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E então ele deu um soco no velho.

Não foi um crime premeditado, por mais que aquela ação fosse o fruto de sentimentos plantados há mais de quarenta anos. Aconteceu simplesmente. Um impulso nervoso desgarrado dançou pelo sistema nervoso do homem, contraindo e descontraindo todos os músculos e tendões necessários. E pronto, antes de qualquer entrave da mente, o corpo tinha dado o soco.

Todos na sala estavam em choque. A enfermeira gostosa empalideceu. O médico faladeiro finalmente fechou a boca. O homem, mais do que qualquer um, tentava processar o que ele tinha feito. As sensações impacto do golpe ainda ecoavam pelo seu punho, e seus olhos ainda viam o velho — seu pai — meio troncho na cama da sala.

Todos estavam em choque. Todos menos o velho.

O velho deu um sorriso lupino, abrindo um verdadeiro mosaico de dentes e sangue. O homem deu um paço para trás, meio por culpa, meio por um medo vestigial. A enfermeira e o médico fizeram menção de se aproximar, mas ele fez que não com a mão.

E começou a rir.

— Pai… — Começou o homem, sem saber bem o que dizer, e muito menos o que esperar. — Eu não sei o que deu em mim, talvez tenha…

— Você ainda bate como mulherzinha, garoto. — Interrompeu o velho, passando a mão no inchado do rosto. — E não deu nada em você. Esse tipo de palhaçada é sua marca registrada.

— Filho, sei que você não gosta disso, mas vou cortar as frescuras: o que diabos você está fazendo aqui?

— Pai… Você está doente, e… Faz… Faz tanto tempo que a gente não… Não se fala, não é? Eu tinha… que tentar fazer as pazes com você.

Ao ouvir isso, o velho gargalhou, deixando uma mistura de sangue e saliva escorrer pelo canto da sua boca.

— Você não quer fazer as pazes, você quer eu venha rastejando aos seus pés, pedindo perdão por você ser um filho ausente. Tanto que você nunca, em todas essas visitas, tentou falar de verdade comigo. Você ficou ai, esperando que eu dissesse “Eu te amo”, mas eu não te dei esse prazer, não senhor. Eu te testei, eu quis ver até onde você aguentava papos normais antes de dar uma amostra do canalha que você é de verdade.

A enfermeira, o médio e o homem continuavam paralisados. O velho saboreou sua criação por alguns instantes, e então quebrou ele mesmo o silêncio.

— E então, o que tem a dizer sobre isso, espertalhão? Vai chorar?

O homem tentou digerir o veneno do pai, pensando em tudo que ele podia responder, como ele podia explicar que ele se sentia horrivelmente culpado por tudo e ia pedir desculpas. Dai seu coração falou mais alto.

E então ele deu um soco no velho.

 

 

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