O silêncio parecia predominar no centro comercial da cidade no inicio daquela noite. Os garis, negros em sua maioria, varriam fitas, bandeiras e copos plásticos que restaram da passagem efusiva que ali jaz. Deixavam as latinhas para concorrência de outro segmento da população que depende desta venda. Na calçada, uma mãe assiste à cena com foco no moleque que encontrara, ainda bebê anos antes.

– Dentinho, deixa isso aí!

– Mas Miriã… a gente pode vendê!

– Nois num tem nem lugar pra guardá isso, moleque. E nois volta pro abrigo hoje!

– Ah mãe, eu não gosto de lá!

– Num me chama de mãe, porra!

Dentinho joga uma das latinhas no chão e começa a chutar como uma bola.

– Dentinho dibla um, por baaaaaaaaixo das pernas! Dentinho segue avançando, passa mais um chuta e goooooooooooooooool!!

Enquanto comemora, um catador ensaca sua bola. Dentinho corre ao encontro de Miriã.

– Senta aqui – manda.

Ela começa esfregar a mão no rosto sujo do menino. Tira do bolso um pouco de guardanapo de bar, cospe e limpa a testa e os cabelos da criança.

– Cê tem que ficar limipinho.Se perguntarem se comeu, diz que comeu.

– Mas eu num comi.

– Mas vai comê.

– Vou?

– Vamô tomá a sopa lá no abrigo.

– Mas num é lá que vão perguntá?

– É… cê fala que almoçou e que agora tá com fome de novo.

– Mas eu num almocei, mãe.

Ela bate na nuca dele e repete:

– Num me chama de mãe!

Silêncio.

– Eu num gosto de lá, Miriã. Por que é que eu tenho que dormi longe de você?

– Pru que cê é menino! Cê vai procurá o Fernando de novo e vai ficar de boa com ele até nois se vê de manhã.

Com o mesmo guardanapo ela começa a se limpar. Passa o papel embaixo dos braços, dobra. Molha numa poça no chão e limpa por dentro da calça.

– Pega tua sacola e vamô.

Os dois andam e se afastam daquela rua agora já mais limpa. O menino bate numa panela encontrada no chão e estica os olhos para os prédios e lojas fechados que exibem suas fachadas brilhantes e reluzentes, dando vida à cidade. Descem por uma rua que começa a apresentar a escuridão de outros bairros. As fachadas mudam, o sorriso dele não. Os prédios são mais sujos e escuros e o cheiro de urina já dá boa vinda aos dois. O menino corre na frente da mulher e logo arruma outra coisa pra chutar, voltando ao seu campo e seu estrelato futebolístico! Comemora seus gols batendo a panela nos postes e nos muros. Ela acende uma bituca que encontra no chão e procura coisas nos cestos de lixo da prefeitura.

Quando chegam ao abrigo já está escuro e frio. Há uma fila de homens na porta do abrigo, que dirigem olhares diversos à Miriã, de reprovação, ódio, desdém ou desejo, todos ignoram o menino. Todos oprimem a mulher. Ela se mantém ao fim da fila enquanto o Dentinho se distrai com sua panela.

– Pode entrar com ela, Miriã?

– Vamô vê, muleque.

Todos que chegam passam a frente de Miriã, que senta a alguns metros da porta do abrigo e aguarda. Após a entrada do último homem, o menino se aproxima da porta, olha pra ela e aguarda seu sinal de aprovação para gritar:

– Fernandoooo!

Sai um homem grande que coça a cabeça do menino sem nem olha-lo e segue ao encontro de Miriã.

– Posso entrar com minha panela, tio?

– O menino pode comê?

– Claro! – responde gentil e se direciona ao garoto – Pode descê, muleque. Me espera lá no refeitório.

– Posso comê já, tio?

– Pode, dentuço. Cê come lá, eu como aqui.

O homem pega no punho de Miriã e a puxa pra outra entrada. Dentinho fica olhando Miriã ser arrastada. Ela o encara.

– Me espera de manhã, menino. Te pego aqui na porta!

– Entra logo muleque! – grita o homem – E vai quieto, num deixa ninguém te vê!

– Eu posso cume tamém, depois? – pergunta Miriã, baixinho.

– Depois de mim, pode. – responde rindo – Tu cala a boca agora!

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