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Já tem três dias. Ou acho que tem. Eu, na verdade, não gostei nem um pouco disso que me aconteceu. Uma violência, eu diria. Tava quieta, sabe? Eu sempre achei que o mundo tinha licença pra crueldade com quem se metia demais, mas eu? Vê Lá! Eu nunca ousei respirar uma brisa mais profunda ou esticar o caule pra ganhar um pouco mais de orvalho. Nunca abri mais minhas raízes pra roubar espaço de outra flor, nunca seduzi abelha, borboleta ou mesmo o vento pra minha polinização, ora. Via os girassóis se esticando e rodando a cabeça e achava arriscado, meio sem vergonha… E lindo, sim… era lindo. Mas não eu. Eu to ali. Sempre ali. Sempre soube que cada ser tem um espaço e esse espaço me cabia, me bastava.

Por isso, quando me arrancaram e me colocaram naquele negócio preto, fiquei indignada. Olhei pra minhas amigas… A gente nunca se falava, mas tinha uma coisa ali sabe? Aquela coisa que “eu sabia que ela sabia e que todas nos sabíamos” o que estávamos sentindo. E de repente, ali: sacolejando num lugar bastante quente, num bafo esquisito que não se parecia em nada com o que a gente tinha lá fora. Eu não vou mentir que nasci com medo.  Vi tanta flor sendo carregada, esticada, ensacada… Sabia que a natureza não seguia mais seu curso sozinha, o que era estranho – até ousado demais – pra uma flor como eu pensar. Mas era isso: Planta sofre, sempre soube. Na verdade, qualquer ser vivo – que não seja humano – sofre. Talvez até o ser humano sofra, sei lá. Nunca ouvi falar.

E agora já tem três dias que eu estou aqui. Pode ser que seja mais, porque esse sol daqui de dentro é meio estranho e me confunde. Ele não esquenta muito e nasce e se põe tão rapidamente que eu não dou conta de acompanhar. E o céu daqui de dentro também não acompanha: não há aquele rosa bonito que encontra limites e se desenha nas nuvens. Aliás, nem nuvens eu vi. E as plantas daqui são muito estranhas: tem de tudo que é cor mas não parece flor. E os humanos passam rapidamente com um negócio que empurram e – não sei explicar direito – que eles vão enchendo de coisas. Mas a maioria passa batido por mim, nem me olha. Vão correndo, carregando essa tranqueira pesada e com mãos que agem tão rápidas que me dão um pouco de medo. São mãos que não parecem querer bem, só parecem querer depressa. E eu aqui, sufocando com esse negócio transparente em volta das minhas folhas. Ufa, pra respirar… Ufa, pra fotossíntese. Ufa! O que estou fazendo aqui afinal?

Nossa, aconteceu! Como é rápido, como dá medo. Eu sou planta, eu tô mais acostumada a ficar parada, não sei bem como é esse negócio de sair por aí. O que será que ele quer comigo? Pra onde está me levando? Será que me coloca de volta na terra ou em terra boa? Preciso explicar pra ele que não é qualquer terra, precisa dar certo… Nem toda planta é igual, será que ele sabe?

Parou. Nossa, o mundo tá rodando. To tão quente, tão murcha. Ele me levantou pra perto e me cheirou. O que será que ele quer? Pra que será que serve tudo isso? Será que é assim que as coisas acabam? Socorro, ele me balançou de novo. Náusea. Dor. Ele me entregou, outra pessoa pegou. Tá mais devagar, ufa, ainda bem. Me pôs perto do nariz, me cheirou. Sorriu. Já vi muitos homens fazendo isso, cheirando uma e outra, cheirando várias. Mas não sei se poliniza, se dá certo pra gente.  Acho que não. Nunca ouvi falar.

É… foi assim: saí de dentro daquele lugar de sol e céu esquisito, passei na mão de um homem e fui pra outras mãos que sorriram e me cheiraram. Depois de um tempo, caí. Caí mesmo, num fundo preto, escuro, cheio de outras coisas que eu nunca ouvi falar, nunca conversei e – diferente das minhas colegas – não conseguia entender só de olhar. Não sei bem como é isso aqui, ou pra que serve mas to de cabeça pra baixo, toda misturada. As folhinhas já foram, não as sinto. Tô sedenta, tô fraca, tô esvaindo, indo… Acho que este é o fim. Acabou? Eu não sabia que vida de flor acabava assim. Não sabia que vida de flor acabava fora da terra. Mas parece que é isso, é isso que sinto aqui. Agora. Flor serve então, só pra satisfazer o homem. Será que é isso? Flor serve só pra homem, pra humano, pra gente? Nao sei. Nunca ouvi falar.

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