I.

A coisa mais implacável do universo é, creio eu, a incapacidade da mente humana de perceber — quiçá relacionar — tudo que a cerca. Vivemos encalhados em uma ilha de ignorância, eternamente privados das maravilhas e indefesos contra as feras que vive no mar de maravilhas que nos cerca. As ciências, as artes e a filosofia, cada uma a sua maneira, vem mapeando a imensidão, mas o homem comum continua perdido.

Especialmente o bando de idiotas que eu tenho por amigos.

— Olha, eu até sabia que essa viagem ia dar merda — disse Ana, esfregando a testa — Mas caralho, como diabos viemos parar na porra do oceano pacifico?!

— Essa josta deve estar quebrada — disse Pedro, ao leme, batendo no visor do gps — Droga Roberto, você só tinha um trabalho. Um trabalho.

— Ei, eu não tenho culpa se o google mentiu para mim! — disse ele, mexendo no celular, tentando desesperadamente achar um sinal — Caramba, assim que voltarmos eu vou reclamar dessa empresa no face.

Se nós voltarmos — disse, entre um gole e outro da minha sopa. — Ei Filipe, você não deveria estar em pânico ou algo do tipo?

Filipe estava proa, olhando para o mar enevoado, mas imediatamente se virou com um sorriso que eu só não chamo de insano porque tinha sido obviamente treinado na frente de um espelho.

— Seus tolos com dinheiro para alugar uma embarcação! — Disse ele, com uma risada forçada. — Vocês caíram na minha armadilha, e agora vão ser sacrificados para Cthulhu!

— Cuma? — perguntou roberto.

Imediatamente, ao horizonte, uma forma começou a aparecer, uma ilha com uma arquitetura orgânica. Ao redor dela diversos navios, cada uma delas cheia de cultistas entusiasmados e colegas/amigos/familiares de cultistas entediados.

— Testemunhem! — gritou um cultista de roupa especialmente espalhafatosa. — Eis que Cthulhu se levanta da sua tumba.

As portas da torre mais alta de R’lyeh se abriram e dela sai uma criatura esverdeada de olhos esbugalhados. Algumas pessoas daí caíram em transe tão logo as portas se abriram, mas a maioria permaneceu calma, se assustada.

— Eh… Vocês não deviam estar enlouquecendo? — Disse filipe, olhando para trás.

— É um cara com cabeça de polvo — disse Roberto, dando de ombros.

— Seus tolos — começou Filipe — Cthulhu não é…

— Para mim parece um cara com cabeça de polvo —

— Também acho — disse Ana.

— Cara com cabeça de polvo.

— Calma, pessoal — comentou o cultista-chefe. — Ele ainda está se organizando, fizemos um feitiço para chamar a maior criatura do mar, Dagon, que deve…

Mas o que apareceu não foi Dagon.

III.

            Godzilla se ergueu do mar, acidentalmente chamado para R’lyeh pelos feitiços mal direcionados. A antipatia entre as duas criaturas foi imediata. As duas monstruosidades avançaram um contra a outra tão rápido quanto seu porte titânico permitia, um rugindo como um vulcão e outro em um silencio cósmico. Mas nenhum dos cultistas podia prever o que aconteceria em seguida.

Cthulhu não se chocou com Godzilla, do mesmo jeito que uma casca de banana se choca com uma pessoa. Não, Godzilla escorregou em Cthulhu. Ambos abriram os braços, e tentaram agarrar um ao outro, como lutadores de sumo monstruosos. Esse foi o erro do alienígena. As duas criaturas podiam ter o mesmo porte, mas o senhor de R’lyeh era muito mais flácido, mole e leve que o terror de tokyo. Godzilla agarrou Cthulhu e o dragou pelas ruinas cobertas de algas. Cthuhu ainda tentou cravar os pés no chão, mas foi inútil. As pisadas de Godzilla dilaceraram as pernas do grande antigo em uma gosma protoplásmica. Um gigante caiu sobre outro em um tombo que fez o próprio ar estremecer e levou várias construções de R’lyeh abaixo. O impacto foi demais para Cthulhu aguentar. O peso do kaiju fez o grande antigo inflar e estourar com um som perturbadoramente evocativo de uma bexiga vazando, espalhando gás e gosma por todo lado.

Enquanto os outros se dividiam em ficar assombrados pelo combate, filmar a cena e reclamar do cheiro de pum no ar, eu me aproximei do Filipe e sussurrei no ouvido dele:

— Aposto cinquenta Dilmas no jacaré gigante.

Enquanto o Godzilla se levantava, os gases e gosma começaram a se rejuntar em Cthulhu no melhor estilo T-1000. Nenhum dos dois tinha rostos humanos, mas era possível sentir a fúria dos dois

O combate foi brutal. Cthulhu avançou para cima de Godzilla apenas para ver seu braço ser arrancado por uma baforada. Ele tentou reagir, mas foi em vão. antes que Os ataques do grande antigo não faziam nada além de melar Godzilla, e todas as suas tentativas de conjurar um feitiço, ou seja lá o que for, eram interrompidas por uma garra, uma rabada, uma baforada. Mas por pior que fosse o estrago, Cthulhu sempre se regenerava. Estávamos perante um genuíno encontro entre a força imparável e o objeto inamovível. O rei dos monstros era feroz demais para ser subjugado por Cthulhu, e o alto sacerdote dos grandes antigos era plástico demais para ser ferido por Godzilla.

— Isso não faz sentido! — reclamou o Cultista-chefe — Cthulhu é um deus, uma força da natureza!

— Então… — Interrompi — Algum de vocês leu mesmo os livros de Lovecraft, ou só jogaram o rpg?

Um silêncio absoluto tomou conta dos cultistas.

— Eu ouvi as músicas de heavy metal. — Disse o cultista-Chefe, por fim. — Tá valendo, né?

Por fim, ao fundo, Cthulhu cansou de tentar, e se escondeu de volta na sua tumba. Godzilla, furioso pela perda de tempo, se voltou para nós.

— Por favor, digam que vocês prepararam um feitiço para sair daqui.

Anúncios