torcida

A coisa estava tão feia que parecia um quadro expressionista – e dos muito ruins. O rosto do menino com a bandeira na mão era tudo, menos monocromático: tinha roxo, tinha vermelho, tinha bege e tinha verde também. Era difícil – assim de primeira olhada – definir o que era proveniente das porradas, das unhadas e das pauladas levadas e o que era resultado da pintura que ocupava o rosto daquele “torcedor” antes de toda a agressão. Havia também, com certeza, um tanto de cores que vinham de dentro dele: uma espuma branca perto do lábio superior, uma lágrima menos disfarçada, uma sujeira que escorria do nariz junto com o sangue… Talvez também provocadas pelo excesso de palavras e gestos ou pela economia de escuta e de paciência… E não era diferente do outro menino, sentado do lado oposto daquela delegacia cor (e clima) de geladeira: ele também não estava nada bem. Era quase nada de roupa – possivelmente arrancadas no confronto – e muito de torso marcado, cheio de vergões vermelhos e carne viva que pareciam saídos de um livro de Alice Walker. O rosto era menos desfigurado pelas marcas de agressão, isso era evidente. Mas era transfigurado pelo ódio, raiva, asco, torpor… Era uma boca retorcida e um lábio mordido com força… Era um olho que enxergava avermelhado e outro cuja pálpebra pulava sem controle… Era um par de sobrancelhas que pareciam não se entender e que estavam separadas por um pouco de pele do cenho, de outra forma se engalfinhariam numa luta interminável. Tinha tinta de torcida ali também, mas o suor daquele rapaz avantajado já havia transformado tudo aquilo numa coisa só: uma obra derretida, uma cor rebatizada. Era um “bordô humilhação”. Talvez um ótimo nome de cor para marca de esmalte.

Ambos estavam devidamente uniformizados, o que deixava claro a que time pertenciam. Esse era, afinal o claro objetivo. Nada havia ali que os caracterizassem como indivíduos. Eram seguidores de uma idéia, de um conceito, de uma ideologia. E nada mais. Empunhando suas bandeiras quebradas, seus uniformes, suas caras-pintadas. Suas vozes roucas já estavam acostumadas a repetir hinos até o limite da exaustão e pouco guardavam de suas vozes originais. Eram sons guturais – nada além – aquilo que havia restado naquele fiapo de garganta.

É claro que haviam testemunhas. E várias. É o tipo de situação anunciada, prevista, e quase agendada. Mais do que isso: é o tipo de confronto que necessita, anseia e sobrevive de platéia. Um ali, outro acolá: sentados na delegacia  estrategicamente distantes um do outro, entre eles não havia ninguém e, ao mesmo tempo, uma imaginária multidão de colegas desesperados por pertencimento, unidos pela mesma camisa, o mesmo time, o mesmo grito de guerra. Como manda o figurino, aquelas figuras chamavam atenção pela desfiguração mas também pelo orgulho de estarem ali, morrendo pela camisa, morrendo pela causa, morrendo pelo time, morrendo…

O delegado acostumado já sabe onde isso irá levar: nada. Há quem ame o time, mas dificilmente o time os ama de volta. E é nessa relação platônica e idealizada que mora o perigo: é a entrega pela entrega, a fúria pela fúria, a urgente necessidade de participar de algo “maior”, eles que sempre foram tão pequenos. Não há espaço para ser, só para estar e isso vale tudo. Embora o delegado seja também membro de uma instituição sem membros, ele sabe que os garotos ali parados pouco tem de diferente. São iguais, como um espelho. E a loucura é que aquilo que os deixa tão parecidos é exatamente aquilo que se pretende ferir no outro e nessa semelhança incomoda, é preciso matar pra viver, socar para ser, aniquilar para pertencer. Eram dois ou eram um, ou eram vários, não importa: são partes de um pequeno todo que não consegue existir sem a existência e o confronto com o outro.

Eram iguais também em uma característica peculiar: não tinham nome. Não eram Pedro, ou Carlos, José ou Agenor… Relutaram a se identificar na delegacia, relutaram a dar seu nome ao delegado. Talvez por que não queriam se identificar , talvez por que não mais lembrassem quem eles foram ou talvez – ora essa – nunca tivessem, de fato, sido. Eram todos um nome só, o de todos eles. Não queriam ou podiam dar um nome próprio, um simples nome próprio, o seu nome… Logo eles, que já haviam dado tudo: seu corpo, sua mente, sua dignidade. O que sobrava afinal? Talvez nada, talvez muito. Talvez fosse essa a razão da proteção no grupo: um medo descomunal de descobrir onde – de fato – eles estavam.

Não havia muito a fazer.  O relato foi rápido e nem precisava existir pois um Control C/Control V daria conta de tudo ali: a provocação verbal, seguida de acusações mútuas. Pouca elaboração, muita repetição. Pouco para ouvir, muito para gritar. E aí? Aí pauladas, berros, socos, pontapés e a grande amnésia do motivo que os levara até ali. E pra que? Para que tudo isso, afinal?

Devidamente calmos e higienizados, os rapazes saíram da delegacia depois de leve bronca por “crime de lesão corporal de natureza leve”. Saindo, eles pareciam ainda muito mais com a massa que os aguardava na porta. Um minuto depois, misturados a seus pares, era impossível alguém identifica-los ou – talvez – eles mesmos se reconhecerem.

“Times de Futebol. Onde isso vai parar?” balbucia o delegado. Inesperadamente, a escrivã corrige: “Não eram times de futebol, eram partidos políticos”. Um olhar cúmplice entre os dois e mais nada que surpreendesse o delegado ou o tirasse de sua mini-certeza. “É isso. É sempre só isso”…

Observando a massa que se afastava e que, cada vez mais, era um bloco de uma cor só, o delegado entra na delegacia novamente, observa ao redor, adentra a sala, tira seu casaco e senta-se em sua mesa de delegado. Tambem sem cor. Também sem identidade. Também sem nome próprio.

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