tumblr_mbnd7fdp0h1rw0z0go1_500

Olhou para a tela do computador por um momento antes de voltar a martelar o teclado com códigos prontos, decorados pelo extremo uso. PIS, COFINS, ICMS, uma série de códigos para um monte de siglas. Até mesmo a tela do programa em que escrevia era cinza, feia e sem graça como se espera de um escritório. Suspirou cansada antes de alongar os braços. Não aguentava mais digitar números.

Olhou para a mesa de trabalho, onde mais papéis aguardavam sua vez para serem conferidos, digitados e esquematizados. Pensou em chorar, mas controlou o impulso, passando as mãos no rosto.

Ia fazer um café. Sim, um café ia resolver.

Levantou-se com os saltos fazendo toc toc no piso e foi até a cafeteira. Preparou a bebida com a cabeça vazia e caminhou até a janela. Lá fora, em frente ao prédio em que trabalhava, havia um parque. Tudo eram verdes, borboletas e crianças brincando numa pracinha colorida. Mas eram as flores que chamavam seus olhos, sempre vistosas, coloridas e delicadas.

Poderia passar o dia observando as pétalas coloridas, imaginando os perfumes suaves ou mesmo os fortes, o cheiro da terra úmida e da grama molhada… Como seria bom passar o dia no meio da natureza. Pensava muitas vezes que devia ter seguido carreira de florista. Mas a mãe não ia suportar, tinha sonhos de uma filha que trabalhasse em empresa, com saia lápis e scarpins elegantes. Tornara-se contadora. E sonhava com as flores.

Toda a vez que pensava nisso, sentia uma inquietação tomando conta do coração, junto com ideia de revolução. Pensava em copiar o primo Pablo, que largara tudo para se redescobrir, mas a mãe sempre dizia que ele tinha sido um desgosto. Pensava então na mãe tendo uns acesos, podia bem morrer de desgosto se a filha decidisse ir morar no campo, viver suja de terra, ter um monte de cachorros e algumas crianças.

Suspirou, olhando para o café na xícara. Nascera com o verde nos olhos, mas era obrigada a viver no cinza e branco, preto e bege. Sonhava com as flores e vida, mas a sua sina era continuar a viver no concreto de dias de infelicidade disfarçada.

Riu secamente para si mesma, antes de sentir os olhos do chefe sobre si, como os de uma águia prestes a emboscar a presa. Seria obrigada a voltar aos números, não se tinha liberdade naquela prisão.

Largou o café sobre a mesa, ajeitou a saia lápis. Voltou-se novamente para a janela, caminhando em sua direção, lentamente, na direção do verde. Gritos atrás, vidro na frente. Não ardeu tanto assim quando os cacos pegaram na pele e enquanto voava rumo ao sonho, ela ria. Não conseguiu chegar ao verde. Sua vida cinzenta acabou-se num vermelho escuro sobre cinza e asfalto.

Anúncios