morte

Querido Diário

Um passarinho pousou no batente da minha janela. Assim, bem de repente, ele parou ali. Com a barriga amarela e a cabeça preta, ele pousou com uma certeza tão grande de sua presença, que parece que ele tinha até hora marcada em ficar por ali. Olhei pra ele por um bom tempo, parecia que ele entendia o que queria sair de mim.  Me deu inveja de todo o entendimento dele. E aí ele voou.

Estranho escrever nesse papel. Nunca tive um diário, porque sempre gostei de compartilhar minhas idéias com outras pessoas. Acontece que a gente vai ficando velho e vão se acabando as pessoas para compartilhar. E a gente se surpreende sozinho um dia. Sabe que não tem mais ninguém e sabe também que ninguém mais vai chegar. E aí vem tudo junto: o corpo vai diminuindo e a casa vai ficando maior. Se a aventura era percorrer o mundo, agora percorrer a casa e descer as escadas já oferecem a aventura de uma vida. As visitas vão cessando. As atividades também. E as novidades… as novidades não acontecem mais…

Eu sempre ouvia que o tempo passa muito rápido. E passa mesmo. A gente acorda e faz tanta coisa que já está na hora de dormir. O tempo não pára. Ou não parava. Mas hoje eu reparo bem e penso que é a novidade das coisas que acelera o tempo: a gente acelera por dentro, o coração pula pela boca, as mãos ficam suadas. E é a “Eureka”, a descoberta. E quando olhamos, o dia já acabou. Mas hoje. Hoje não há mais nada para eu descobrir. Esgotaram-se as novidades do mundo, esgotou-se eu também. E o tempo está passando cada vez mais devagar. A surpresa, a festa, o susto, a aceleração do coração… acabaram. As borboletas que voavam dentro do meu estômago parecem estar paradas faz tempo. Ou mortas.

Por isso, diário, de fato: não quero mais ficar. Estranho eu falar isso pra você, pois você é um papel, e você sou eu. Mas eu não tenho mais com quem dizer que eu quero me livrar da existência. Parece que tudo, absolutamente tudo que eu vivo hoje é uma versão menor de alguma coisa que eu já vivi antes. Parece que tudo o que eu sinto no meu peito, já foi sentido antes e de forma mais inteira, mais intensa…É como se eu, velho, já tivesse experimentado tudo e cada acontecimento no meu corpo é só uma reprise, uma marmita requentada, algo que já conheci de maneira melhor. É como tomar novamente aquele sorvete que tomava na casa da vovó e que, hoje, já não tem mais o mesmo gosto.

O que me faz querer permanecer? O que me mantém preso a vida? Preso numa casa com rampas apenas um telefone como salvação e a visita do entregador de cartas – normalmente com contas ou propagandas – são os acontecimentos do dia. E aí o tempo passa devagar e sobra espaço pra tudo ficar martelando a cabeça: aquilo que eu fiz e que não fiz na vida. Os sonhos que não tive coragem de empreender. O caminho que eu virei a esquerda, e não a direita. Aquela pessoa que eu deixei passar despercebida. Aquelas conversas que eu não consegui terminar. E aí, na moleza do travesseiro, tudo chega invadindo as ideias: as respostas certas que eu deveria ter dito e a tranquilidade de poder mudar de caminho, mesmo no meio da rota. O que adianta agora? A conclusão tão bem arquitetada deveria ter chegado anos antes. Hoje, de que me servem? Pra minha história, não há remendos, band-aids, esparadrapos, ou qualquer tipo de reparação. Pra servir de lição para quem ainda as vive? E quem quer escutar aquilo que eu tenho pra contar?

Querido diário, eu espero a morte. Espero que ela venha como uma resposta para todas as perguntas ou como um alívio a me tirar dos ombros, o peso de ter existido. Olho para cada canto dessa casa e tenho tanta intimidade com tudo, que nada mais me oferece resistência. E, por não oferecer resistência e desafio, não me oferece mais prazer. Quero ir embora, partir, morrer. Sinto uma tranquilidade quando fecho os olhos e penso nessa idéia. É  a resolução de uma vida, o impacto final. Há ainda o que ser descoberto? Há ainda algo onde eu posso voltar o meu olhar carinhoso na esperança de que meus olhos brilhem de novo? Um leve brilho, um pequeno pulsar de labareda, um calor que deixe meu corpo inteiro um pouco mais morno, mais atento, mais – enfim – vivo?

Querido Diário

Estou sentado na beira da cama e na beira da morte.

E aí o passarinho pousa novamente no batente da minha janela. E canta.

Ainda bem que é primavera.

Vou me levantar.

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