Aquela barra piscava sem parar sobre o fundo branco na tela. Nem o sucesso das tortas de Judith, nem a grande rede de fast food recém-instalada na cidade lhe traziam ideias sobre o que escrever…  Que grande droga era ter prazo para escrever. Foi-se o tempo da escrita fluida, onde as palavras flutuavam em sua mente até que pesassem sobre o papel. Esta era da tecnologia, onde havia tanta informação, mas nada tocava, fixava… Tudo se perdia num invisível universo online. Que grande mentira se legitimava a vida… Que grande desserviço escrever o ausente.

Deu um gole no vinho e acendeu outro cigarro. Desligou a internet, encarou os livros na estante, e de repente seus olhos pararam num ponto distante. Se lembrou da caixa de jornais que havia no maleiro. Jornais antigos, de páginas amareladas, que contavam os casos da cidade sob uma perspectiva mais crítica, quase teorizando a conspiração econômica e política do mundo, resumida e reproduzida ali, naquela velha cidade pequena. Da proibição nos anos 30 ao esquecimento dos anos 60, o jornal foi definhando ao lado de qualquer movimento de luta e resistência dos trabalhadores locais. A caixa pesada reunia números incompletos e uma quantidade incontável de informações locais, de pessoas que sumiram ou foram sumidas, de suicídios e violência de uma época que a cidade se esforçava em manter enterrada. Nas últimas edições, algumas folhas arriscavam denúncias constantes sobre liberdade de expressão e crimes políticos.

Seu prazo era ridículo! Precisava produzir um artigo leve, porém com impacto aos leitores da revista que a empregava, abordando a importância da carreira profissional na vida do homem. Inútil! Não pensava mais nisso ao revirar aqueles papeis frágeis, empoeirados e carcomidos. Buscava distração até que a ideia aparecesse ou escreveria sobre sua própria carreira, acrescentando reconhecimentos, prêmios, parentes e um pênis. Estava de bom tamanho! Encheu a taça e sentou no chão da sala, de joelhos esticados com a caixa entre as pernas, feito criança. Que herança havia recebido! Enquanto folhava, pensava qual era o papel de sua família na história daquela cidade, se haviam outros que guardavam aquele material todo…

Entre as reportagens que lera, havia uma cuja foto mostrava a ponte movediça que levava para fora da cidade. Fixada desde que era criança, lembrou-se com espanto o poder da cidade em evitar entradas e saídas erguendo aquela ponte… Ninguém nunca falava sobre o passado que ela encontrava naquelas páginas. Na manchete sobre a foto: “Suicídio ou assassinato? Morte de ex-dirigente político aponta conflito interno”.  A reportagem relatava a morte de um homem, ex-funcionário do governo local, sob estranhas circunstâncias. Raúl Lops dirigia um carro em alta velocidade em direção à ponte ainda movediça, na época. Ele tentava sair da cidade, quando a ponte foi suspensa… Seu carro caiu entre o vão de 24 metros de altura. O artigo alegava que Raul, como ex-integrante do governo, conhecia o horário de suspensão da ponte e que por isso, sua morte indicava conflitos internos. Ou ele optou pela morte como forma de sair daquela cidade e de toda a realidade obscura, ou a ponte foi suspensa sem seu conhecimento, contrariando a autorização prévia de sair da cidade.

Começou a procurar, entre as reportagens antigas, mais sobre Raúl e sobre como funcionavam as coisas na época. Parava em determinados momentos e lembrava o quanto brincou naquela ponte, chorou despedidas, escondeu-se dos carros jogando-lhes pedrinhas… Viveu momentos inocentes em um espaço que simbolizava a imposição, os limites, o poder… Arrepiou-se e buscou pela taça, agora vazia. A noite começava se dissolver na luz do sol, quando percebeu que seu artigo, a ser entregue em três horas, não estava se quer começado! Nada mais lhe vinha à mente, exceto aquela ponte…

Fez um café forte, ligou o computador e se permitiu escrever sobre Raúl. Um homem que perdeu a vida por correr atrás de uma vida perfeita! Teceu sua crítica ao criar uma personagem recém-casada que havia sido chamada para uma entrevista de emprego, no que seria a chance de recomeço profissional. A ponte movediça atendia à demanda dos barcos que precisavam da passagem, e Raúl, atrasado e ansioso, como um homem persistente, de decisões rápidas, achou que dava tempo…

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