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“Agora eu virei a morte, o destruidor de mundos”

Inácio sorriu. Achar o filme Godzilla Vs Cthulhu (Gojira dai Kuturu, no original) na dublagem do sbt tinha sido um milagre, cortesia de um fã que gravou a película em fita cassete na longínqua — sempre mais longínqua, se lamentou Inácio — e a disponibilizou na web. Os efeitos especiais eram ruins até para a época. O roteiro era horrível até para esse tipo de filme. A dublagem era péssima até para a época e para o tipo de filme.

Ele ia se divertir, e muito. Qualquer zé mane com talento, estudo e dinheiro podia fazer um filme bom, mas criar um filme tão arruinado que era belo… Isso sim era uma arte.

Então, perto do fim do filme, o celular começou a tocar.

Inácio suspirou, respirou fundo, e começou a se levantar, na vaga esperança de que seja lá quem estivesse ligando desistisse. Mas não rolou. Quando ele pegou o telefone, um nome familiar brilhava nata.

— Olá, você — disse ele. Talvez fosse impossível que a pessoa do outro lado da linha sentisse o azedume do sorriso dele, mas não ia ser por falta de tentativa.

Na tela, Godzilla — ou antes, um pobre japonês enfiado em uma fantasia pesada e abafada — com continuava sua luta contra a criatura-polvo, e aquela Tokyo de papelão era demolida uma pisada de cada vez.

— Serio? Que bom! — disse ele — Ora, veja só que engraçado, esse não é mais meu problema!

Inácio e viu a tela de relançe. As duas feras se atracavam, e ele se viu sorrindo. Aos olhos de Inácio, tanto o sucesso absoluto quanto o fracasso completo tinham seu charme. O que ele não suportava era esses meios termos insossos. Não mais.

— Olha, você — vocês — já fizeram tudo a ser feito. Eu não quero mais saber. Acabou.

Em um movimento quase surreal de tão mal encenado, Godilla agarrou a cara de Cthulhu, abriu a boca dele com as garras e cuspiu uma baforada dentro da sua garganta. A criatura inchou em uma bola de um azul fantasmagórico e explodiu como se fosse feita de fogos de artificio e purpurina. O Kaiju restante deu um rugido de vitória.

— Certo, quer saber de uma coisa? Tchau para você — disse ele, desligando o telefone.

Ao fundo, o filme terminava. Após ter presenciado a luta do topo de uma arranha-céu convenientemente poupado os coadjuvantes faziam as pazes uns com os outros. O clima geral era de alegria, com uma exceção. A cientista, perante a destruição, se lamentava com palavras que não correspondiam aos seus lábios pela natureza destrutiva da humanidade e se perguntava o porquê dela odiar Godzilla — enquanto o Rei dos monstros incendiava o que restou da cidade com seu bafo atômico.

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