girafa

Desde que nasceu, sabia que não seria fácil. Talvez seja exagero afirmar com tal certeza, pois quando se nasce pro mundo, pouco dele se sabe. Mas sabia que seria difícil, desde que – como costumam dizer – se “entendia por gente”. No entanto, não era gente: era ornitorrinco. Era um fardo de carregar, porque sabia que era raro, sabia que era esquisito. Era muita coisa pra caber num bicho só: bico de pato, pêlos da mamífero… Botava ovos como as aves mas tinha veneno, como os répteis. Era um bicho-contradição e sabia que este tanto de coisa que ele era, parecia incompreensível aos olhos de outros bichos, destes tipos que só andam em bando. Mas a despeito das desaprovações da bicharada: lá estava ele. E, difícil ou não, precisava viver.

Os primeiros anos foram duros porque ele torcia muito para – um dia – acordar gato ou cachorro pois parecia mais fácil. Por que, pra ele, nada era tranquilo: dias ele queria nadar com os patos e experimentar o seu bico, noutros queria rastejar e noutros queria estar em grupo. Aí chorava baixinho e até se escondia pra ninguém ver. Depois, relaxou pois percebeu que poderia chorar em público: o jeito ornitorrinco não deixava que ninguém percebesse seu choro ou -se percebessem- não estariam muito de olho nele: bicho estranho a gente olha rápido pois ninguém gosta muito de encarar aquilo que não conhece. “Ser ornitorrinco”, pensou… Ele sabia que não era fácil.

Quando bem o ornitorrinco percebeu que ser estranho pudesse ser legal, foi jogado num Zoológico, numa cela. Adaptar-se foi difícil pois o que lá era oferecido não era adequado para os “padrões” deste bicho-contradição… como não sabiam como agir, jogaram-no numa cela de pato (parecia ser o que tinha de mais semelhante). Ele não gostou porque – de qualquer modo – nada dali parecia fazer sentido. A única vantagem do Zoológico era que estava na obrigação de conviver com outros bichos. E , por ser diferente, conhecer outros animais até lhe empolgava pois ficava curioso para saber como os outros bichos se arranjavam. Estar lá lhe trazia outra benesse: todos o olhavam e  – ali – ser estanho era muito legal. Pessoas e pessoas paravam admiradas em frente seu cercado, pois era bicho raro. Todo mundo silenciava em sua frente, comentava e tirava fotos. Eram fascinados e isso era muito bacana pro ornitorrinco, embora notasse que as crianças queriam mesmo era levar pra casa o filhote de leão ou um ursinho. Outra lição aprendida na vida: até podemos gostar do ornitorrinco, mas ninguém quer se atrever a levar um treco estranho desse pra casa.

Mal se adaptou e teve que acostumar com uma nova cela ao seu lado. A coisa gerou um burburinho enorme, o local vinha muito bem preparado e os boatos que circulavam nos bicos falantes das andorinhas diziam que o Zoo receberia o “animal mais raro do mundo”. Isso atiçou a todos e causou até certo desconforto no ornitorrinco. Mas quando finalmente chegou aquele animal, o bico dele não conseguia se manter fechado: era o bicho mais lindo que ele já havia visto na vida! O unicórnio chegou exigindo respeito: era lindo, altivo e mítico e tinha total consciência da força de seu ser e da capacidade de encantar com sua rara beleza. Parecia – quando chegava- que todas as luzes se acendiam de uma vez e que as estrelas até saíam de trás das nuvens só pra brilhar um pouco mais pra ele. Ele se refestalava e sorria e era como se sorrisse com o corpo todo. Era um animal que não existia, na verdade. Como, um unicórnio? Ornitorrinco podia ser raro, mas unicórnio era inexistente, ele sabia que não tinha outro em nenhum lugar do mundo e era quase difícil acreditar que mesmo aquele era de verdade. “Ser unicórnio”, pensou… Ele sabia que não devia ser fácil.

Mas por essas coisas que a gente não entende – e como o mundo tem dessas coisas! – o ornitorrinco e o unicórnio se apaixonaram e engataram um namoro. Talvez aquilo nem fosse um namoro, por que eles eram esquisitos demais pra entender como aquilo funcionava então foram só vivendo aquele troço estranho e muito sem nome… Mas que funcionava! Não tinha manual e nenhum livro na veterinária ou na  biologia (ou qualquer outro tipo) dava conta de entender, explicar ou ensinar como poderia ser possível aquela relação entre dois bichos tão estranhos. Mas era bom, e a cela passou a ser “casa”… E, a despeito de existir sentido, os dois existiam. E estavam lá. E se amavam e conversavam e tentavam entender – dia a dia – como as coisas existem independente da nossa crença em sua existência. Podiam ser todos contra, podiam desacreditar naquilo que viam, isso não mudava o fato: não há licença pra existir. A vida não pedia autorização e não exigia nenhum tipo de certificado.

Aí choveu. Choveu forte no mundo por dias a fio. Acabaram não conseguindo se encontrar, as celas/casas inundaram e todos os possíveis problemas passaram a aparecer. O ornitorrinco conseguia nadar, mas o unicórnio era frágil demais pra se molhar. Uma fenda se abriu entre os dois e aquilo se transformou em um rio bastante profundo e sem condições de travessia.  Olhavam para os outros bichos em suas casas e todos sofriam, mas se arranjavam pois suas celas os cabiam perfeitamente. Esse azar – da inadequação, do desconhecido, do descabido – só o ornitorrinco e o unicórnio compartilhavam: um tinha casa de cavalo, outro de pato. Mas não eram patos ou cavalos, eram outras (e muitas) coisas e pra caber perfeitamente nessa cela, era necessário arrancar fora o chifre, nadar como uma ave ou parar de botar ovo – era um mamífero, ora! Não que não pensaram, em sua solidão,  que deveriam mesmo fazer isso: trajarem disfarces de cavalo ou zebra, fingirem serem gansos ou marrecos, quebrarem sues chifres mitológicos e arrancarem pêlos pra implantar algumas penas no lugar. Isso tornaria a vida mais fácil, mas também parecia dolorido. “Ser o que não somos”, pensou…. Ele sabia que isso não seria nada fácil.

E aí, foi desse jeito: o ornitorrinco optou por continuar a ser quem era, mesmo sabendo o alto preço disso tudo. Quis manter tudo aquilo que o fazia diferente, mesmo que isso exigisse muita força dele. E mesmo que, de alguma forma, exigisse solidão. Os dois ainda ficaram no Zoológico por muitos anos, olhando-se carinhosamente de longe, sem conseguir atravessar o profundo rio.  E embora um fascinasse o outro e embora soubessem que poderiam somar as suas imperfeições, o mundo se colocou entre eles. E choraram, cúmplices. E farto e cansado, o unicórnio resolveu – finalmente – arrancar fora seu único chifre para conseguir caber na sua cela e descansar. E o ornitorrinco, tão machucado  e sem compreender, preferiu não olhar mais para aquele animal mutilado e pagou o alto preço da solidão. Ali concluiu: “Ser animal”, pensou. Não é fácil…

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