Quando perguntado, mal sabia responder, mas afirmava ser hetero com a mesma certeza de ser católico. Respondia à força da coerção de como era certo ser até seus 15 anos e conheceu as Artes Plásticas! Na exigência do subjetivo, se conheceu abstrato. Acessou suas cores mentais e descobriu em suas deformas sua singularidade, entendeu que era a partir de então que acessaria quem era, de fato. Depois de adulto conseguiu compreender que acessou um espaço ainda intocável às regras sociais, uma tela em branco, mas que já apresentava intenção de tons. Como se parte dele tivesse conseguido fugir à cultura que o fizera, e que lá habitavam sensações sem nome, desejos sem espaço, imaginação sem moralidade. Foi-se feito então seu paraíso num inferno!

Desconstruiu conceitos, estudou movimentos artísticos que se encontravam com a política e que partiam e chegavam do, e ao, cerne do sujeito. De outro sujeito, de quem ousou, mas que a ele, chegavam como referências, perspectivas de novas descobertas. Por que aquilo havia lhe tocado, lhe cutucado, lhe machucado? Foi no desconforto, na dor, na crise…

Fez sua adolescência na compreensão de que logo passaria. Não se permitiu à depressão juvenil que fariam seus pais decidirem seu eterno porto de partida, o que poderia arruinar seu ser adulto. Curtiu Nirvana, Velvet Underground e drogas leves, apenas como forma de calar a ânsia e sobreviver despercebido. E neste mundo adolescente entendeu que deveria experimentar antes de decidir. Quase adulto, ou quase com 21, começou a se assumir como bissexual, e nunca, de fato, foi católico. Gostava de meninos e meninas, de festas e bebidas, e não entendia a limitação de se beijar na boca. Deitou nu pela primeira vez com um menino, mas trepou de fato com uma menina. Aos poucos foi se permitindo respeitar seus desejos, físico e psicologicamente.

Até que se apaixonou. Como nunca antes, se apaixonou por uma bailarina, que vivia na sapatilha como ele se vestia da tela. Ambos aprenderam a se amar e se conhecer por meio da arte, e juntos descobriam a expressão única que eram capazes de criar. Danças nuas de corpos tingidos sobre lençóis brancos. Criavam suas obras de arte a partir de alongamentos, experimentos, sensações, experimentações…

Tintas, álcool e gozos formavam o abstrato dos corpos que, frustrantemente concretizavam aquele sentimento incapaz de qualquer concretude. Era como as nuvens que se pode ver, mas nunca tocar, que permite-se imaginar formas, mas nunca acompanhar seus movimentos. Muito menos definir, limitar.

Com crença na amizade e na honestidade, percebiam o quão raro e singular era o que sentiam, o que proporcionavam um ao outro. E neste certeza se permitiram viver. Continuar vivendo a vida que se arriscavam quando se conheceram. Estava ali afinal tamanha admiração, paixão, tesão… Estava ali aquela arte singular, secular. Em alguns anos, ele se apaixonou. E de acordo com a amizade, ele contou. Foi um processo difícil… Ela sofreu, ele sofreu e seus lençóis contavam historias com cores frias de um acordo a se viver, de que paixões não se negam e amor se alimenta. A paixão cresceu e começou a participar da construção de novas expressões artísticas, emudecendo as danças e permitindo às cores quentes telas separadas. Ela não soube lidar com aquele novo amor, um rapaz executivo que consumia arte como fast food, e ainda assim conseguira colocar o coração de seu artista preferido numa vitrine. Não suportou o lugar que se enxergava, não suportou perder e ele viu nela aquele peso cultural que ele tanto lutou para se desfazer.

Ela tirou o lençol da cama, esticou na sala e dançou com as tintas vermelhas, diluídas em lágrimas e suor. Dançou à exaustão, de um relacionamento ilusão… Ele consumou a paixão, transformou a vida do rapaz num campo de batalha e resistência, pois havia lá, naquele universo, a necessidade deste rótulo, deste nome, deste lugar. Era um gay num mundo heteronormativo e foi influenciado por aquele artista promíscuo e imoral, e com o consentimento de sua esposa! Que absurdo! Não recuou, mas quando o rapaz, já fortalecido, pôde resistir sozinho, aquela paixão já era uma obra finalizada. E ao voltar pra casa, partiu da dor do amor para compreender quais relações caberiam em sua ausência de moldura. Ou se a solidão era o preço da liberdade que estava inventando.

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