Havia anos que ele não saía daquela montanha gelada. Vivia sozinho. Meditava e rezava. Sobrevivia do que conseguia naquele difícil ambiente. Colhia alguns tipos de frutos e aproveitava um pouco da vegetação rasteira, apesar de isso não ser possível em todas as épocas do ano, devido à temperatura.

Procurava não incomodar os ursos da região. Tinha um trato implícito com eles. Ele não se aproximava de suas áreas, não os incomodava e eles não o comiam.

Era preciso ficar ali. Seu castigo. Seu povo não tinha lugar para ele. Por uma característica sua, teve a vida seriamente em risco. Alguns queriam matá-lo. Um dos sacerdotes, em especial, foi quem mais lhe fez ameaças. Dizia que estava doente e não parecia haver cura. Os mais benevolentes o fizeram exilar-se para a montanha. Afinal, acreditavam que seu mal poderia contagiar outras pessoas; mas lá poderia ficar isolado.

Acreditando nisso, até mesmo quando apareciam montanhistas de outras terras, procurava se afastar e se esconder. Buscava sua cabana, incrustada num local discreto e de difícil acesso. Não queria fazer mal a ninguém. Se estava condenado, não queria espalhar sua maldição aos demais. Sentia-se sozinho de fato, mas… no máximo poderia observar os aventureiros, à distância.

Gostava de observá-los. Isso lhe trazia um certo alívio de sua solidão. Via mulheres e homens bem equipados e agasalhados. Alguns destes eram atraentes. Mas sentia-se culpado por pensar assim. Afinal, esse era o seu problema.

Não gostava de mulheres. Quer dizer, gostava delas, não tinha nenhum problema com elas, as respeitava e tudo o mais, porém não queria namorá-las ou casar com nenhuma delas. Até tentou, mas gostava era de homens. Eles mexiam com seu coração.

Assim, principalmente quando via homens que considerava interessantes, tentava se esconder mais ainda, tentando refrear suas emoções. Era seu destino viver sozinho, isolado. Na verdade, não sabia se poderia passar sua doença também para as mulheres. De todo modo, como companhia, acabou se acostumando mais à presença de animais como aves e cabras, apesar de não poder estabelecer laços amorosos com eles. Mas serviam como amigos.

Até que um dia aconteceu. Ouviu gritos de socorro. Era uma voz masculina, aflita. Então hesitou. Mas foi observar de longe, atrás de um rochedo, quem era. Era um moço negro, de óculos, alto e bonito. Gostou dele. Então, achou melhor se afastar.

Mas pensou: “Se ele está precisando de ajuda… por que seria? Não seria errado eu me negar a isso?” Voltou e se aproximou do desconhecido. Ele fez sinal, preocupado, para que o acompanhasse. Caminharam um pouco e ele lhe mostrou uma fenda, onde estava caído outro jovem. Felizmente, o morador da montanha tinha uma corda, e foi buscar em sua cabana. Pediu ao preocupado aventureiro que esperasse, foi e voltou o mais rápido possível.

Juntos, não sem bastante esforço, içaram com cuidado o jovem caído, que também teve que se cuidar para não se ferir mais ainda na subida. Quando terminou a subida, o acidentado e seu companheiro se abraçaram carinhosamente e se beijaram, surpreendendo o morador da montanha. Céus! Quer dizer que, afinal, acabou contagiando esses dois, como temia? Ficou apavorado e sentiu-se culpado. Começou a se afastar.

O casal pediu para não ter medo ou desgostar deles pela relação que eles tinham, achando que seu socorrista não gostasse de gays. O morador da montanha demonstrou que na verdade também gostava de homens, e sentia-se culpado por ter passado isso para os dois. Quando entenderam que ele estava achando que os “contaminou”, acharam muito engraçado, mas também triste, por ver que ele se considerava doente. Mais ainda, ao entender depois que ele vivia ali como um ermitão forçado.

O jovem que estava caído retirou da mochila uma fita com as cores do arco-íris, e a ofereceu, acolhedor, ao homem solitário. A princípio, este não entendeu bem o que aquilo significava. Mas, encorajado por um gesto de “vamos embora” do homem de óculos, sentia que havia uma nova esperança.

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