Ele caminhava com sua cachorra todas as noites, por no mínimo uma hora.

Trabalhava o dia inteiro, e dedicava o horário noturno à sua maior companheira.  Mesmo estando em casa na maioria dos dias, não saia do computador. Respondendo emails, enviando projetos, escrevendo seu interminável livro.

Vivia bem, em uma casa velha e enorme depois de uma íngreme ladeira. Gozava de boa reputação profissional e era nome certo em grandes produções teatrais. Tinha contato em Los Angeles, Berlim, Paris e importantes e resistentes grupos da America Latina. Dominava editais e escrevia com precisão e detalhes essenciais… Ninguém que o visse naquela casa, arriscaria julga-lo tão influente.

Caminhava e corria todas as noites a fim de manter a forma e o equilíbrio, dele e da Page. Page ia sem coleira, correndo ao lado dele, perdendo o ritmo para algum xixi urgente ou algum chiado ou movimento curioso entre o mato alto que dividia os quarteirões, mas nunca se permitia distanciar demais. Page dividia a rotina conquistada por seu tutor há alguns anos, depois de ter sido encontrada trancada num porão fétido de uma casa abandonada. Teve a ponta do rabo arrancada numa brincadeira de faca entre moleques sádicos, comia restos de comidas quando levavam e tinha marcas de queimadura de cigarro pelo corpo.

Na época, ele atuava no centro da cidade, entre a correria de carros e reuniões. Page não podia suportar… Mesmo com acompanhamento, florais, exercícios, a cachorra parecia carregar a cidade nas costas, com toda sua escura cinzades, seu odor de fumaça e sua opressão. Seguindo o conselho de seu irmão mais velho, diretor de teatro, comprou uma casa afastada e há cerca de três anos estabeleceu uma rotina tranquila, pela Page. E ele também foi beneficiado.

Há sete dias Page se perdeu no passeio. Foi a última noite de equilíbrio. Há sete dias seu trabalho não sai do lugar e os prazos se aproximam do limite para envio. Há sete dias ele não se concentra em nada mais exceto achar sua companheira.

– Alô! OI irmão… Não, nada ainda!

O pânico da solidão e os assombros da imaginação lhe tiravam o sono, lhe tremiam a voz… Seus olhos já viam embaçado, o impedindo de enxergar com clareza entre as trilhas fechadas da estrada.

– Pô, irmão… Vem sim, cara! Me ajuda… Me ajuda a encontrar minha cachorra, mano…

Seu irmão não hesitou em pegar o carro e seguir para casa velha. Aquela voz rouca e trêmula ao telefone lhe trazia um homem em prantos, num desespero crescente e devastador.  Já na curva da ladeira, o mato alto escondia um volume caramelo, que amassava a base das plantas, fazendo-as tortas. Era Page! Seu corpo morto trazia novas marcas de dor, violência e pneus.

Na segunda noite de companhia e silêncio, os dois irmãos dividiam a varanda, a cerveja e o vazio. O diálogo escasso se limitava em encontrar o assassino de Page.

– Ta vendo esse muleque rondando a frente da casa?

– Será?

– Mas que porra!

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