dark-walk

Apoiava-se na amurada da ponte, observando a escuridão. Não havia como enxergar a água revolta do rio, apesar de a brisa fresca e o barulho de água lembrarem seus sentidos sobre a existência do fluído lá embaixo.

Bebericou um gole a mais do café, frio e amargo.

Devia pensar em abrir os braços para a escuridão, deixando o corpo pender num voo para a eternidade? É claro que não. Não tinha mais idade para pensar nessas besteiras. Havia Laura em casa, e a pequena Maria Eduarda, que devia estar testando seus pulmões numa choradeira ininterrupta, como sempre.

Pensou na notícia que escrevera naquela noite, sobre uma professora que fora encontrada morta. Matara-se. Não vencera os próprios demônios, como ele tantas vezes tentava fazer. Porque a ideia de chegar em casa com a bagunça das crianças e a esposa com olheiras e reclamações muitas vezes o fazia pensar em desistir. Mas, no fim desses fluxos de pensamento, ele sempre vencia, seguia em frente.

Jogou fora o resto do café, assim que voltou a caminhar, deixando para trás a escuridão daquela ideia tentadora, andando pelas ruas alaranjadas pelas luzes artificiais.

Havia silêncio, tanto que ele se sobressaltou quando uma silhueta parou em sua frente, brilho de lâmina, “Passa aí a grana”.

Levantou as mãos em reflexo, ia ser tranquilo, ia pegar a carteira e entregar.

Ouviu alguém gritar. “Chama a polícia, o moço ta sendo assaltado” e então o vulto mexeu, a dor surgiu devagar no começo e intensa depois.

A carteira caiu no chão, e por um momento, ele viu na escuridão dos olhos do outro, a sua imagem refletida.

Já tinha pensado naquilo… Não queria desistir, não era hora. Mas a escuridão chegava, pela última vez.

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