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Acordou assustada. Pela claridade que entrava pela fresta da janela devia ter perdido a hora. Sentou na cama e ficou com os olhos abertos um tempo antes de encarar o brilho da tela do celular para ver as horas. Meio dia e quarenta. Por uns instantes tentou lembrar o que significava aquilo. Sol, celular, meio dia… teve um lapso de incompreensão sobre esses detalhes. Aos poucos, assim como os olhos foram se acostumando à claridade da luz que acendeu, o cérebro também acomodou cada fato em suas lembranças. Sentia-se estranha. Claro que sabia o que era um celular, o que significava as horas, o tempo… mas nada daquilo tinha conexão com ela. Sentia que estava atrasada, mas não tinha ideia para que.


Levantou-se da cama estranhando o silêncio. Não ouvia som de vozes, de vida na casa, nem fora dela. Mais estranho era não se recordar de que sons sentia falta… Sentiu uma vertigem enquanto passava pelo corredor, olhando de porta em porta, sem saber o que procurava. Como se os rostos que conhecia tivessem fugido de sua mente enquanto dormia.  Inclusive… o seu. Era como estar num limbo, não se lembrar do próprio rosto.


Culpou algum acontecimento anterior, talvez bebera, dormira pouco, talvez bebera muito…
De frente ao espelho vislumbrava um rosto estranho inspecionando cada detalhe dentro da moldura. Passou as mãos pela pele e cabelos, virou-se de lado, olhou para o corpo. Nada. Não se lembrava quem era.
Era um pesadelo. Voltou para a cama e fechou os olhos. Mas não sentia sono. Virou-se várias vezes, mudou de posição, abriu a cortina, fechou, acendeu a luz, apagou…Não se lembrava do cheiro daquela cama e nem de que posição gostava de dormir. Abriu os olhos de repente, sentiu um pavor quando passou pela sua mente a ideia de que não lembrava nem de seu próprio nome. Olhou o celular. Nenhum registro, nada de agenda, ligações, mensagens, nada. Gavetas vazias. Nenhum documento, nenhuma foto, nenhum vestígio de si mesma.

      Levantou-se e saiu do quarto, meio cambaleando andou pelos cômodos daquela casa como se fosse a primeira vez, era a primeira para ela. Tentou lembrar do momento em que acordou e sentiu falta das pessoas, tentou lembrar que pessoas eram essas. Lembrava-se da sensação de sentir falta, mas não lembrava-se de quem, nem de que. Estaria com amnésia? Pensava que isso só acontecia em filmes ruins.

      Resolveu sair à rua para ver se lembrava de algo. Abriu a porta e pôs os pés na varanda, a claridade intensa feriu seus olhos. Alguns segundos depois, conseguiu abri-los, mas ainda a incomodava, como se estivesse no escuro há muito tempo e não conseguisse se acostumar com tanta luz. Ficou na mesma posição, olhando para a frente, sem saber para onde devia ser seu segundo passo.

     O impasse foi resolvido por alguém passando pela rua e acenando para ela. Devia ser para ela, mas ela desejou que não fosse, não sabia quem era aquela pessoa e nem mesmo que tipo de reação esperava dela. Por sorte não parou. Mas, vendo a pessoa andando com facilidade pela rua, sentiu-se encorajada a caminhar também. Sem saber para onde nem porque, saiu andando da varanda. Olhou bem para a casa antes de se afastar e guardou na memória vazia detalhes caso precisasse encontrá-la de novo.

     Era tudo estranho. Andava como se voltasse de uma longa ausência, durante a qual tudo se modificara. Tudo à sua volta era novo. E a angústia crescia a cada passo, pois não sabia nem ao menos o que  conhecia antes desse novo. Olhava as casas, as pessoas, os carros como se fosse a primeira vez. Andou por muito tempo, quando um pavor tomou conta de seus pensamentos. Não prestou atenção ao caminho e não sabia como voltar. Olhou em volta e não reconheceu nada, como se acordasse de repente numa cidade estranha. Olhou para si e viu que estava de pijama e sem nada nas mãos além de suor.

Recomeçou a andar antes que alguém notasse sua hesitação. Se alguém tivesse olhado teria visto sua vulnerabilidade e desespero. Qualquer direção era a errada, pois não tinha nenhum norte, de onde veio e para onde ir. Andou a esmo durante muito tempo, de cabeça baixa para não ser notada, até reconhecer algo, uma marca, um sinal que levasse a outro e a levasse à sua recente memória que a levaria  à casa que talvez fosse a sua.

