Estou escrevendo para dizer como estou. Primeiramente quero te contar que eu mesma estou escrevendo. Foi um processo difícil… Mas acredite, eu aceitei.

No início não conseguia tocar nas minhas coisas. Olhava minhas roupas sem conseguir sentir o cheiro que elas guardavam, sem sentir a textura dos tecidos que me vestiram em tantos momentos significativos da minha vida. Olhava meus livros… Uma biblioteca de quase cinquenta anos. Tantos ainda com marcadores acusando a não cumprimento do objetivo. Tantos outros com lápis dentro, deformando as páginas riscadas com referências e questionamentos. Não conseguia abrir meu livro preferido para reler os parágrafos que recitava ao fechar os olhos! E vi de longe tantos outros que não pude ler.

Aquela impotência transformou minha incompreensão em ira! Ameaçou minha tristeza com um sentimento que desconhecia em mim, não era meu! Foi uma energia quente que me subia da terra, do chão pelas pernas e se espalhava pela parte interna do meu corpo. Um calor que ma dava forças pra jogar aquelas pilhas de livros pra chão, arrancar as gavetas e puxar todos os vestidos pra baixo, destruindo a estrutura interna do guarda-roupa e acumulando todos meus pertences, objetos que me faziam ser, no centro da casa! O que havia fervendo dentro de mim poria fogo em tudo, na casa toda até que me fizesse impotente para o mundo, inexistente. E nem isso eu consegui fazer…

No instante seguinte parei e me olhei. Olhei para meus pés descalços, minhas pernas nuas... Estava despida. Completamente nua e irada pela casa. Fui tomada por uma vergonha como se eu fosse o foco de uma multidão. Não havia ninguém na casa, apenas eu correndo assustada para se trancar no banheiro. Fechei a porta e encostei chorando, como se fugisse de um perseguidor, e de olhos fechados chorei baixinho como se não quisesse ser ouvida. Aquele calor me tomava com tantos sentimentos mesclados, intensos, que me soavam desconhecidos… Meu choro angustiado começou a sair buscando algum ar, sentei para chorar aos berros enquanto socava o chão, a porta… Até que me esvaziou. O vazio da casa me tomou catatônica por um tempo incontável…

Foi quando a porta abriu e você entrou. Se encarou no espelho e pude ver teus olhos inchados e vermelhos. Levantei e fiquei atrás de você, te encarando tbm, sem me importar com minha nudez, sem poder te tocar, sem poder me enxergar no reflexo… Me perceber desencarnada foi como ser elevada por um pedaço de nuvem, e na subida brusca, meu estômago me indicou adrenalina, meus pêlos um arrepio leve e sublime e você, a força necessária para se refazer.

Estou escrevendo para dizer como estou feliz por se desfazer do que era meu e se permitir recomeçar. Nos encontraremos de novo, pois nossa história se faz em dois, há muito mais tempo do que podemos compreender.

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