angustia

As últimas 15 horas tinham sido horas filosóficas, refletiu ele. Era engraçado perceber como ficamos reflexivos quando estamos angustiados. Em uma breve avaliação de sua vida – dessas rápidas que a gente espera fazer no minuto da morte, onde nossa vida passa como um filme em nossa frente – ele percebeu como suas grandes  conclusões sobre a vida e o mundo vieram exatamente nestes momentos: de angústia. De ansiedade. Ou num velório. Velórios também são ótimos, todo mundo se esvazia de futilidade e se preenche de conteúdo num instante e as pessoas falam como se estivessem ditando palavras de sabedoria para biscoitinhos da sorte chineses. E hoje ali, naquele momento onde os minutos passam bem devagar, ele  estava mais reflexivo. Especialistas do mundo todo, grandes filósofos e sua tia Esther concordavam com isso: momentos de crise trazem os maiores aprendizados.

Mas ele continuava aguardando o momento da visita pois havia decidido que hoje iria falar. De qualquer forma, ele iria dizer. Ali, naquela sala de espera meio cinza, meio verde ele tinha a impressão que o relógio funcionava em outro tempo . Não estava sozinho, claro. Outros angustiados também aguardavam seus momentos de entrarem na UTI. Como aquele gordinho no canto da sala que não parava de chorar. Tinha pensado em conversar com ele para acalmá-lo, pois gordinhos costumam ser muito simpáticos e ele ainda tinha essa camiseta com um urso panda desenhado que o deixava ainda mais vulnerável. Mas o que diria? Estava ele também ali, na mesma situação, aguardando para visitar seu pai moribundo e não era, digamos, uma pessoa otimista. Tinha uma outra senhora também, bastante idosa e marcada pela vida, sentada a sua direita. Não falava, não gesticulava e não fazia movimento algum. Talvez não respirasse.  Dava a impressão de que havia nascido morta, mas como resolveram criá-la, acabou semi-vivendo e agora estava ali, aguardando sua entrada trôpega naquele setor indesejável do hospital. E ele, claro: três pessoas e os minutos mais longos de suas vidas.

Era hora de fazer contas: 18 anos morando junto com seu pai, outros 18 morando longe dele e 02 anos sem encontrá-lo. Também tinham números com mais algarismos: umas 1600 brigas, umas 10 que chegaram a agressão física e uns bons litros de lágrimas roladas. E muitas conversas, por que não? Quantas coisas já havia contado para seu pai? Revelações bombásticas, fofocas cotidianas, conclusões sobre a vida, comentários do jogo de futebol… Lembrou-se com saudade do dia em que resolveu contar para ele que tinha beijado uma menina pela primeira vez. Lembrou-se quando teve que contar que havia colocado uma bomba caseira no banheiro da escola… Lembrou-se quando falou que iria casar, quando falou que iria divorciar, quando falou que estava mal, quando precisava de dinheiro, quando havia perdido seu emprego. Muitas coisas já haviam sido ditas, pensou. Mas nenhuma delas se comparam com o que havia resolvido dizer hoje. Isso, essa decisão, agravava ainda mais a tensão e a dura relação entre tempo e espaço que estava experimentando agora. Já havia roído todas as unhas, o gordinho já havia desidratado e a velha senhora possivelmente estava mesmo embalsamada.  E ele? Teria coragem de dizer, de assumir isso na frente de seu pai?

Não foi uma relação fácil, pensou. Mas hoje, mais velho, chegou a conclusão que as relações não são fáceis. As relações entre pais e filhos , evidentemente, são piores. Mas por que, afinal, essa dificuldade? Depois de tantas idas, brigas, esbarrões e avessos, ainda havia sobrado alguma coisa? Sim, ainda havia algo a ser revelado, a ser dito. Ele havia aprendido muitas coisas com seu pai, é verdade. Neste momento, conseguia se lembrar apenas de quando o velho o ensinou a abrir a embalagem do Yakult furando com o garfo. Lindo costume. Mas tinha mais, com certeza. Não se lembrava agora, mas ele sabia que tinha mais.

Levantou, respirou, tomou água. Sentou, folheou a revista, olhou para o gordinho emotivo. Levantou, andou em círculos, sentou. Repassou na sua cabeça o que iria dizer. Como iria dizer. Pensou em faze-lo de olhos fechados e fugir.  A visita na UTI era curta e ele, acamado, não conseguiria ter mesmo uma grande reação. Talvez fosse a melhor forma. Ou não: teria que encara-lo de frente!  De qualquer forma, falaria. Nada pode ser pior do que engolir uma frase inacabada e criar, com isso, um nó na garganta. Certas coisas precisam ser ditas, pensou. Cedo, ou tarde.

Ali, a porta abriu. foi um espanto. A UTI estava liberada para visitas. Com o susto, o gordinho parou de chorar e velha se levantou num ímpeto: estava mesmo viva, a danada! E ele ali, com o coração na boca, os dedos em carne viva, e uma frase para ser dita. É agora!

A visita durou exatos 4 minutos e 26 segundos. Seu pai estava bem, se recuperando. Falaram amenidades: o tempo da cirurgia, a comida do hospital, a enfermeira gostosa e o péssimo hábito que os médicos tem de conversar sobre as coisas prosaicas da vida ao mesmo tempo que furam sua barriga com um bisturi e fuçam nas suas vísceras. Depois, fizeram um breve comentário sobre a vida, um outro mais breve sobre a morte e… pronto! Ele foi embora. Não conseguiu dizer. Convenceu-se, ali mesmo, que ainda não era a hora. Talvez na próxima visita. O pai estava convalescendo, não queria estressá-lo. Afinal, é um assunto sem importância. Despediu-se e foi. Saiu do hospital e foi pra vida. Com a correria de Sao Paulo e com o Stress cotidiano,  possivelmente ficaria mais um tempo sem conseguir ver o pai. Talvez mais um ano ou dois. Mas agora, enquanto ligava o carro, decidia: da próxima vez não escapa! Da próxima vez ele vai dizer. Ele precisa dizer “Eu te amo”.

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