     Encontrou a casa quando já estava escurecendo, tateou as paredes para acender a luz. Queria se sentir protegida ali dentro, mas a qualquer momento o dono da casa poderia chegar. Pelo menos não estava mais na rua de pijama. Tomou banho, vestiu uma roupa que não tinha a menor ideia se era de seu gosto e tentou adivinhar qual quarto era seu. Não conseguiu, deitou-se em qualquer cama, mas não conseguia soltar o corpo, pois o cheiro a incomodava. Não reconhecia o cheiro de si mesma. Era como trocar de corpo, de vida. Deitada no escuro, com as pernas cansadas e a cabeça girando, sentia-se refugiada do mundo desconhecido, como se tivesse que se esconder. O escuro e o silêncio a protegiam e podia pensar, como se os pensamentos tivessem medo de serem ouvidos.

      Adormeceu e acordou repetidas vezes, sonhou diversos sonhos. Quando despertou por fim, o sol estava alto, tentou agarrar-se ao último sonho como se fosse uma corda de salvamento. Poderia dar uma pista. Já não sabia quantos sonhos tivera, eram muitas imagens e palavras fragmentadas. Nesse turbilhão de pensamentos uma esperança a afagou, podia ser parte dos sonhos a perda da memória. Podia ter sonhado, ou estar sonhando que não se lembrava e a qualquer momento acordaria e respiraria aliviada.

    Não acordou jamais. O pesadelo era realmente sua vida. Saia todos os dias para caminhar e a cada dia aumentava um pouco mais o trajeto. Ninguém veio reclamar a casa, então assumiu que seria sua. Providenciou documentos, arranjou um trabalho. Ninguém veio dizer que a conhecia. Resolveu conhecer pessoas e se relacionar. Aquela deveria ser sua casa, aquele deveria seu mundo, seus amigos, e sua vida. Mas tinha a sensação de estar no lugar errado, em algum lugar alguém a esperava, a conhecia. Em algum lugar do mundo ela se reconheceria. Viajava para todos os lugares, mudava-se de cidade, mas não importava onde estivesse andava pelas ruas como se ainda estivesse de pijama. 

     

   Encontrou a casa quando já estava escurecendo, tateou as paredes para acender a luz. Queria se sentir protegida ali dentro, mas a qualquer momento o dono da casa poderia chegar. Tomou banho, vestiu uma roupa que não tinha a menor ideia se era de seu gosto e tentou adivinhar qual quarto era seu. Não conseguiu, deitou-se em qualquer cama, mas não conseguia soltar o corpo, pois o cheiro a incomodava. Não reconhecia o cheiro de si mesma. Era como trocar de corpo, de vida. Deitada no escuro, com as pernas cansadas e a cabeça girando, sentia-se refugiada do mundo desconhecido, como se tivesse que se esconder. O escuro e o silêncio a protegiam e podia pensar, como se os pensamentos tivessem medo de serem ouvidos.

      Adormeceu e acordou repetidas vezes, sonhou diversos sonhos. Quando despertou, por fim, o sol estava alto. Tentou agarrar-se ao último sonho como se fosse uma corda de salvamento. Poderia dar uma pista. Já não sabia quantos sonhos tivera, eram muitas imagens e palavras fragmentadas. Nesse turbilhão de pensamentos uma esperança a afagou, podia ser parte dos sonhos a perda da memória. Podia ter sonhado, ou estar sonhando que não se lembrava e a qualquer momento acordaria e respiraria aliviada.

    Não acordou jamais. O pesadelo era realmente sua vida. Saía todos os dias para caminhar e a cada dia aumentava um pouco mais o trajeto. Ninguém veio reclamar a casa, então assumiu que seria sua. Providenciou documentos, arranjou um trabalho. Ninguém veio dizer que a conhecia. Resolveu conhecer pessoas e se relacionar. Aquela deveria ser sua casa, aquele deveria seu mundo, seus amigos, e sua vida. Mas tinha a sensação de estar no lugar errado, em algum lugar alguém a esperava, a conhecia. Em algum lugar do mundo ela se reconheceria. Viajava para todos os lugares, mudava-se de cidade, mas não importava onde estivesse, vivia como se tudo fosse provisório e andava pelas ruas como se ainda estivesse de pijama. 

     

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