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Percebeu cedo demais que não seria lido. Sua história não seria contada. Passaria pela vida esquecido, na parte empoeirada da biblioteca, sem ser tocado, sem tocar ninguém. Depois do horror da primeira página, fechado por todos e para sempre, mofaria, esquecido, em branco.

Como um fugitivo, saltando sobre telhados, escapou de si mesmo enquanto espiava lá de cima histórias dos outros. E mergulhava quando ninguém estava olhando para dentro delas. Era assim cada dia uma história, cada história um dia a mais sem lembrar do que não era.

Sabia que não seria fácil. Talvez seja exagero afirmar com tal certeza, pois quando se nasce pro mundo, pouco dele se sabe. Entendeu que era a partir de então que acessaria quem era, de fato. Afinal, acreditavam que seu mal poderia contagiar outras pessoas.

Mas não podia evitar pensar na vida medíocre que vinha vivendo, na falta de esperança, nas noites mal dormidas perseguindo algum tipo de objetivo, que parecia escapar-lhe mais cada vez que pensava nele.

– Pouco objetivo ainda. O que quis dizer é que quero me matar. Que vou me matar. Em breve. Isso.- Tudo o que precisava era de tempo. Solidão acostuma, pode ser coisa boa.

A chuva batia na madeira da janela com cadência, quase como uma canção. Junto com ela, vinha o cheiro de madeira molhada, grama fresca. E abriu os olhos, mas voltou a fechá-los, aspirando fundo o ar gelado e se embebedando de sons e cheiros. Parado na janela olhava a água lavar a mesa do jardim, o tapete que não recolheu, e a ausência dos pássaros, que vez ou outra se manifestavam ocultos, preenchia o cenário triste com a trilha adequada.

A poeira do mundo tinha sido soprada e alcançado todos os cantos da casa. Levantou-se e saiu do quarto, meio cambaleando andou pelos cômodos daquela casa como se fosse a primeira vez, era a primeira. Nasceu, naquele seu momento de vida, a oportunidade de ser alguém significante, não mais um excedente, não mais alguém que aceita o mundo posto.

Naquele domingo, o vento gelado vindo do rio castigava suas orelhas, então encurtou o passeio e foi direto para a caminhada pelas estreitas ruas do centro histórico. Perguntava-se quando e se faria de sua vida um colorido feliz, bem composto novamente. Essa era a dança da vida. Aceitar. Ou ao menos aceitar o que não pode ser mudado. Apoiava-se na amurada da ponte, observando a escuridão. Não havia como enxergar a água revolta do rio, apesar de a brisa fresca e o barulho de água lembrarem seus sentidos sobre a existência do fluído lá embaixo.

Ele ali, um menino acuado, perdido, aprendendo a balbuciar suas primeiras palavras. Em uma breve avaliação de sua vida – dessas rápidas que a gente espera fazer no minuto da morte, onde nossa vida passa como um filme em nossa frente – ele percebeu como suas grandes  conclusões sobre a vida e o mundo vieram exatamente nestes momentos: E agora? Não tinha história. Não tinha história.

Era um dia de chuva pesada e tempo escuro, fechara as janelas e brisa nenhuma se aventurava pelas brechas da porta. Estava tudo em silêncio.

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Olhou para sua vida e só viu retalhos de histórias dos outros, justapostos, como um corpo disforme, feito de membros de vários mortos. Nada fazia sentido. Quem estivesse lendo agora não entenderia nada, não se emocionaria, não riria…

Sem nome, sem história, saiu da sombra e rasgou seu ventre para que alguma dor pudesse salvá-lo do fim sem meio.

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