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Aos 16 anos, fui salva da morte por um homem que me achou jogada no meio da rua, agonizando pelas dezenas de antidepressivos ingeridos. Eu mal me lembrava quem era, fiquei incapacitada por dias no hospital, e ele não saiu do meu lado. Quando recebi alta, me levou para sua casa e sua mulher cuidou de mim. Eu era da rua, me disseram. Não tinha família. Eles me olhavam com pena, mas me alimentavam e cuidavam de mim. Gabavam-se para os amigos da bondade que tiveram em me acolher, coisa que somente cristãos realmente fervorosos fariam. Eles recebiam tapinhas nas costas e eu, olhares interessados e julgadores.

Me adotaram praticamente como filha e, aos 18, conheci meu irmão Álvaro. Ele voltara de outro estado, onde se formou em Jornalismo. Já tinha 24 anos, era alto e entrou em casa trazendo caixas de mudança e o diploma enrolado embaixo do braço. Obviamente já ouvira falar de mim, mas não tinha tido curiosidade ou saudade suficiente para visitar a família nesses dois anos. Os pais o receberam com lágrimas e abraços, mas ele permanecia impassível, me olhando. Estendi a mão para apertar a sua, ele se adiantou e me abraçou. Os pais se entreolharam.

Poucos meses depois eu já me arrastava sorrateiramente para o quarto dele à noite e ficava lá até o começo da manhã, antes que nossos pais acordassem. Numa dessas noites, ele me perguntou sobre minha tentativa de suicídio, o que me levara a isso, o que eu tinha sentido. Não queria conversar, queria beijá-lo, queria que ele me tocasse, mas ele estava tenso e não se permitiu fazer mais nada comigo enquanto eu não respondesse. Passamos a noite toda conversando, lhe contei tudo que me lembrava sobre minha vida anterior, meus motivos pra tomar as pílulas, e tudo que tinha mudado desde que a mãe e o pai me adotaram.

“Eles te adotaram de papel mesmo? Digo, foi oficial?”

“Eu acho que não. Não tinha ninguém que desse pela minha falta, então não haveria problemas se eu simplesmente viesse morar com eles.”

Ele me encarou com a testa franzida. Decidi não perguntar o que estava pensando. Dormi logo, mas tive a impressão que ele ficou acordado por muitas horas.

Na manhã seguinte, ele saiu pra procurar emprego, mãe e pai saíram para seus respectivos trabalhos e eu fiquei sozinha no meu quarto, pensando. Se eles descobrissem minhas escapadelas para o quarto de seu filho à noite, eu provavelmente seria expulsa dali. Não tinha para onde ir e não queria perder a confiança que os dois depositaram em mim durante tanto tempo. Meu instinto de permanência foi maior que meu desejo por Álvaro e, em pouco tempo, passei a ver outros moços fora de casa. Como não ia mais ao quarto dele à noite, ele vinha até mim. Por várias vezes eu tranquei a porta e sussurrava que não era mais uma boa ideia, mas ele gritava e esmurrava a parede. Os pais levantavam e no meio da gritaria eu percebia que ele era arrastado novamente ao quarto. Ouvia as perguntas, por que está fazendo isso, por que na porta do quarto dela? Ela te fez alguma coisa? Ele dizia que estava sonâmbulo, que se confundiu, ele dizia qualquer besteira que pensasse na hora. Não sei se os pais acreditavam, não sei se pensavam que ele estava enlouquecendo. Nessas noites eu me aninhava nos cobertores e chorava.

Uma tarde ele viu eu me despedindo de um rapaz com um beijo, na rua de casa. Quando entrei, ele me recebeu com gritos, me socou um olho e me prensou contra a parede, enquanto tentava rasgar meu jeans. Chorei e berrei e nessa hora o pai chegou em casa do trabalho e paralisou com a cena. Sem pensar muito, socou o filho e os dois caíram embolados na base da escada. A mãe chorou e me puxou pra perto dela.

O carinho e cuidado comigo duraram pouco. Assim que Álvaro contou para a mãe e o pai que ele estava agindo assim porque tínhamos um relacionamento, me botaram para fora de casa e ele não fez nada para impedir. Jogou um travesseiro no jardim, que caiu no canteiro de terra que eu estava preparando para algumas flores. Peguei minhas coisas e saí sem dizer palavra. Senti que tinha destruído aquela família.

