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E as ideias não paravam de vir.

Uma atrás da outra, chegavam sem se anunciar. Atropelando-se, interrompendo a corrente de pensamento que formava a anterior. Não havia trégua, uma pausa que lhe deixasse descansar. Escoavam de alguma outra existência para o seu consciente como alguma torneira quebrada que cumpre sua função apenas enquanto causa o desperdício.

Vinham como flashs. Imagens momentâneas que surgiam como relâmpagos e se apagavam ao se predadas por outra cena, outro acontecimento de outra história. Eram sons, eram vídeo. Falas entrecortadas que nunca se completavam, ditas em toms infinitos, por personagens nunca imaginados. Rostos apareciam e desapareciam, fragmentos de protagonistas, coadjuvantes e vilões que existiram apenas no instante em que suas figuras incompletas surgiram e morreram.

Eram gritos. Dor e agonia. Ideias clamando por se libertarem, por verem o mundo. Não respeitando o seu próprio tempo ou seu próprio espaço. Descrições pela metade faiscavam em sua mente, gravadas como fogo e extinguindo-se em seguida.

Se estava acordado, eram narradas por vozes mil. Sussurradas ou declamadas. Marcando o tom, as vezes anunciando um tema que nunca seria trabalhado. Quando dormia, ou pelo menos tentava, eram as luzes e todo o resto. Nada concreto, nada que pudesse ser usado. Gêneros se misturavam, respostas sem perguntas atormentavam. Um homem andando no deserto, uma espada em sua mão, um tiro no escuro, a rosa caiu e foi levada pelo vendaval, “não, nunca estive aqui” — disse o rapaz.

Não era gentil, não era inspiração aquele tormento de noites mal dormidas, aquela dádiva de acordares difíceis e olhos inchados. Marteladas, eram como marteladas. Um risco de fogo atravessando o cérebro a cada novo parto, uma convulsão a cada aborto. Não havia escuridão, não havia descanso. As ideias vinham com o fulgor de uma estrela que morria e dava lugar a outro supernova.

Vinham de dentro para fora. Canibalizando a anterior, forçando sua passagem, tentando de forma física escapar daquela caixa óssea. Ativavam sinapses, interrompiam impulsos elétricos, remexendo e remexendo miolos como algum parasita tentando se ver livre antes da hora.

Era incessante, do inicio ao fim do mundo. Me escreva, me escreva, ordenavam, clamavam, suplicavam. Náufragos escalando cadáveres e iguais, tentando escapar de um navio condenado. Um jogo cruel de sedução. Se prostituíam, mostrando o que tinham de melhor e pior, de corrupto e vendável para que pudessem escapar dos becos e sarjetas.

Desesperadas, incompletas. Natimortos exigindo sua chance de saudarem o mundo. E ele tinha que ouvi-las, assistir aos seus pedaços, vislumbrar suas passagens apodrecidas. Me salve, não à outra ideia, mas a mim, liberdade por favor. E então que escrevia. Riscava a grafite de um lápis surrado ou derramava o nanquim sobre o branco. Dando forma, estrutura, ou apenas um fluxo de consciência inconsciente. Detalhando, corrigindo, ora revisando, ora não, tentando libertar a sua mente daqueles hóspedes chorosos, dos prisioneiros que surgiam.

Mas não era o bastante. Palavra no papel, ideia materializada, história em andamento e vinha outra voz, outra cena, um personagem lembrando de um passado que ainda precisava ser escrito, uma sereia chorando sangue sabe-se lá porque. Dedos trabalhavam, pulso se torcia e canetas morriam. As pausas eram breves, os músculos endurecidos. As lesões chegavam até o antebraço.

Não havia descanso, não havia fim. Capataz feito de torturado. Nas madrugadas da exaustão deitava e os olhos não cessavam de mover. E vinha aquela febre. A verdadeira febre de ideias. E então era ele que implorava, suplicas vocalizadas para um quarto vazia. Os músculos se repuxavam, o rosto se contraía; dor e choro. A tempestade redobrava. Destruia sua resistência, eliminava seus filtros. E voltavam as risadas, os finais sem início, os inícios mutilados.  Clímax de histórias que nunca começaram lhe surgiam. As falas de personagem algum feriam-lhe os ouvidos da consciência. Vozes esganiçadas, vozes graves. Pequenos gestos sem contexto. Personagens que morriam sem nascer.

Deitava por horas. O sono pairando pesado sobre suas pálpebras, o cansaço escorrendo pelos músculos, mas sem conseguir dormir. A maioria das vezes ficava ali meio insano, um desesperado chorando sem lágrimas. Aguentando aquela tortura que nunca fizera por merecer.

Outras noites sentava. As mãos na cabeça apertando os cabelos, os olhos apertados em um choro mudo. Era nessas horas que percebia que era ele o prisioneiro. Que não libertava as ideias de sua mente, mas libertava a si mesmo das ideias.

Foi numa dessas noites que viu como tudo era calmo além da janela meio aberta. Que a noite de lá de cima era calada e os ventos reconfortantes. Pensou, pensou, melancolia em seu rosto. E as ideias não paravam de vir. Mas viu ali como alcançaria sua liberdade.

Por Victor Burgos e Renan Barcellos.

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