familia pobre 2

E ele ali, parado, não sabia o que dizer. Ele sentia o corpo gelado, como se sua pele fosse de anfíbio e as mãos formigavam tanto que ele – só agora – imaginou de onde vinha a palavra “formigamento”: formigas, oras. E o resto do corpo acompanhava: os lábios apertados, os dentes cerrados e os olhos estáticos e dilatados, fitando a mulher sentada a sua frente. A pobre já havia discorrido uns 5 minutos arrastados sobre suas mazelas e ele, ali, continuava sem solução. E sua incompetência de recém formado tomava  a forma – em seus devaneios – de um pequeno diabinho que postava-se ao lado de sua mesa e se divertia, rindo e dizendo: “Eu avisei”.

Nada ali ajudava: a sala de atendimento era feia, muito feia. Tinha uma tentativa de humanizá-la mas quem quer que a tenha planejado, confundiu o conceito de aconchego de uma tal forma que a sala conseguia parecer decorada, ao mesmo tempo, por uma criança mimada e por uma avó religiosa. Tinha bibelôs de resina do comércio popular misturados a artesanatos copiando imagens de santos barrocos e a parede era bege. Bege, embora algumas partes da pintura descascada revelava  que ela já havia sido cinza, em algum momento. Não sei se foi falta de dinheiro, preguiça do pintor ou só o reflexo de como as pessoas enxergam quem frequenta uma sala de atendimento social, mas o fato é que  as paredes estavam condenadas a parecerem uma vaca malhada de bege e cinza. Uma coisa pela metade. Uma sala partida. Era isso: a sala de atendimento social era a sala das pessoas partidas.

Embora ele já tivesse enrolado-a de várias formas (oferecendo copos de água, de café, de chá e de água de novo), a sensação de relógio de engrenagem solta pairava no ambiente. O tempo não parecia andar e ele não sabia o que dizer. Mas é preciso dizer que a pressa era dele. Era seu primeiro dia de trabalho e, depois de 4 longos anos na faculdade de serviço social e muita militância de facebook, ele se sentia preparado. Até aquele momento: seu primeiro atendimento. Ela, ali sentada com um ar de baixas expectativas, não parecia ter pressa alguma. Estava acostumada.  Ela já conhecia o mundo de perto o suficiente para saber que a desgraça sempre foi sua companheira e  – quer saber?-  aprendeu a encará-la como uma amiga fiel, que não a abandona. A desgraça tem suas formas de companhia, ela sabia. Era muito natural pra ela, portanto, essa azia pra vida. Mas tinha suas vantagens e ela  sabia que este tipo de desgraça social também é algo que apela , que comove. Não que ela se comovesse com sua própria desgraça pois estava habituada a ela e – ora essa – comoção exigia fôlego, tempo e energia. Coisas que ela não tinha mais. Ou talvez nunca tivesse tido.

Ele ali, um menino acuado, perdido, aprendendo a balbuciar suas primeiras palavras. Ela a frente, pensando que havia nascido morta mas – vá lá – acabou convencida de que existia e resolveu cuidar dos afazeres domésticos.  O que havia em comum ali, naquele “entre”? Ele queria ajudá-la, ela sabia disso. Mas que coragem teria ele de pronunciar qualquer conselho ou encaminhamento que fosse? Logo ele, um menino de prédio e de fraldas, que  viveu o mundo de janela, vendo a vida passar? Como poderia ele, se colocar na posição de alguém que sabe mais do que ela? De alguém que pode ter respostas?  Livros, Meu Deus, ele leu tantos. Mas não conseguia tirar deles as melhores  palavras para dizer para ela. Tampouco adiantaria. Ela não tinha as palavras de Paulo Freire, mas sabia – de pele – tudo que o mundo obrigou-a a sentir. Não que ela gostasse de ser pobre, de ser vulnerável, de ser o rodapé da sociedade. Mas mesmo assim, não conseguia esquecer. O mundo a lembrava sempre qual era seu lugar. E, nesse teatro social, ela já havia decorado muito bem o papel que lhe cabia.

Eram muitas as questões: baixa auto estima, falta de dinheiro, de saneamento, de moradia… Falta de escola, problemas de saúde pública e de segurança… Desemprego, violência doméstica… Ela e sua família eram isso: o limbo. O indesejável. A dor sem importância. Eram tantas as coisas que ela precisava e já havia andado tanto esmurrando as portas de entrada dos seus direitos, que seus pés eram rachados. “Queria existir”, pensava ela. Não precisava ser sempre não, ela não era tão pretensiosa. “Queria existir ao menos um dia”.

A sala bege e cinza, os pés rachados. Os livros, a faculdade, os grupos de facebook. A mesa entulhada, o corpo gelado, a desgraça como companhia. Era muita coisa para caber numa sala de atendimento social e o recém formado não tinha uma resposta pra dar. E entre os dois, naquele ar rarefeito que existe entre os espaços, ele subitamente teve a resposta. Ela continuou estática, semi-morta, sempre viva. Ele respirou o ar necessário para dar a noticia e, encerrando orgulhoso seu primeiro atendimento social,  ofereceu pra ela como num grito de mártir:

– Que tal uma cesta básica?

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