Estava entre a solidão de um relacionamento e a ilusão de um sonho shakesperiano. Sentada sobre a mala, na estação de trem, ouvia uma moça tocar seu violino, com tanta inteireza que fundia seu corpo no instrumento. Aquilo lhe invadia. O som, a cena, a solidão… Chovia muito e tudo ao redor lhe permitiu fazer chover também. Chorou compulsivamente até que seus olhos secassem e sua cabeça latejasse em dor. Teria que tomar uma decisão.

Sua casa já não era seu lar. Chegava do trabalho e contribuía com o silêncio, cada um em seus próprios aparelhos eletrônicos. A vida on line parecia mais forte ali. Não havia com quem compartilhar suas experiências no dia, e sua energia ia desaparecendo no caminho de casa. Todo aquele silêncio era ensurdecedor. Na compreensão de que a rotina devora as relações, as tentativas deliciosas de não de deixar devorar estavam enfraquecidas há algum tempo… E agora, só agora, podia enxergar isso?

Há 15 anos conhecera Hector, na época ambos eram estudantes e não trocavam mais do que cumprimentos entre a turma em comum. Uma paixão infantil e imatura não a permitia tocar na realidade infalível que o fazia perfeito. Mais velho, mais seguro, e a cada ignorada, mais apaixonante. Agora, Hector surgiu com o mesmo velho encanto, sem a babaquice adolescente cuja diferença de três anos exibe grande importância. Se encontraram por acaso numa velha livraria da cidade e numa troca de olhares, o reconhecimento que os levaram para um café que trouxe o vinho, e o álcool ao beijo.

Hector morava em outra cidade, passou uma semana lá, tão perto dela, e já ia embora. Se lembrariam daquele beijo pelas próximas semanas, por meio de cartas. Uma química inexplicável, cujo corpo não respondia à mente exceto como numa peça romântica de Shakespeare, ilustrada por um passado em brumas de lembranças e sonhos inventados. Como era bom receber cartas em papel, chegadas pelas mãos do carteiro, com marcas, riscos, história. Aquela relação estendida a levou para outro lugar, para outra época. Lembrava das cartas escritas ao túmulo de Julieta. Passava seu tempo livre lendo, relendo e escrevendo. Seu casamento, tomado por contas, deveres e horários intercalados, estava por aquele fio, que começava exibir nós.

Demorou para contar sobre o beijo, mas tomou um bela dose de coragem com vodka e contou ao esposo sobre sua antiga paixão juvenil e o ocorrido. A conversa foi longa e a noite mais ainda. Se amaram como adolescentes, como na lua de mel, como no inicio e reinicio daquela paixão. Não compartilhou o que se seguia até que não pôde mais esconder, ou esqueceu de fazê-lo. Vivia intensamente e apaixonada por todo amor que a consumia e que a alimentava a leveza, o sorriso…

Os dias passaram. Seu esposo se afundava no trabalho, e ela na história que criava com todos os diálogos, trilha sonora e a sensação do proibido, como numa peça dramática. As noites eram grudadas, suadas, em risadas sem razão própria, exceto pelo amor que lá se materializava. Numa noite de vinho, perdida em seu roteiro próprio, seu esposo chegou mais cedo e anunciou, com pesar, que sairia de casa: “Estou apaixonado por outra pessoa”. Ela chorou, e tentou mostrar quão lindo era a historia dos dois, suas últimas semanas. Não queria perdê-lo, mas ele já estava envolvido demais e desabafou:

– Não consigo mais. Temos uma vida linda, mas agora me sinto em outro lugar.

– Você sempre esteve aqui enquanto estava aqui, entende? Nunca se fez ausente ao meu lado…

Mas, em seguida, ela se questionou se, de fato, ele ainda pertencia ao mundo que ela havia criado. Aquela solidão enfim tomou forma e ausência de corpos, e ganhou um presente a mais. Havia uma quarta pessoa… Antes que se compreendesse a terceira! Não haviam se afastado… Pelo contrário, buscavam um no outro a certeza de estarem juntos. Estavam juntos!

Ali, na estação, tinha nas mãos a última carta que recebera de Hector: “Te espero, então” era a frase que tanto ecoou ao tomar a decisão de sair ela de casa. Ecoou e emudeceu tantas diferenças que agora lhe faziam por os pés no chão. Outra cidade, outras relações e um relacionamento de quase dez anos se desfazendo por outros amores, outras paixões. E aquele “então”? Como se não tivessem outra opção?! Ambos sabiam que na vida prática, ela não estava incluída na rotina de Hector. Ele teria mesmo tal disposição? Estariam às cegas concretizando uma paixão?

Era assim o amor? Algo a se repartir, sem multiplicar? Algo que se usufruía com o tempo e se deslocava entre as pessoas? Um sentimento movido pela adrenalina, pelo desconhecido, pelo proibido? Teriam eles, todos, de fato, conhecido o amor?

Entre a obra escrita a dois e uma vida em casal deixada pra depois, escolheu outro destino.

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