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A chuva batia na madeira da janela com cadência, quase como uma canção. Junto com ela, vinha o cheiro de madeira molhada, grama fresca. E abriu os olhos, mas voltou a fechá-los, aspirando fundo o ar gelado e se embebedando de sons e cheiros.

Naquele momento, estava vazia. Só a chuva preenchia sua alma, e não havia qualquer outro pensamento. Era bom quando acordava assim e por isso se deixou ficar um tempo na cama, sentindo o aconchego daquela manhã gelada.

Em alguns instantes, no entanto, a magia se desfez. Seus pensamentos começaram a pulular e a levaram à realidade: precisava levantar, lavar a louça que se acumulava na pia e dar comida para o gato. Precisava fazer tudo. Precisava fazer sozinha.

Fossem outros tempos, haveria alguém a puxá-la para o lado, a persegui-la até a sozinha para mordiscar seu pescoço enquanto enxaguava pratos. Agora, era tudo silêncio, vazio.

Ainda assim, não podia ficar deitada. A vida exigia ser vivida e os amigos em breve ligariam cobrando, inquirindo, obrigando. Era tão difícil assim deixar alguém ficar sozinho? Olhos fechados, barulho de chuva, só os pensamentos. Estava triste e só, mas não queria nada mais do que liberdade de viver a sua tristeza, chorar um pouco no chuveiro e andar pela casa de pijama e de cara limpa.

Tudo o que precisava era de tempo. Solidão acostuma, pode ser coisa boa. Não precisava ser lembrada disso, nem ser obrigada a sair na rua de salto alto e batom vermelho como uma caçadora. Sentia-se plena. E vazia. Mas não seria saindo de casa com um sorriso estampado na boca que ia se sentir melhor.

Decidiu, por fim, levantar. Os pensamentos acordaram os músculos, fazendo necessária a movimentação. Caminhou pela casa, foi para a cozinha, preparou um sanduíche e um café.

Engolia devagar um bocado quando o gato surgiu senhor de si, espreguiçando, se esfregando na perna dela. Afagou a cabeça dele, sorriu, deixou ele pular no colo e se enrolar.

Recolheu a mesa, ignorou as ligações da irmã. Montou o cavalete e pegou as tintas, guardadas havia tanto. E depois de tantos dias de tela, as cores preencheram o branco, e havia tanto a dizer, tanto para colocar para fora… Fazia tempo que não deixava a emoção transbordar.

A manhã partiu, a chuva se foi. Estava vazia outra vez, contemplando o que seus dedos haviam criado. Os tons de azul, vermelho e roxo, eram quentes e frios, como os olhos de quem partira. E ela já não se sentia mais sozinha ou isso não importava mais. Podia pintar seu próprio destino com as tintas que preferia.

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