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“Monstrinho” era seu apelido desde que entrou na escola. O descontentamento súbito e a leve chateação da gozação logo foi substituído pela indiferença: era tão corriqueiro o apelido que ele nem ligava mais. Meninos e meninas assim o chamavam e , dada a proximidade da escola com sua casa, logo o “monstrinho” começou a sair da boca também de seus colegas de bairro. Como uma epidemia, um apelido se espalha: de boca em boca ou numa troca de olhares, num sussurro no ouvido ou numa rápida espiada. Parece que, como os vírus, bastou um rápido contato e o outro está contaminado. Ou talvez nem precise do contato pois pessoas que ele nunca havia visto antes já lhe chamavam pelo “monstrinho”. Era assim, um apelido a primeira vista. A empregada de casa já o chamava assim, bem como seu irmão. O atendente da padaria e o motorista da linha de ônibus que sempre pegava. A moça da cantina da escola e o dono da banca de jornal. Parece até que, uma vez, ele ouviu um professor – esquecendo-se de seu protocolo profissional – chamá-lo de “monstrinho” na aula. E a sala, claro, viu nisso o combustível para continuar a todo vapor.

No começo ele pensou muito sobre o assunto… Seria sua evidente magreza? O rosto lotado de acne também devia ter ajudado a encontrar o apelido mas, em sua revisão mental, não achava um motivo evidente. Pensou, primeiro, que era algo físico: não tinha habilidades pra esporte e, muito menos, com as garotas. Era desengonçado, tinha os dentes bastante desalinhados e costumava pensar que no lugar dos cabelos, tinha penas. Os olhos eram pequenos e- embora muito atentos ao mundo – não combinavam com a cara larga que, por sua vez, era grande demais para o corpo mirrado. Suas sobrancelhas se juntavam teimosamente e o nariz avantajado e torto parecia ainda maior com quantidade de espinhas que carregavam. Sua voz era um pouco fina, um pouco grossa, um pouco estranha e assim se definia ele também: “um pouco fino, um pouco grosso, um pouco estranho”. Quando no espelho, tinha raiva e até uma pontada de tristeza lhe acometia o peito. Mas eram raras as vezes que se detinha frente a ele mesmo, pois já havia desistido. “Sou feio”. dizia. “Sou um monstrinho mesmo”, corrigia.

Não havia como achar explicação para seu apelido, entretanto, dentro de si. Não havia um “monstro interior” ou, se houvesse, estava de fato muito bem domesticado. Falava pouco, não tinha amigos e era muito tímido. Em casa, não era diferente pois seu irmão bem apessoado concentrava todas as atenções. Não havia muito espaço para o “monstrinho” contar seus feitos e, oras, não havia mesmo muitos feitos a serem contados. No entanto, no lugar do “monstro” lá dentro, havia um vasto muito interior: ele lia, via filmes, ouvia músicas, imaginava situações, criava histórias. Aprendeu a divertir-se sozinho e sabia que tinha muita coisa para compartilhar.

Assim que terminou o ensino médio, foi procurar um emprego. Como o mundo compartilhava da mesma idéia de monstruosidade, ficava envergonhado em responder os anúncios que pediam boa aparência. Na pesquisa, porém, achou o emprego ideal: fantasiar-se de monstro na porta de uma famosa lanchonete! Seu corpo deu um estalo e arrepiou-se na hora! Encheu-se de auto-confiança com a absoluta certeza de que o emprego foi feito para ele. Mais que isso: parece que a vida o preparou para este momento, este trabalho, esta incumbência. Era quase vocacional, era quase um chamado. Sentiu que o universo conversava com ele. Era como se, de súbito, todos os longos anos em que tentou decifrar o motivo pelo qual era chamado de “monstrinho” se concentrassem nesse único momento. Como esperado, conseguiu o trabalho. Sentia como se essa fosse a primeira realização do “monstrinho” em sua vida.

Vestido com um apertado e abafado traje de pelúcia azul que escondia seu corpo todo, o “monstrinho” de dentro suava muito. Não havia uma única parte de seu corpo que era visível para quem o olhasse de fora. O monstro visível – famoso personagem de uma revista em quadrinhos – era assustador mas parecia abafar com a criançada: todos no restaurante queriam fotos, abraços, afagos e conversas. Se por fora, o monstro era sucesso, por dentro o “monstrinho” ria. E não eram só as crianças: as mães, as tias, as irmãs, as professoras… Era incrível como sua monstruosidade, agora, fazia todo o sentido. Ele podia, finalmente, se conectar com alguém e era impressionante como era bem sucedido. O gerente da lanchonete não cansava de elogiar e de dizer que nunca vira alguém tão animado em colocar aquele pesado traje, mesmo nos mais quentes dias de verão.

A alegria e o prazer da realização, no entanto, chegou em sua maior encruzilhada quando o chefe lhe chamou em sua sala. Chegou fantasiado  e quase recusou-se a tirar a “cabeça” do traje- não mais se sentia bem sem ela – mas cedeu por insistência. Sentia-se desprotegido sem o traje, quase nu. Ouviu muito atentamente, como de costume, quando o chefe lhe sugeriu uma promoção: era tão ativo e alegre na função que a empresa achou que chegara a hora de colocá-lo de uniforme para atender do balcão. Teria um bom aumento de salário, carga horária reduzida e a vantagem de não precisar carregar a pesada fantasia. So precisava aceitar e dizer seu nome para que o mesmo pudesse ser colocado lindamente fixado na camisa do seu informe. Ele tremeu. Seus lábios ressecaram, seu queixo vibrava e ele quis chorar. Apesar disso, engoliu o choro e todos os outros sentimentos (ele sabia muito bem fazer isso) e concentrou-se em dizer brevemente que agradecia, mas que não queria ser promovido. Muitas poderiam ser as justificativas e  ele poderia gastar horas para explicar como os anos o haviam treinado para ser exatamente isso: um monstro feliz. Mas acostumado ao silêncio (e com pouco) resumiu-se numa única frase: “Não posso. Não consigo mais me lembrar do meu nome para colocar no Uniforme”.

Ainda tremendo assustado com a (quase) perda de sua identidade, apressou-se em agradecer ao chefe, colocar a cabeça de monstro azul de volta e correr feliz para a porta do restaurante, onde uma multidão de sorrisos, abraços e pedidos de fotos – finalmente – aguardavam ansiosas a chegada do feliz “monstrinho”.

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