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Estou escrevendo para dizer como estou. Primeiramente quero te contar que eu mesma estou escrevendo. Não preciso mais pedir a ninguém que escreva por mim, não preciso mais expor meus sentimentos e pensamentos. Não é uma ótima notícia? Pois é, e eu devo a você. Também quero que saiba que não cometo mais tantos erros de português. Nem escrevendo e nem falando. Entendi o que você queria dizer com a importância de saber usar a própria língua de forma adequada. Sim, agora eu sei. Mas não precisei voltar à escola, como você me aconselhava.

Um dia, cansada de olhar para as tuas coisas e chorar, eu resolvi jogá-las fora. Peguei tuas roupas para doar, teus livros para queimar e juntei tudo na sala. Fiquei olhando para tudo ali amontoado. Foi então que comecei pensar. Imaginei você nu e sem os teus livros. Mas não nu como te via todos os dias na minha cama, tomando banho ou indo à geladeira no meio da noite beber água…Imaginei você nu na rua, no teu trabalho, no bar, discutindo com alguém sobre política, flertando com alguém na praia…

Me deitei sobre tuas roupas. Senti teu cheiro. E pensei no teu cheiro sem as roupas. Onde ele se alojaria. Que registro teria o teu cheiro sem tuas roupas. Adormeci pensando nisso. Sonhei que nós dois andávamos nus pelas ruas e ninguém parecia notar, só nós dois sentíamos a leveza do despojo. Acordei e me despi. Andei nua vários dias pela casa, pelo quintal. Talvez algum vizinho tenha me visto, mas ninguém disse nada. E fui me despindo de tudo o que eu era. Da tristeza que você me deixou. Da vergonha que eu sentia em ser eu. Das minhas certezas. Parei de comer. De falar.

Vesti as tuas roupas. Eram grandes para o meu corpo. Teu cheiro nelas começou a me incomodar. Era cheiro de roupa suja. Fiquei suja assim de você até não aguentar mais. Então tomei um banho. Cortei eu mesma os cabelos longos em que você se enroscava. Parece simbólico contando agora. Mas foi bem irracional até. Parecia um bicho, uma fera. Acuada dentro de casa, suja, sem comer, sem você, sem nada. Abracei o nada. Foi mais fácil. Acho que sempre fui nada mesmo diante de você.

Quando já havia perdido todos os sentidos, jogada no chão, como quando você foi embora, abri um livro teu. Tentei decifrar aquelas letras. Era outro mundo. O teu. Usei a fome do meu corpo para me alimentar de cada letra, de cada palavra que eu não entendia. Não sei como, mas comecei a entender como funcionava. Não sei bem ao certo quanto tempo levou, mas eu estava lendo. Li todos os teus livros. Deixaram de ser teus livros. Eram livros. Que existiam independentes de você.

Lavei tuas roupas. Sem teu cheiro, eram apenas roupas. Outras pessoas as usam agora. Doei também teus livros. Depois de lê-los não me serviriam mais. Fico imaginando você hoje, onde quer que esteja, sem essas roupas, sem teus livros…e me deu pena de mim de quando chorava ao olhar para tuas coisas. São apenas coisas, que faziam de você alguma coisa para mim.

Hoje tenho os meus próprios livros. Não os que você me dizia que eram importantes. Os que eu descobri importantes para mim. E descobri também que não gosto mais das roupas que usava quando você estava aqui. Tenho outras roupas. Não pense que estou escrevendo isso para que sinta vontade de voltar. Só quis em você o que nem sabia que tinha em mim. A vida. Também não quero resposta, nem que diga nada. Hoje prefiro o silêncio. Na verdade acho que isso é um agradecimento. Por ter se retirado de cima de mim e me deixar me ver. Me vejo. Me quero. Não quero mais te ver. Não te quero mais.

Te quis um dia por ser covarde demais para querer a mim própria. Ao me deixar, você não me deixou outra alternativa além da coragem. Tive coragem de enfrentar você. Enfrentei tudo o que te representava e te vi diminuindo. Agora, quando te imagino por aí nu, dou risada, porque seria muito ridículo. Você sem teus embustes é muito ridículo. Desculpe. Descobri que sou sincera também. Nada do que me falava era verdade. Você criou um mundo à minha volta para me prender a você e sentir-se melhor ao me inferiorizar. Mas nunca fui inferior à você em nada. E por isso mesmo não preciso me vingar, nem sentir raiva ou querer teu mal.

Espero que seja feliz, vestido com suas fantasias de arrogância e mentiras. As que me assustaram tanto no passado, por parecerem bonitas demais para mim que era uma pobre coitada analfabeta. Mas espero também que não encontre outra como eu, que não consiga te enxergar como o covarde que é. Que você encontre quem te dispa e te mostre no espelho que tuas roupas caras, teus livros grossos, teu linguajar ilustre não passam de subterfúgios, que você usa para humilhar nos outros a pobreza de espiríto que vê em você mesmo.

Da que foi tua presa e hoje é livre.

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