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Estava sem ideias. Saiu para tomar um ar e trombou com ela, que saía de um bar e derrubou cerveja em sua camisa. Depois do susto, odiou o copo de plástico amassado na mão dela, seu sorriso mole e seu pedido de desculpas. Mas teve que voltar atras quando já ia embora e a viu cair.

Péssima ideia, pensava enquanto a carregava para sua casa, já que ela não sabia mais dizer onde morava. Odiava a si mesmo por não ter tido coragem de largá-la na rua, não sabia dizer se por pena ou medo do que os outros pensariam dele.

Quase jogou-a no sofá. Não sabia se dormia ou estava desmaiada. Ficou um tempo observando-a. Deveria levá-la ao médico? E se morresse em sua sala? Que estupidez trazer uma desconhecida bêbada para casa! Chegou mais perto para sentir a respiração. Ela vomitou em sua cabeça. Sentiu pela segunda vez vontade de matá-la.

Debaixo do cano de água gelada, que ele tinha no lugar do chuveiro, segurava-a de pé, enquanto a água levava o cheiro de vômito, álcool, cigarro e outros indefinidos. Olhava a roupa colar no corpo e revelar seus contornos. Ela acordou e nem demonstrou surpresa. Devia ser normal para ela acordar de uma bebedeira no banho com um estranho.

Ela ainda estava bêbada. Como colocá-la para dormir com a roupa toda molhada? Em suas fantasias, em noites solitárias, desejara tanto isso, despir uma mulher inconsciente… Mas não estava sendo muito excitante. Ela parecia vulgar, estava drogada, bêbada e com o rosto todo borrado…não conseguia achá-la bonita. Tirou suas roupas devagar, para ela não perceber, enquanto ela falava coisas sem sentido de olhos fechados.

Deitou-a de volta no sofá, só de calcinha. Fez de tudo para não tocar em seus seios. Jogou um lençol por cima e foi para a cama, esperando que a noite passasse depressa para livrar-se logo do problema. Não passou. Levantou-se várias vezes para beber água e inspecionar a sala. Não dormiu. Já ela roncava. Dormindo, de bruços, toda torta…até que era bonita.

Levantou-se rápido da cochilada que deu quando o dia já amanhecia. Quase correu até a sala, não fosse o corredor tão pequeno. Será que ela já acordou? Não ouvia mais seus roncos. Devia estar mexendo em seus livros. Já a odiava novamente por antecipação.

O sofá estava vazio e o lençol amassado no chão. Olhou ao redor. Nada. Nem no banheiro, cozinha… Nem um bilhete. Mal agradecida! Devia tê-la deixado na rua. Nem um mísero obrigada. Bem, pelo menos acabou, pensou, enquanto checava se não estava faltando nada.

Ela caminhava de cabeça baixa e bolsa nas mãos, com pressa de chegar em casa. Cantava uma música mentalmente para não pensar. Estava atrasada. Mas não costumava pensar em coisas ruins. Só as coisas boas valiam a pena serem pensadas.

Trocou de roupa rapidamente, lavou o rosto e correu para o trabalho. Não foi despedida. Ponto. Enquanto trabalhava pensava na festa que iria naquela noite e no quanto se divertiria. Fazia tudo muito rápido para que o dia acabasse logo. E a cada hora que passava se excitava mais.

Ele saiu para caminhar em lugares mais calmos, onde não terminasse a noite com vômito nos cabelos e o dia seguinte movido a café. Não conseguia dormir de dia, mas estava caindo de sono e não conseguia escrever nada. Um dia perdido.

Como castigo do destino dele e acontecimento sem importância para ela, encontraram -se novamente. Dessa vez, ao invés de raiva, ele teve curiosidade. O que faria ela numa livraria? Ela não o reconheceu ou fingiu. Fingiu. Quando acordou em sua casa, não se lembrava de nada, e procurou, antes de ir embora, ver o rosto do homem com quem, possivelmente, transara.

Deve pensar que aqui vende cerveja, pensou ele. Deve viver aqui, pensou ela. Que sem graça. Ela saiu apressada, com fones de ouvido e mascando chicletes. Ele, de mãos no bolso e cabeça baixa, olhando-a de soslaio. Ela o achava muito chato. Ele a achava muito vulgar. Mas um queria seguir e a outra gostava de ser seguida.

Primeiro ele fingia que era acaso e ela que não percebia. Ela desviou seu caminho para curtir mais a brincadeira. Ele gostou do caminho longo, para durar mais. Riam sozinhos. Ela teve uma ideia. E caminhou até a casa dele. Ele ficou surpreso e não sabia o que pensar. Ela parou no portão, virou-se para trás e disse a ele que estava entregue. Ele respondeu que teriam que entrar para pagá-la. Ela o lembrou que o pagamento fora adiantado.

Ele entendeu como um obrigada por tê-la socorrido. Ela falava do sexo que pensava ter havido. Sem dizer mais nada, ele abriu o portão, pegou na mão dela e entraram. Fechou a porta da sala com chave. Ela achou estranho a preocupação com o detalhe. Ele voltou-se para ela e sem dizer nada, tirou sua bolsa, soltou no chão e a beijou. Ela se surpreendeu com o beijo.

E surpreenderam-se um ao outro noite adentro. Pouco falaram. No quarto, com a janela aberta e um ventilador velho ao lado da cama, nem notavam o tempo. Adormeceram abraçados. Ela não roncou. Ele sim. Ela acordou e o o beijou. Ele abriu os olhos e a achou linda. Ela nomeou a chatice dele de charme.

Viram-se muitas vezes. Quase todos os dias. Ela o achava inteligente. Ele a achava genuína. A espontaneidade dela divertia o intelecto dele. O intelecto dele fazia refletir a espontaneidade dela. Espontaneamente ela foi se mudando para a casa dele. Que foi ficando cada vez menos silenciosa, com garrafas vazias pelo chão e cheiro de cigarro em tudo.

Passavam o dia todo na cama. Ela perdeu o emprego e ele não conseguia escrever. Se antes não tinha inspiração, agora não tinha sossego. Ela bebia cada vez menos. Se antes tinha que esquecer, agora tinha do que lembrar. Mas o dinheiro dele estava acabando e precisava entregar o novo livro que só tinha dez páginas.

Nas noites em claro ele a observava dormir. E ela fazia silêncio quando ele pegava no sono de manhã. Ela passou a acordar cedo e deixar a casa arrumada para ele conseguir escrever. Ele arrumou um emprego num bar onde ia procurar ideias enquanto ela dormia.

Ele começou a beber. E deixava roupas pelo chão. Ela se cansou de curar seus porres e arrumar a bagunça da casa. Foi embora e parou de fumar. Não tinha mais com o que se rebelar, não via mais graça nas coisas que gostava antes dele. Viajou para encontrar o que gostava. Encontrou a literatura. E pensou em escrever.

Depois de uma noite de bebedeira no bar onde a conheceu, amanheceu na livraria onde a encontrou. E reencontrou-a num livro. Voltou para casa lendo, enquanto andava, a história deles contada por ela. Jogou-se no sofá onde um dia a jogou e que não tinha mais seu cheiro. Correu com os dedos para a última página. Sorriu ao ler o final que queria ter escrito para eles. Fez a mala, tomou um banho no cano de água gelada e pegou o primeiro ônibus para onde ela estava, talvez esperando para viver o final daquele livro e começar outro.

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