Era a terceira de três filhos e a maior parte da infância, passou com a babá. Depois dos mimos da primeira filha e os diferenciais de se cuidar de um menino, Jade era o excedente para seus pais, que logo retomaram suas vidas profissionais após poucos meses de seu nascimento. Tudo que tinha fora, um dia, de seus irmãos, e o que seus pais lhe ofertavam eram objetos que pouco dialogavam com a menina que estava crescendo ali. Viveu mais sob os conflitos pessoais e econômicos da babá, com quem também compartilhou suas angústias infantis. E foi nesta presença que chorou, brigou, menstruou, namorou e se deparou com diferenças. Muitas diferenças!

Estudou mais, conheceu mais pessoas e novas experiências pelo tempo que deveria ficar fora de casa na adolescência, já que seus pais trabalhavam muito e seus irmãos não eram muito dispostos à companhia e cuidados. A babá foi dispensada após as matrículas no inglês, francês, piano, teatro e natação. Nenhum período do dia para o ócio, exceto nos jantares silenciosos, em companhias questionáveis. Mal sabia quem de fato estava à mesa… Em relação à família, cresceu solitária. Vivia aquele amor institucionalizado, nada cuidado ou, de fato, construído. Era pronto! Como o mundo que a recebeu!

Jade cabulava o inglês para visitar sua antiga babá, que morava num canto da cidade… Sem a ciência dos pais, atravessava a cidade de trem e ônibus lotados e precários numa inconsciente busca por vínculos. As visitas cessaram logo, quando a mulher conseguiu um emprego em uma creche. A menina quis conhecer o lugar, ver as crianças, o tipo de trabalho e se deparou com outra realidade. De toda solidão que conhecia em infâncias institucionalizadas, se deparou com uma pobreza que jamais imaginou. Pobreza de matéria, de repertorio, de oportunidades, de cores… Suas visitas viraram trabalho voluntário, e ela desistiu também do francês. Voltava para o silêncio incômodo da sua casa e jantava sua angustia e revolta. Na escolha de uma faculdade, recusou as oportunidades no exterior e o caminho seguro e bem sucedido dos parentes. Escolheu ser professora!

Nasceu, naquele seu momento de vida, a oportunidade de ser alguém significante, não mais um excedente, não mais alguém que aceita o mundo posto. Se descobriu forte no enfrentamento com sua família e mais ainda nas reuniões em grupo de professores e futuros professores. Sua ausência em casa se consolidou, e a falsa falta que fazia, fez com que seus pais e irmãos assumissem o desdém para com ela desde seu nascimento. Pela primeira vez sentiu-se alguém! Tinha medo da sala de aula, mas não da briga que se percebia comprando. Salários injustos, precariedade nas condições de trabalho, salas superlotadas e a questão social escrachada, como se tirasse sarro de sua impotência: “Me soluciona em 50 minutos, sua mimada! Há há”

Participou de manifestações, assembleias e apoiou greves; se envolveu com escolas estaduais e movimentos estudantis. Dormia na casa dos pais, mas não morava lá! Morava em espaços coletivos, escrevia panfletos, usava a grana dos pais para divulgar materiais de conscientização e, em poucos anos, se percebeu ativista referência por melhorias na educação. Ainda assim, sem o olhar dos pais. Qualquer que fosse o olhar, não havia reconhecimento, admiração, decepção, nada! E num dado momento de sua vida, sua urgência em transformar a educação se fundiu com a necessidade infantil de chamar a atenção dos pais.

Numa situação deliciada de confronto, participava da organização de uma grande greve pelo 27° dia seguido, em contato com outros estados, o objetivo era greve geral. Era visada pelos governantes, desbocada em reuniões, fortalecida com a população. Não temia nada, nunca temeu. Fosse ausência dos pais que talvez a tivesse feito forte, independente, e não conseguia imaginar algo pior que a solidão. Ao fim da manifestação em frente à Secretária da Educação, que se recusava a negociar, Jade foi pega. No camburão, ela e mais quatro companheiros de luta, algemados, completavam horas naquele porão ambulante até que chegaram em uma delegacia, longe do local onde foram pegos.  Lá, os policiais os separaram e isolaram Jade numa sala úmida e escura. Por horas, sem água e sem comida, ela aguardou que o primeiro homem fosse interroga-la. Perguntou sobre o movimento, sindicatos, dinheiro, contatos, tudo. Entre verdade e viagens, percebia-se o quão perdida estava a polícia, sem saber onde chegaria ou o que procuravam. Jade exigiu um advogado que lhe foi ignorado sem crise. Perdeu a noção do tempo…

Aquele tipo de solidão lhe torturou! Perdeu a razão de estar lá. Não lhe fazia mais sentido gritar, tentar explicar… Estava sendo tratada como uma vítima de sequestro, onde seus algozes quase a esqueciam no cativeiro. Há quanto tempo estaria lá para que seus pais não a procurassem? Estariam procurando? Jade estava enlouquecendo… Num ímpeto de assumir o papel de mártir de sua vida, começou a se agredir. Se socava o rosto e o estômago como a versão feminina do Jack, de Palahniuk. Jade se arrebentou! E os policiais, enlouquecidos e confusos liberaram a ativista naquela madrugada, numa rua qualquer.

Jade chegou em casa já de manhã, e pela primeira vez seus pais reagiram. Horrorizados, brigaram por sua postura e chamaram a imprensa para denunciar violência policial. Ela tirou fotos e publicou no seu blog, com um texto que personificava a educação, arrebentada, violentada e posteriormente abandonada pelo Estado. Foi nesta noite que se aconchegou ao colo da mãe, e teve os cabelos afagados pelo pai, pela primeira vez!

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