ponte

Apoiava-se na amurada da ponte. Os dedos discretamente trêmulos sentiam a aspereza do concreto talvez como a última sensação concreta diante do abismo escuro e incerto à sua espera.

– Chama a polícia! O moço  esta sendo assaltado!

Na escuridão podia sentir os olhos de meia dúzia de insólitos transeuntes chispando de ódio. Não importava quem eram os dois personagens encostados na amurada. Importava ver justiça e sangue. Os egos satisfeitos e um resto de noite com cabeças leves sobre travesseiros macios depois de um dia sem sentido.

Preso por mais de seis anos sem julgamento, acusado de estupro e assassinato. A faca no pescoço tremia entre a pele suada e o ar fresco da noite. Duas pessoas foram mortas. Mas só uma era vitima. Liberdade não existe, é só um produto para quem pode comprar. Encontrou isso escrito num caderninho velho anos depois. Foi só o que restou.

Esteve muitas noites ali. Com os dedos no concreto, entre a hesitação e a certeza. Sentia o vento chamá-lo para baixo. Mas sempre seguia para a esquerda e voltava para casa. A policia já fechara os dois lados da ponte. A imprensa se movimentava atras das viaturas. Chegou ao fim do caminho.

No mesmo viaduto em que Claudinei encontrara a liberdade, ele não era livre. Nascera preso e para onde quer que fosse carregaria sua prisão. Atara-se à bola de ferro que ficou para trás na noite do derradeiro voo. O verdadeiro culpado nunca fora preso. E mesmo depois de solto continuou condenado. Mesmo depois de morto sua casa foi queimada. Os olhos de menino refletiram as chamas e secaram todas as lágrimas.

Nunca acreditariam que o homem sob a faca havia matado a noiva e que as mãos negras e tremulas só queriam uma confissão. Nunca conseguiriam enxergar além da imagem. Um homem bem vestido, com as mãos para o alto. Um negro mal vestido, que só se encaixava bem com uma faca na mão. Era o que viam na noite escura e o que pensavam em dia claro.

Mesmo com os berros do confessor não podiam ouvir. Só ele e o abismo escuro eram testemunhas de que Claudinei era inocente. Quinze anos depois ele finalmente conheceu a verdade. Finalmente todos poderiam saber de uma injustiça. Mas não ouviam, não podiam ver. Só viam o homem preto com a faca na mão.

Se pudessem ver ele teria conhecido o pai.

Só um dos lados da ponte estava livre. Sempre fora livre. Livre para não nascer, para não crescer, para não ser. Agora estava livre para escolher a margem que sempre conhecera, o da não existência definitiva. Tantas vezes pensou em desistir. Mas não queria ser parecido com o pai em tudo, como disse a mãe quando desistiu dele.

Tinha uma confissão. E mesmo que ninguém acreditasse, deixaria a bola de ferro na margem da ponte e tentaria a incerteza. Seguiria os passos do pai rumo à liberdade, mas a rasgaria pelas outras duas margens bloqueadas da ponte. A terceira seria só sua força, seu trampolim. Soltou a faca, ergueu os braços e caminhou lentamente de volta à escuridão.
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