Depois de crescer como animal de estimação da princesa, o dragão capturado pelo exercito do soberano, sonhava com a independência.

Passou sua vida se limitando aos desejos da mimada filha do rei, sendo exibido por toda cidade como o único sobrevivente da ninhada, massacrada pela ganância humana. Apenas as lágrimas da pequena princesinha o salvaram de participar do comércio como produto ou matéria prima. Por muitos gritos infantis, não virou acessório, transporte ou instrumento de entretenimento barato aos plebeus.

Pois agora havia crescido. Sozinho treinava o controle de seu fogo, que vinha com uma força alucinante. Sentia tonturas quando praticava e deveria ficar atento para não queimar nada ao redor. Se parecesse ser um risco à vida da já adolescente princesa, certamente seria exterminado! Quando ela o levava ao jardim, depois de ser montado, voar, correr e fazer fogueira sob as rédeas da monarquia, se afastava dos olhos cobiçadores da herdeira para praticar seu primeiro instrumento de independência. Mas os gritos agudos logo o puxavam de volta, feito coleira.

Em determinados momentos, sentia-se sortudo por ter sido resgatado, mas com a maturidade dos seus instintos, a insatisfação de ser pet lhe corroia os ossos. Olhava o céu com toda sua amplitude de exploração e que lhe permitia imaginar lugares lindos, sem limites, com espaços verdes e azuis para correr e voar sem ordens de voltar! Poder dormir quando quiser, ao invés de ajudar na cozinha ou no aquecimento de quartos durante a noite; nunca mais tomar banhos espumosos e com odores que lhe causavam náuseas e poder rolar na lama densa; nunca mais andar com uma corrente no pescoço sem poder interagir com crianças pobres e muito mais felizes do que aquela entojada!

Numa madrugada, subiu ao telhado mais alto do castelo e observou a cidade. Uma aldeia pobre e fria, e sentiu que a coleira das restrições não estavam só nele. Ouviu senhores acordando ainda noite para buscar lenha, mulheres carregando baldes de gelo para usar a água até de manhã, crianças sem proteção contra as intempéries do tempo e contra a maldade dos homens que já não tinham nada a perder. Bebiam a noite toda e, pela manhã, seus corpos faziam volume nas calçadas. Os sol aparecia e parecia confortar os corpos humanos, duros e tensos  até os ambientes de trabalho, cuja mão de obra era quase completa para manutenção e conforto da família real, em ambientes ríspidos, cinzas e gelados.

Ah, toda aquela ira tomou conta do corpo dragoniano. Voou alto sobre a cidade, e chorou por todas às vidas tomadas por aquela imposição real e divina. Algo não estava certo e impedia os seres de serem vivos, de serem plenos. Suas lágrimas caíram do céu e colaboraram com o derretimento de blocos de gelo acumulado nas portas pobres dos trabalhadores; acordaram bêbados jogados nas calçadas e incentivaram crianças sonolentas a abrirem os braços para o céu, com as palmas estendidas esperando a chuva! Voou por horas, e despontando o sol, já pode ouvir os gritos esgoelantes da princesa! Num ímpeto behaviorista seguiu o som estridente, o vento nas asas e no rosto, as narinas quentes e o olhar focado no castelo que crescia e crescia sobre a cidade, sobre seu corpo, sobre sua vida… Soltou a maior chama que lhe foi possível! Os gritos da realeza confundidos com os gritos oriundos da cidade, deixou todos os seres humanos no mesmo lugar. As chamas consumiam as torres, as pessoas corriam com as mãos nos olhos… Súditos e soberanos buscando as mesmas proteções, sem diferenças que definissem segurança, prioridades. Eram no medo, todos igualmente vulneráveis. Os guardas atiravam, mas o dragão, cada vez mais alto, não era mais alvo fácil do exercito real. Garantiu que a chama queimasse o castelo, protegeu a cidade deslocando bloco de gelo para cerca o fogaréu… O fogo não avançou, os trabalhadores, homens, mulheres e crianças não mais corriam assustados. Observavam o movimento do dragão com um sorriso esboçado nos lábios.

Por alguns dias o dragão sumiu da cidade. As pessoas tiveram que construir um novo modo de sobreviver, sem ordens. Os excedentes produzidos permitiram, em pouco tempo, a redução da jornada de trabalho. A distribuição dos produtos garantiu novas possibilidades de relações sociais. E por todos os dias, olhos curiosos buscava no céu a imagem do dragão. Esperavam ansiosos seu retorno, com medo e gratidão, insegurança e satisfação… A ansiedade era avassaladora quando se sentia uma gota de chuva. As pessoas ocupavam as ruas, buscando no céu a certeza daquela sensação, de que alguém que se teme roga por nós.

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