Shadow-Hall

Apoiava-se na rede da varanda, observando a escuridão e as luzes de Barroque City. Não havia como enxergar as estrelas naquele céu ofuscado, apesar da presença da carcaça de um Sushi-Destroyer intergaláctico — derrubado por ele próprio com a ajuda de seus colegas de trabalho — no centro da cidade e o alienígena empalhado na sua sala lembrarem seus sentidos sobre a existência de todo um universo lá em cima.

Mordiscou uma mordida a mais da pizza, fria e dura com a vida.

Pensou na notícia que ouvira naquela noite, sobre um ajudante-mirim que fora encontrada morta. Mas não por culpa de um supervilão. Matara-se. Não vencera os próprios demônios, como ele tantas vezes tentava fazer. Porque a ideia de chegar em casa após de que lutar com um maluco carnavalesco e monstros gigantes feitos de comida apenas para encontrar bagunça e contas mal pagas muitas vezes o fazia pensar em desistir. E as piadas. As malditas piadas. As malditas piadas sobre ele ser apenas um maluco fantasiado em uma terra de deuses e monstros, sobre ele ter algo com seu mentor, o homem-tordo. Tinha sido assim com a aguia-flecheira e com o homem-tritão. E algum dia poderia ser com ele, Jéferson Cebola, sócio da pizzaria Barão e alter-ego do Tremoço-Creme. Mas, no fim desses fluxos de pensamento, ele sempre vencia, seguia em frente.

Jogou fora o resto da pizza, se arrumou, e decidiu que ia fazer algo. Tentando deixar para trás a escuridão daquela ideia tentadora, andando pelas ruas alaranjadas pelas luzes artificiais.

Havia silêncio, tanto que ele se sobressaltou quando uma silhueta parou em sua frente, brilho de lâmina, “Passa aí a grana”.

Deu um sorriso em reflexo, pôs as mãos embaixo do casaco em reflexo, ia ser tranquilo, ia pegar o morfador, virar o tremoço-creme e mostras àquele ladrãozinho com quantos palmitos se faz uma pizza.

Exceto que Jeferson não encontrou nenhum morfador no bolso.

— Cê tá de zoeira? — disse o vulto, apontando a faça para Jeferson — Cê tá de zoeira comigo?

Jeferson ergue as mãos para o alto, sentindo mais raiva do que medo. Ele tinha deixando a porra do morfador em casa. E agora lá esteva ele, o Tremoço-Creme, o mesmo herói que já tinha derrotado civilizações inteiras e espancando deuses, indefeso contra um cara com uma faça. É, as roupas faziam o herói. Ao menos no caso dele.

— Não estou achando minha carteira!

— Então passa o celular cacete! — disse o ladrão, ainda indistinguível nas sombras. aparentemente sem mexer a boca.

— Eu esqueci ele em casa!

Ele tinha um celular — em verdade, um aparelho xenobiopositrônico de comunicação que por algum acaso cósmico parecia com um relógio em forma de pizza — e de fato o havia deixado em casa.

— Vai se lascar!

Foi ai que ele começou a notar que havia algo de errado no assaltante. Ele falava, mas sua forma – sua silhueta – não parecia mudar. Como se ele não fosse uma pessoa escondia nas sombras, e sim uma som…

Ouviu alguém resmungar. “Chama a polícia, o moço tá sendo assaltado” e então o vulto mexeu.

Onde a calma falhou, os instintos prosperaram. O ladrão deu uma estocada em frente, mirando na barriga da vitima. Mas Jeferson já era um guerreiro calejado. Um movimento, um desvio rápido para a direita, bastou para que a lâmina só atingisse o vazio. Por um momento, o ladrão hesitou. Jeferson respondeu com um soco na cara dele. O agressor cambaleou para trás, dando a deixa para o super-héroi a paisana, usando a força de anos de combate, o agarrar e jogar contra um poste.

E foi ai que ele viu. Seu agressor não era uma pessoa – era uma sombra em forma de homem.

— Mas que diabo de poder é esse?

Não era uma pessoa usando uma camuflagem. Era como se fosse uma figura totalmente escura, uma verdadeira sombra ambulante.

— Chega!

A sombra humana correu pela rua, e o Tremoço-Creme foi atrás dele. A perseguição terminou em um lugar que ele não gostou: a ponte, de onde o ladrão pendia precariamente.

— Os aliens… Os aliens me pegaram e me prenderam nessa roupa idiota… Você… Você pode imaginar isso?

— Mais do que você pensa. Olha, saia dai..

— Você me acha bobo! Eu não sou uma piada!

— Desculpa. Desculpe mesmo. Pelo amor de Deus, venha comigo. Não importa se você não pode destruir cidades ou voar ou varrer mentes. Sua habilidade é especial.

— Eu não posso viver assim. Os aliens estão me seguindo. Ninguém me reconhece. O governo quer me dissecar.

— Você é mais forte do que pensa.

— Não… Não sou — disse ele, se soltando.

O Tremoço-creme ficou olhando a escuridão, incapaz de sequer soltar um grito ou uma lágrima.  Jeferson Cebola já tinha pensado naquilo… O Tremoço-Creme não. Ele não queria desistir, não era hora. Mas no fundo do rio, O Escuridão partia, pela última vez.

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