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Beijo de borboleta! Lembrei. Era assim mesmo que a minha mãe dizia que era o nome que a gente tinha de usar quando encostava os nossos cílios nos cílios de outra pessoa. Aí fazia assim: a gente piscava bem delicadinho mesmo, mas meio na pressa, e chegava até a fazer uma “cosquinha”. Parecia as asas de duas borboletas se encostando, se cumprimentando, se esbarrando… Beijo de borboleta, era esse mesmo o nome. Nossa, tanto tempo. Eu tenho muita história pra contar. Eu preciso me lembrar.

Duas Filhas: Carmem e Cássia. Três Netos: Mário, Daniel e Henrique. Marido: Dorival. Eu: Isaura

Daqui de onde eu estou enxergando, tá tudo vermelho. Esse piso é gelado e vermelho. Isso é confuso porque quando eu era pequena, na roça, eu achava que as coisas avermelhadas eram sempre quentes. A parede do oratório era uma vermelhidão que espichava até o teto e e eu nem tocava a mão, por que achava que queimava. Depois a gente cresce e vê que a quentura vem de outras coisas, num é disso não.  Esse piso daqui lembra aquele do alpendre da casa grande: cimento queimado vermelho. Piso de casa de vó. Eu pequena, trepava no batente da janela  pra alcançar a cera que ela fazia a gente passar no chão. E era um esfrega-esfrega com o pano pra deixar aquilo tudo vermelho  e logo depois a criançada corria e brincava de escorregar pelo piso corrido que a cera voltava rapidinho a  aparecer  nas meias que a gente usava. Era bom, eu gostava… Como eu gostava… Nossa, eu tenho muita história pra contar e eu tenho mesmo que lembrar.

Duas Filhas: Maria e Daniela. Três Netos: Mário, Dorival. Marido: Daniel. Eu: Isaura

Minha cabeça tá fervendo.  Ainda assim, não consigo lembrar por que é que eu vim parar cá no chão. Não sei se eu caí da cadeira, ou se me empurraram. As vezes eu escorrego e quando me dou conta, ja tô aqui embaixo. Eu preciso é chamar logo minha filha para me carregar, que já deve tá fazendo um bocado de tempo que eu tô derretida aqui. Só que tá difícil entender qual das três filhas que eu chamo ou se meu marido já voltou da roça, por que ele é bem mais forçudo e consegue me carregar só com um braço, inda mais agora que eu tô sequinha, sequinha. Tô pensando aqui comigo: e seu eu tiver na casa da minha vó? Mas ela não conheceu minhas filhas, será que ela tá viva? Ah, seria tão bom se ela tivesse… Me lembro que ela me catava pelo braço e me deitava com a cabeça no colo, fazendo uma porção de carinho no meu cabelo com uma das mãos. A outra ela me dava e eu ficava puxando aquele pele fininha, cheia de pintinha escura, que eu adorava. Os meninos tinham muito medo dela, que tinha as mãos e os pés tudo “torto” e andava arrastando pra dentro da cozinha. Eu gostava daquela mão tortinha que eu apertava e apinhava e abria os dedos pra mor de fazer uma massagem e ela gemia, mas de um jeito que eu entendia que ela tava gostando. No meu tempo, criança não falava. Mas entendia tudo. Ah, como eu gosto de ter muita história para contar e eu preciso lembrar de tudo!

Uma filha: Cassia. Netos: Tenho 2. Marido: Faleceu. Eu: Isaura.

Não contei essa ainda: eu tenho uma doença. É um negócio tão chique que quando eu ouvi parecia até que eu tinha virado doutora. Me deu uma vontade danada de correr e contar pra minha mãe que agora eu tinha um mal, mas que não era desses “mal de roça”, tipo “gota” ou “tosse comprida”. Era mal com nome de estrangeiro, dava até gosto de dizer. Eu nem sei bem o que essa doença dá por que eu to novinha igual criança, mas tem um menino que mora nessa casa que morre de rir quando eu chamo ele pelo nome. Ele diz que tô fazendo confusão com o passado e cai na risada frouxa. Dá um apertinho fino no coração, por que parece que eu gosto demais desse menino mas acho que ele não gosta de mim. Confusão com o passado, essa é nova! Eu estudei pouco, mas era boa aluna na roça. Eu até sei que tem três tipo de passado, que a professora chamava de “pretérito”: tem o “imperfeito”,  o “perfeito” e o “mais que perfeito”. Eu dizia que meu era “pretérito mais que perfeito” por que a vida na roça era boa demais. Agora tô achando que essa é a doença do “pretérito imperfeito”. Essa é boa! É cada história para contar… Vou ter que lembrar de mais uma.

Filha: Uma . Marido: Morreu. Eu: Isaura

Beijo de borboleta. Eu tô aqui caída com a bochecha colada no chão, dando beijinho de borboleta no piso vermelho igual a casa da minha vó. Deve de ter tantas horas que eu tô aqui, e eu preciso que minha filha venha me pegar, por que parece que eu tô com vontade de fazer xixi e não vou conseguir ir sozinha lá pra casinha… Eu já gritei o nome dela, mas parece que ela não me escuta. E se ela não tivesse aqui? Vixi, daqui com cara no chão só dá pra ver o piso vermelho e frio, gelado. Isso é confuso porque quando eu era pequena eu pensava que as coisas vermelhas eram sempre quentes. Ja contei essa?

Ah, olha a dona entrando no quartinho.  Até que enfim alguém vai me pegar no colo, que eu to ficando desacorçoada aqui no chão. Não tava lembrando do rosto da minha filha desse jeito, mas olhando de perto parece que tá correndo um riacho de dentro dos olhos dela… Isso é bom sinal.  Agora ela me abraçou e me carregou. Tô gostando desse colo apertado e do calorzinho que dá quando eu olho pros olhos dessa moça. Nem sei se ela é a minha mãe, ou  minha filha, mas tem um jeito que ela se achega que parece que os corações de nós duas bate juntinho, juntinho… Eu gosto dela, disso eu lembro. Ah, eu tenho muita história! Mas eu tenho mesmo muita história para contar para essa moça… Eu só preciso me lembrar. Preciso! Só lembrar.

Filha: ? Marido? Eu!

Eu!

Eu!

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