Dormi escondida por semanas. Às vezes passava por perto da casa deles para ver alguma movimentação. Nada. Passei a dormir ali por perto. A certo ponto, estava tão obcecada que passava quase todo o tempo escondida em arbustos de casas vizinhas, só esperando que algum deles saísse. A mãe e o pai eram mais fáceis de ver, mas nunca via Álvaro. Um dia, delirando de fome, bati na casa quando os pais não estavam. Passados alguns minutos, ele espiou pela fresta da porta e abriu ao me reconhecer. Ficamos em silêncio. Sua pele estava macilenta, como se não visse sol há tempos, seus olhos fundos estavam roxos.

“Você parece faminta.”

“Você parece doente.”

Ele sorriu de leve e me convidou a entrar. Foi com medo que entrei ali e percebi que nada mudara nos últimos dois meses afastada. A mãe sempre fora bem cuidadosa com a casa.

Fez um sanduíche de presunto e queijo para mim, colocou uma jarra de suco na minha frente e ficou me observando comer como um animal. Perguntei por que ele parecia tão mal e ele contou que não saía de casa porque um pavor começara a crescer dentro dele, um medo irracional de que algo ruim acontecesse da porta pra fora. Me disse que não conseguia dormir pois tinha medo de morrer durante o sono, que não se olhava no espelho porque se assustava com a imagem. Eu achei que ele queria chorar. Eu ainda estava com fome e fiz eu mesma o próximo sanduíche, oferecendo um a ele. Recusou.

Perguntei como estavam a mãe e o pai, ele disse que bem, porém preocupados com sua saúde e também comigo. Fiquei tocada ao saber disso. “Gostaria de esperá-los. Você acha que seria uma boa ideia?”, perguntei. Ele sorriu de leve e não disse nada.

Às 17h12, pai e mãe chegaram juntos, entraram em casa e nos viram no sofá, de mãos dadas. Ele tinha chorado a tarde toda e eu afagava sua mão como se o protegesse. Tinha manchado o sofá com as roupas sujas que usava há mais de um mês. Ficaram paralisados ao me ver e olhavam de mim para seu filho, que tinha a cara vermelha lavada de lágrimas, as olheiras ainda mais roxas, o olhar perdido num horizonte criado em sua própria cabeça.

“O que está fazendo aqui?”, perguntou o pai. Tentava se controlar, mas a têmpora pulsava com a raiva reprimida, “o que fez com ele?”

“Pai, mãe, eu só quis vir pedir desculpas, tive muito tempo pra pensar, depois de tudo que vocês fizeram e eu traí a confiança de vocês…”

“Achamos que era óbvio que você não podia se meter com nosso filho”, disse a mãe, “olha o que fez com ele. Ele mal come, mal dorme, tivemos que levá-lo num psiquiatra, agora ele tem que tomar antidepressivos pra ver se com o tempo consegue sair de casa… Você o transformou em uma pessoa tão digna de pena quanto você.”

Olhei de lado para Álvaro, estava com os olhos opacos. Desconfiei que nem estava escutando nada. Levantei-me e tentei argumentar com os dois.

– – –

Os três passaram a discutir, a discussão ergueu de tom e os gritos eram ouvidos até de fora da casa. Sem que nenhum casementwindiwdeles percebesse, o filho subiu as escadas, foi para o banheiro e lavou o rosto profusamente. Olhou-se no espelho após semanas evitando-o e odiou-se. Pegou todas as pílulas brancas, meteu-as dentro da boca, engoliu com a água da torneira. Pensou na menina, na tentativa da morte, na motivação que tivera. Será que sua vida era tão ruim quanto a dele estava sendo? Ela estava lá embaixo, gritando agora com seus pais, aqueles que a tinham salvo. Teria valido a pena então? Pensou em seu pai vindo salvá-lo, privando-o da escolha de querer ou não o pânico, a vida vazia. Já começava a sentir o estômago pesando. Logo eles descobririam que ele não estava mais na sala e viriam a sua procura. Só tinha uma maneira de evitar.

– – –

Me calei assim que ouvi um estrondo. Até pude sentir um leve estremecimento no chão. Encarei o pai e a mãe, olhamos para a sala. Nada. Corremos pra fora, de lá viera o barulho. O corpo posicionava-se estranhamente sobre o concreto da calçada, a cabeça funda do lado esquerdo. Tudo parecia quieto. Olhei para cima como num sonho, a janela do quarto estava aberta, as cortinas ondulando suavemente. Pai e mãe não se mexiam. Só foram se dar conta da minha ausência muito tempo depois.

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