violin

Chegamos ao aeroporto às cinco horas. Seu embarque seria as seis. Não entendi porque ela quis que eu a acompanhasse. Na verdade entendi, era sua última tentativa de me fazer mudar de ideia. Mas não queria ter ido. Essa viagem era o ponto final que ela dava ao que eu nunca quis começar. Sentamos para esperar. Ela ainda me esperava. Eu esperava dar seis horas. Quando ela sentou, depois de mim, senti seu perfume. Não usava nenhum, mas o que saía de sua pele. Nunca disse a ela que preferia que não usasse, que gostava mais do cheiro de sua pele. Agora ele parecia mais marcante. Parece que os sentidos ficam mais atentos quando estão diante de uma sensação pela última vez…

Ficou um tempo em silêncio. Parecia estar pensando num assunto oportuno. Ela sempre sentia a obrigação de conduzir a conversa, e agora de preferência por assuntos que demonstrassem o quanto estava feliz. Eu fingia acreditar que queria mesmo falar sobre aquilo, que estava se sentindo realizada e que tudo entre nós estava resolvido para ela. Começou falando sobre a escola, de como estava feliz por ter conseguido a bolsa. Ela que nunca estava satisfeita com o que tocava, agora estava indo para Hamburgo com seu violino. E eu sabia que sua felicidade não estava completa, que esperava ainda pelo meu sim. Fizera tantos planos por nós dois, tantas aulas de alemão juntos…

Eu, que sempre fingi entender pouco de música, para não me entregar a ela por completo, deixei que pensasse que não acreditava que um dia fosse profissional. Ela logo tocaria para o mundo, para que o mundo me dissesse como me amava. Eu falava com ela sobre a mudança como algo alheio a mim. Percebia sua irritação com minha ignorância dissimulada. Mas sabia que seu orgulho não a deixaria dizer nada, esperaria que eu percebesse. Tentou por várias vezes, me dizendo que tocar era uma forma de despejar-se. Eu é que queria que ela percebesse o meu medo de seu jeito de despejar-se sobre mim. E que passei os últimos cinco anos tentando contê-la.

Enquanto ela falava eu a contemplava, como um quadro que se vê pela primeira e última vez. Nunca falei nada sobre sua beleza, só dizia que a achava bonita. Nunca disse que sua beleza era única, que ela não era bela como as outras mulheres, das quais tinha ciúmes. Era bela por existir. Era bela sua presença. Sua pele, seus cabelos, sua voz. Não sentia necessidade de dizer isso a ela, como não sentia necessidade de dizer que uma música é bela. Ouvir uma música é celebrar sua beleza. Eu sempre a contemplava em silêncio, nos momentos em que ela era só dela mesma, quando não estava fazendo nada por mim. Nunca disse nada disso. Se dissesse ela passaria a prestar atenção e deixaria de deslizar pelo mundo e passaria a andar como as outras pessoas.

Sem que eu dissesse nada sobre o primeiro, já mudara de assunto. Falava agora da cidade e do quanto sentiria falta do Brasil. Estava entusiasmada e falava muito e alto. Se agarrava a esse entusiasmo para não deixar o rosto mostrar o que realmente a dominava. Sua boca falava em recomeço e alegrias futuras. Mas seu corpo todo falava de fins e se contraía pelo passado que ainda era presente.

Como eu conhecia seu corpo!…E o meu queria abraçá-lo agora e dizer que esquecêssemos das palavras. Quase fiz. Meus braços tremeram. Um arrepio me percorreu as costas. Um soco no estômago. Ela me olhava nos olhos. Nos olhamos por instantes. Recuei. Silenciamos. Olhamos para a frente. A frente é que nos aguardava. A ela aguardava um mundo novo, cheio de esquinas a virar. A mim aguardava o mesmo de antes dela. Tudo voltaria ao seu lugar. Ela voltaria ao mundo a que pensava pertencer, mas que pertencia a ela. Deslizaria por outras ruas. Seria contemplada por outros olhos. Se embebedaria de outros gostos. Se despejaria em outros amores. Ela e seu violino, como um único corpo, tocariam o mundo.

