cores

Eu era o azul. Nasci da tranquilidade e deslizei suave pelo mundo. Morava no céu brilhante, mergulhava nas águas das ilhas desertas, respingava nos olhos das crianças. Estava nos quadros, nas praias, nas saias. Nada parecia ser capaz de invadir minha serenidade. Os dias eram meus, o infinito me pertencia, eu levava a calma para os aflitos e encantava os corações.

Um dia, pintava o céu de abril, quando um brilho me fascinou. Vi você ali, na minha frente, parado. Amarelo. Era forte e marcante. Tinha o calor do fogo. Me assustei a princípio, pois você parecia vir do sol. Mas senti uma grande atração. Não conseguia mais deixar de te reparar.

Achei que você também reparou em mim, ou esteve sempre me observando e eu que não via. Agora, onde eu ía você também estava. Eu olhava e você estava me olhando também.. Eu no céu, você no sol. Eu na saia, você na blusa. Eu na água, você na areia. Eu Monet, você Van Gogh. De repente éramos só eu e você no mundo. Me acendia com tua força, era mais vivo e resplandescente.

Teu brilho foi ficando mais intenso por minha causa. E buscava em mim serenidade. Eu te oferecia minha leveza e você fluía ao meu redor. Dançávamos pelo deserto, balançávamos nos varais, voávamos juntos nas asas das borboletas e brincávamos de arco-íris.

Um dia, distraidamente, eu pássaro, te beijei flor e senti toda a tua intensidade dentro de mim. Você suspirou quando minha tranquilidade te invadiu. Num balé rodamoinho nos misturamos. Eu entrava na tua vastidão e nos tornávamos o infinito. Agora éramos um. Verde. Corríamos pelas matas, dançávamos nas copas das árvores, dormíamos nas frutas pequenas e amanhecíamos nos olhos dos velhos nas varandas. Éramos esperados em toda parte. Estávamos em todo o mundo. Seríamos sempre um.

Mas éramos juntos a finitude, os últimos, e nossa vez foi chegando. Quando nada mais restou, quando deixavam de acreditar, nós íamos empalidecendo. Lutamos contra o fim, corríamos de mãos dadas sobre as cidades, onde ainda suspiravam com o vento. Gritávamos nos incêndios que nos salvassem do fim. Ninguém nos ouviu.

Fomos desbotando nas roupas, secando nas florestas e morrendo nos olhos. Eu não sentia mais tua força. E não tinha mais nenhuma tranquilidade para te dar. Se te procurava em mim é porque já não éramos nós. Você se foi aos poucos, sem que eu percebesse. E eu me vi só. O desespero me fez rodar atrás de ti pelo céu, onde te encontrei pela primeira vez. Te procurei na luz do sol e me ceguei, tudo ficou branco. E branco, passei a refletir todos os raios luminosos à tua procura. Mas não te vendo neles, não absorvia nenhum. Solitário e triste, vaguei pelo mundo todo a te chorar. Passei por todos os lugares, cabisbaixo, tão só, que ninguém me notava. Se deixaram de acreditar em nós, quem conseguiria me notar? Me escondi. Nos cantinhos, isolado, soluçava em silêncio. Não parecia haver lugar onde me quisessem e onde eu quisesse estar. O mundo era pequeno e triste.

O tempo passou. Você não voltou. Ninguém me procurou. De tanto sofrer adoeci. Sem mim, tudo adoeceu. Tive febre, queimava. E vermelho vi dores, escorri sangue nas guerras, nas casas, nas ruas, nas praças. E saí enlouquecido a te gritar.

O desejo de te encontrar era mais forte que minha dor. E lutei, me esvaí, escorri, caí e levantei. Te procurei. Nos corações que pulsavam, nas veias que eu percorria. Te esperava nas rosas exalando ao sol e perguntava por ti pelos lábios suspirando em noites quentes.

Não posso mais voltar a ser o que fui antes de você. Nunca mais serei o azul. Pois nada mais em mim é sereno. Também não sei mais o que você é. Se vive intensamente ou se esconde de mim, com medo.

Te procurando, misturei-me cegamente a todas as cores, tentando te sentir. Mas tudo o que sinto é um enorme vazio. Todas as cores estão em mim, mas se não sei qual é você. Se não te tenho, não tenho mais luz, não tenho nada, não sou nada. Só me restou ser penumbra, vestir viúvas, me esgueirar entre abismos. E findo agora, me espalhando nesse papel, para deixar-te o último recado. Para que saiba que posso não estar mais em você, mas , mesmo que não possa te sentir, sei que está em mim, e estaremos juntos para sempre, nestas palavras.

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