]

– Eu acho que tem muitas coisas que precisamos trabalhar. É óbvio que você está se responsabilizando pela morte do seu aluno. Precisamos tentar enfrentar essa culpa.

Então você acha que eu sou culpada? Você acha que eu estou errada!

– Bem, esse rapaz padecia de um mal chamado litteralis morbo. É uma doença que o faz levar toda e qualquer coisa dita, da maneira mais literal possível. Não é muito conhecida pois seus casos são raros. Você não tinha como saber. Mas é inevitável dizer que você se sente responsável…

Você acha que eu matei ele, não é? Que eu, querendo ou não, o matei! Que se não fosse por mim, ele estaria vivo! Da mesma maneira que os pais dele acham!

– O importante agora é você aceitar essa parcela de culpa que você acha ter e lidar com isso da maneira que a fizer sentir melhor consigo mesma. Acha que consegue fazer isso?

Não. Não sei. Não tenho conseguido dormir. Eu sonho com ele, eu o vejo nas minhas aulas, eu me sinto mal ao ver meus alunos, me sinto péssima quando abro a boca na classe, isso está acabando com a minha vida, acabando com tudo que eu construí pra mim! E você? Não está sendo paga pra fazer alguma coisa? Então faça!

– Querida. Você tem algo de controladora e não consegue lidar com os cursos naturais de uma vida, com mudanças e frustrações. Não me parece o tipo de pessoa que aguenta a pressão de uma morte, quase um assassinato, eu diria. Vai precisar de um tempo para recuperação. Eu sugeriria afastamento do trabalho e alguns meses de terapia.

Preciso ir embora.

– Tchau, querida. Te vejo semana que vem. A sessão é 100 reais.

 

[6 meses depois]

 

Professora da UFLM desaparecida é encontrada morta

fundo-do-poco

O corpo de Carine Mattos Ribeiro, que estava desaparecida há uma semana, foi encontrado por cães farejadores em uma cisterna desativada no campus da universidade em que lecionava. O delegado Borges, responsável pelo caso, declarou que o corpo não possuía marcas de agressão e portanto não descarta a hipótese de suicídio. A colega de trabalho Fabiana, última pessoa a ver Carine com vida, revela:

“Quando nos vimos ela me contou que acabara de perder o emprego, que suas sessões com a psicóloga só serviram para deixa-la mais obcecada com a morte do aluno dela. Fiquei muito abalada, ela parecia desesperada. Lembro de ter dito que ela precisava resolver sua vida, porque tinha chegado realmente ao fundo do poço.”

Anúncios