Eu voltaria a ser meu. Sem ela por perto poderia ser mediocremente eu. Minhas palavras seriam minhas, meus pensamentos meus. Meu corpo meu. Seria só viver cada dia. Sem aquela desorganização que ela causava à minha vida, ao meu corpo…na qual vivi nos últimos anos. Agora eu saberia novamente onde estariam as minhas coisas. Não precisaria procurar objetos pela casa e nem palavras. Não precisaria dar nomes, abafar fogueiras e nem conter avalanches. Nas últimas semanas eu fiz de tudo para que ela levasse a certeza de que eu não a amava. Para que quando estivesse longe de mim colocasse outras coisas em meu lugar, até que eu não coubesse mais. Ela passou as últimas semanas me dando chances de voltar atrás. Fingi não perceber nenhuma e aceitar o fim como o certo para nós dois. Eu sempre quis encontrar o amor. E depois de encontrá-la só queria minha vida de volta. Se amor era isso eu desistia, não era para mim. Não sabia viver suspenso com medo de me afogar, de acordar no meio da noite sem poder respirar.

Agora estávamos ali, um ao lado do outro. Ela me dando a última oportunidade. Mas eu escolhi a oportunidade de ficar sem ela. Escolhi ter escolha. Enquanto falava de planos e sonhos, embora eu soubesse que por dentro o entusiasmo era bem menor, via como seria fácil me esquecer. Ela sempre conseguiria se refazer e isso me irritava um pouco. Acho que porque a força dela me fazia sentir mais fraco. Tive medo de sempre estar no colo dela, de sempre tê-la como lembrança do fracasso que eu era. Me sentia infeliz por nunca ter me aberto à ela de verdade e aliviado por não me sentir mais pressionado a fazer isso. Pressionado a sair da cama, pressionado a acreditar, pressionado a viver. Sem ela poderia voltar à minha semi-vida em paz. Precisaria de muita coisa para por em seu lugar, pois ela ocupava todos os espaços. E quando ela entrasse naquele avião o amor passaria a ser novamente uma busca para mim e não um destino certo e aniquilador.

Ela já estava de pé e segurava minhas mãos. Me levantei e ficamos frente a frente. Seus olhos não eram de partida, queriam ficar ou levar os meus juntos. Só esperavam por um sinal. Decidi por ela, trocando os olhares cheios de palavras por um forte abraço de conclusão. Sem deixar seus olhos encontrarem os meus novamente, entreguei-lhe o estojo do violino, o casaco e a conduzi, transformando em ações as nossas últimas reticências…

Com o mesmo olhar prático dei um sorriso quando ela se virou para acenar pela última vez. Quando virou as costas novamente e caminhou uns quatro passos, senti as pernas fraquejarem e uma súbita falta de ar. Minha respiração parou por uns três segundos quando a vi jogar tudo no chão, até o violino, e vir correndo para mim. Seu rosto estava molhado de lágrimas. Jogou-se nos meus braços e me beijou. Meu corpo todo fraquejava e exprimia a fraqueza nas duas gotas salgadas que me denunciavam. Ela sorriu aliviada, como se tudo até ali fosse somente uma ameaça e eu me entregava finalmente. Hamburgo, escola, vida nova, pareciam não passar agora de um fardo pesado que ela se obrigara a arrastar para não vagar vazia sem mim.

Suspirou profundamente e voltou a ser leve. Foi andando de costas, buscar as coisas que alguém recolhera pelo chão e segurava, aguardando o desfecho da inesperada cena. Sorria, sem tirar os olhos dos meus, como se me segurasse por eles, mantendo-me ali imóvel, como a presa de uma serpente. Só os desviou por alguns segundos, para agradecer a quem lhe entregava seus pertences. Quando voltou-os para mim já não sei o que encontraram, pois os meus se afastavam dali cegos e transbordantes, como se vissem ela tocar If I Had Any pride Left At All.

Imagem: Violin. Drawings, by David Lewis

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