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Naquela época, inventavam palavras. Era uma mania, um modo muito único de se perder. Tinham – um com o outro – um mundo perfeito e escandaloso, um universo girando e palpitando dentro do peito. As vezes, era tanto e tanto que dava azia, cálculo renal, dor de estômago e uma leve embriaguez, dessas que acontecem quando a gente respira bem fundo algumas vezes e desfalece quase num suspiro. Ela amava aquele universo e ele também. E ali, as palavras novas eram necessárias para conseguirem exprimir o inexprimível, já que tinham esgotado todo o português. O “eu te amo” que ela falava era tão banal que – naquela época – julgava ser quase uma ofensa dizer “só isso” pra ele. E ele ria. E ela ria. E criavam seus próprios espaços, redefinindo a cidade…E andavam pelas ruas num passo trôpego dessa embriaguez de amor e faziam mil planos mirabolantes para que mundo aprendesse deles, junto com eles…Compraram, de uma vez num sebo, 8 dicionários para aprenderem idiomas. Ficaram deitados dois dias seguidos numa cama cheia de lençóis amados, de onde saíam apenas para suas fisiologias que- naquela época – nunca incomodavam ninguém. E lá, deitados num entrelaçamento de membros, era difícil distinguir o que era dele ou dela: era como um Deus Shiva ou qualquer outro ser  mitológico, carregado de braços infinitos, mil pernas e dois corações que batiam desassossegadamente. Não fazia sentido pro mundo, mas era totalmente parte do universo dos dois. Dois dias seguidos- naquela época- não era perder tempo. Era perder “o” tempo. Não dormiam pois não tinham sono e quando dormiam, velavam: acordavam no meio do descanso um do outro e pousavam os olhos nele (ou nela) com tanta ternura que o outro, de pronto, acordava. Acordava cúmplice e sorria. E eram gratos, nesse sorriso, pelo que ganhavam em troca naquelas 48 horas: palavras aprendidas em oito idiomas diferentes para tentar achar novas delicadezas pra dizer o amor. Se em russo não servia, ou se francês já era batido, entre ele e ela existia um novo universo, era preciso também existir um novo idioma. Palavras inventadas que ali eram pronunciadas antes do início de um sorriso, de um suspiro, de um gemido. Palavras criadas para serem ditas ao pé da orelha. Palavras novas e rabiscadas em seus próprios corpos.  Esgotaram o português, o francês, o inglês e – também – o farto acervo da prosa e da poesia do mundo que, na verdade, representava muito pouco do tudo que tinham e que queriam dizer um ao outro. Uma inesgotável fonte de desejo de ser, de existir. Era aquilo – afinal – a devoção ao outro. Era aquilo, afinal, o mais próximo que teriam do sagrado. E da certeza. Não havia ali, naquele apartamento, outra perspectiva de vida ou lugar. Era exatamente ali que queriam estar, era exatamente aquilo que queriam ser. Era aquela visão – o sorriso dela, os olhos dele – a paisagem mais bonita do universo.

Mas agora ela estava sentada em frente a televisão e já tinham decorridos minutos sem localizar algo que – de fato – prendesse sua atenção. A poeira do mundo tinha sido soprada e alcançado todos os cantos da casa e ela já tinha desistido de entender o motivo. Então adormecia – meio morta e meio viva – enquanto ele fazia de tudo pra preencher lacunas. Ele localizava jantares, barganhava permutas em bares, em novos hóteis, em peças de teatro ou shows. Naqueles momento de troca obrigatória, havia o ímpeto da realização e a obrigação da alegria enquanto ele desfrutava do álibi da tentativa. Ela, de sua forma, tentava colocar coisas na casa que remetessem aquela época. Eram novos porta-retratos com fotos antigas, e um exuberância de decoração que desesperava em impedir a casa de ficar vazia. No entanto, estava. E ela sabia. E ele sabia.

As palavras foram cessando e agora havia uma economia de gestos e uns pequenos silêncios. Não lembravam mais frases em outros idiomas – próprios ou do mundo – e talvez o português estivesse mostrando seus evidentes sinais de cansaço. O ar rarefeito dali impedia de que ficassem muito próximos, provocando uma leve falta de ar e uma contração no diafragma diferente – mas bem diferente – da leve embriaguez daquela época.

E tinham muito sono. O sono havia chegado de maneira mais avassaladora do que o arrebatamento da convivência. Tinham sono, e como tinham: a conversa ficava pra depois, o encontro dos corpos, o entendimento de onde estavam ou queriam estar. Era  sempre tarde, estavam sempre cansados e dormir parecia ser a mais acertada e inevitável das soluções. Não que houvesse acontecido qualquer coisa, não havia.  Pensaram sobre – separadamente – mas não conseguiram entender. Tentaram pensar juntos também, mas faltaram as palavras. Onde encontrariam o universo perdido? A Via Lactea da orbita daqueles planetas – daquela época- seria assim tão grande a ponto de esconder uma estrela? O que aconteceu, afinal, foi o mundo. O mundo aconteceu e ele ( e ela) já sabiam: o mundo não pára de acontecer. E – com a vontade fazer as malas e partir e (de súbito) de desfazer e ficar – foram ficando. Um dia. Dois. O tempo. Os cacos, a sujeira do cinzeiro, as fisiologias que passaram a incomodar. O universo fora maculado. E não havia passo para trás.

Ela, por vezes, chorava. Ele, por vezes, bebia. Eles, na metade de suas plenitudes, eram homem e mulher de “as vezes”, de “não”, de “quando”, de “metade”, de “talvez”. Como um peixe que vive em água turva, ela  parou de enxergar cores e se viu em profundo daltonismo. Aí, começou a dormir cada vez mais cedo. Dava desculpas pra família pra esse sono, sintoma de sua condição. Antes da novela e ela pensava estar cedo demais para admitir pro mundo que estaria sob cobertas, mas que importava? Queria cerrar os olhos. Admitir não ver. E ele foi não notando o sono dela e  passou a dormir mais cedo também. Dois ali, na cama gigante que – naquela época – parecia tão apertadinha. Dormiam cada vez mais cedo. E sonhavam. E existiam. E talvez lá, no mundo dos seus sonhos, ainda existissem palavras inventadas, cidades coloridas e os dicionários que ajudariam  a escrever a mais linda história de amor. Talvez lá, no sonho, ainda sobrasse algo desse próprio universo, um microorganismo talvez…. E plenos de pulmão e embriagados de ar, eles dormiam e sonhavam e encontravam sobrevida pra completar aquela que não mais tinham.  E, despertando para suas rotinas da mais cinza das existências,  corriam da vida. E voltavam dela. E dormiam cada vez mais cedo. E sonhavam. E lá viviam. Lá sim, eles viviam. Naquela época.

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