Era uma madrugada abafada e silenciosa, incapaz de inspirar um artista a fazer algo além de cair no sono  um jovem aspirante a escritor olha para a tela do seu computador, sem saber o que fazer. Mal sabe ele que nas suas costas duas musas tentam salvar ele.

— Estamos lascadas.

— Bem… Estamos em uma situação que pede criatividade e agilidade. Ou seja, a hora perfeita para musas agirem.

— É, estamos lascadas.

— Que isso. Olha para ele, sentando em frente ao computador, tão concentrado na tela do computador. Tenho certeza que daqui a pouco ele vai escrever algo.

— Ele está olhando para essa maldita dela em branco há sete dias! Se isso resolvesse algo, nós não íamos ter que estar aqui!

— Bem, somos musas. Nosso trabalho é ajudar fracassados com esse cara.

— Ele já não é lá essas coisas em condições normais…

— Bem, nós também não fomos chamadas para fazer esse cara escrever um ganhador de Nobel em uma tarde.

— Madrugada.

— Dá no mesmo. Vamos dar uma ideia solta para ele e missão cumprida.

— Ah, mas é ai que tá. Ele teve ideias.

— Quais?

— A primeira dela… “O jardim dos Jardins que se Jardinam” era uma história que estava… A altura do próprio título, digamos. O narrador é um brasileiro indefinido que odeia a Argentina porque sim, mas foi convencido pelos amigos — e por alguma sensação vaga de destino — a viajar até lá. Uma vez em “território inimigo” o narrador acaba se hospedando na casa de um velho que atente por Denis Ugo e que pode ou não ser um criminoso de guerra. O narrador acaba simpatizando com ele pela erudição, e em meio a uma conversa ou outra sobre a Argentina, religião, física quântica e teoria do caos, Denis revela a ele a sua maior joia: um jardim com uma árvore que está impecável, apesar de não receber nenhum cuidado. O dois tem mais uma conversa sobre chances e destino. Após algumas desventuras mal descritas em Buenos aires homenageando Jorge Luís Borges, o narrador começa a ficar paranoico, achando que o Denis está planejando mata-lo. O narrador junta suas coisas e tenta fugir da casa Denis Ugo revela que sua árvore é um “milagre”, pois quem bebe sua seiva é capaz de controlar as probabilidades, e portanto, virar um deus. Ele também explica que há muito tempo ele vem tentando melhorar a Argentina, mas até aquele momento uma força sinistra, um “anti-milagre”

Do mesmo jeito que uma borboleta é capaz de causar furações com o bater das asas, o narrador era capaz de trazer ruina à Argentina com suas ações cotidianas. Dai no final ele mata o narrador ou algo do tipo.

— …

— Bem, era uma ideia meio…

— O que diabos isso tem a ver com a outra história? Ele não tinha que dar continuidade?

— Na verdade, até que havia algumas conexões A história se passa na Argentina e… É. A história se passa na Argentina.

— Ok, corta essa. Quais eram as outras?

— Ele também pensou em puxar com o conto anterior, com o fantasma do protagonista assombrando o local da sua morte.

— Hum… Não, não. Ele prometeu no ano novo que ele ia pegar leve nos contos viajados. Para variar um pouco, sabe? E ia ter todos os problemas do “O Jardim de Jardins que se Jardinam”, só que pior. Não teria algo mais ligado aos últimos temas?

— Ele teve alguns conceitos vagos sobre histórias envolvendo bombas, e até digitou “O Coração do Homem Bomba” na tela, mas a coisa morreu por ai. Além disso… Ele também pensou em algo com a temática pascoa. Ou metalinguagem.

— Sabe, pensando bem até que a ideia do jardim dá para o gasto.

— E você acha mesmo que ele é capaz de escrever isso a tempo?

— Precisamos de algo. Rápido.

— Hum… E se nós fizermos ele transcrever essa conversa?

 — Eureka! — Disse o escritor, em um surto de inspiração. — Eu vou escrever sobre duas musas tentando ajudar um escritor a… Não, espera, essa ideia é péssima. Acho melhor tentar amanhã…

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