Era um dia azul, daqueles que só existem em memórias, propagandas, e em livros mal escritos. Um dia claro e ensolarado, sem uma única nuvem para manchar o céu e com um sol forte e brilhante, ainda mais forte e brilhante porque nada se opunha a ele.

Nenhum dos dois homens na praça estava especialmente satisfeito com isso.

Um deles havia rezado para que chovesse.  Talvez para comprar tempo. Para adiar o inevitável o bastante para que uma se achasse uma saída. Talvez porque um dia tempestuoso lhe soasse mais adequado à situação. O Outro não tinha pretensões tão poéticas quando seu colega de cena. Dias ensolarados pareciam não se dar bem com seu figurino e com seu papel, então ele retribuía o sentimento.

Essa era a dança da vida. Aceitar. Ou ao menos aceitar o que não pode ser mudado. Ao menos era assim que um dos homens da praça pensava. Por isso ele estava ali. O outro pensava de forma diferente. Por isso ele estava ali. Por isso a multidão estava ao redor deles, esperando uma cena batida.

O drama que estava se desenrolando entre os dois homens não era especial. Ele já tinha acontecido incontáveis vezes no passado, e estava fadado acontecer inconcebíveis vezes no futuro. Inclusive, drama não era nem sequer a palavra certa para descrever aquela cena. Afinal, para um dos seus astros ela não passava de rotina.

Ainda por rotina, um dos homens perguntou ao outro se ele tinha algo mais a dizer. E ele tinha. Ele falou. Falou sobre sua vida, sua rebelião e sua queda. Falou como seus ideais iriam viver além dele, e mais importante, além dos seus inimigos. Ele falou sobre sonhos, sobre mudança e esperança. Ele falou.

O discurso improvisado atingiu a todos como a sutileza avassaladora de um golpe preciso de bisturi na calada da noite, o inverso dali. O povo ao redor da praça, que até então só queria ver aquela cena se repetir pela enésima vez, se emocionou, e mais que isso pensou. Até o outro protagonista, agora um mero coadjuvante, admitiu com um sorriso honesto escondido embaixo do capuz que aquilo tinha sido impressionante.

Então ele o empurrou para o lugar, ergueu o machado e fez o que havia sido incumbido de fazer.

E por um momento o dia azul ficou enchido de vermelho.

Depois, inspirado pelo seu efêmero colega de atuação, o executor solicitou aos seus superiores que as cores do seu uniforme fossem alteradas para algo mais adequado ao calor.

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